Celeste Sloman / The New York Times
Celeste Sloman / The New York Times

O percurso contínuo da construção da identidade (de gênero) humana

Há menos de 20 anos, os que lutavam para entender as próprias sexualidades e identidades de gênero só tinham alguns adjetivos para se descreverem; hoje, são muitos

Dan Levin, The New York Times

21 de julho de 2019 | 06h00

Marta Levin sempre soube que gostava tanto de meninos quanto de meninas, mas quando se tornou adulta, não tinha interesse em beijar quem quer que fosse. Tinha dificuldade para relacionar-se com as suas amigas  quando conversavam de suas paixões.

No secundário, Marta começou a usar o site Tumblr, então plataforma de mídia social favorita dos adolescentes. Ali, ela descobriu uma linguagem que ia muito além dos rótulos familiares de identidade de gênero e  orientação sexual. Ela aprendeu o que é pertencer ao grupo dos assexuados, pessoas que não sentem atração sexual, e disforia de gênero, o incômodo que as pessoas sentem quando a sua identidade de gênero é diferente do sexo que lhes foi atribuído ao nascer.

Agora, aos 22 anos, Marta se identifica como birromântica e demissexual. Pode apaixonar-se por mais de um gênero, a não ser que antes estabeleça um forte vínculo emocional. “Há muito mais pessoas como nós do que se possa imaginar”, afirmou. “Nós criamos todos estes rótulos para tentar descrever a experiência humana, mas é algo impossível, porque a experiência humana é infinita”.

Há menos de 20 anos, os que lutavam para entender as próprias sexualidade e identidade de gênero só tinham alguns adjetivos convencionais para se descreverem -  heterossexual, lésbica, gay, bissexual e transgênero. Atualmente, muitos adolescentes consideram a identidade de gênero algo que existe em um espectro mais amplo. Os pronomes de uma pessoa, também, não estão limitados ao masculino e feminino, e o gênero neutro vêm ganhando um uso e uma aceitação mais amplos. E há ainda os que escolhem pronomes diferentes, dependendo do gênero com o qual se identificam mais em determinado dia.

Mais de 33% dos adolescentes americanos e dos jovens com pouco mais de 20 anos conhecem alguém que usa pronomes de pessoa neutros, mostra uma pesquisa recente - o dobro do número dos que estão na faixa dos 40 e o triplo das pessoas na faixa dos 50 e 60.  E cerca da metade dos 23 mil estudantes LGBTI+ entre os 13 e os 21 anos que foram entrevistados em uma pesquisa de 2017 pelo GLSEN, um grupo de jovens LGBTI+, disseram que se identificavam como bissexuais ou pansexuais, enquanto 25% se identificava como transgênero, um aumento em relação a menos de 10% em 2013.

Identidades como transgêneros e não binárias não são uma novidade, mas a moderna tecnologia permitiu que os jovens se informassem facilmente a respeito de identidades diferentes, disse A.T. Furuya, gerente do GLSEN. O aumento das identidades transgênero e não binárias levou algumas escolas e campi universitários a se tornarem mais inclusivos, e os legisladores de seis estados introduziram projetos de lei que acrescentam um marcador não binário às licenças de motoristas.

Entretanto, o aumento da visibilidade também gerou uma reação contrária dos conservadores sociais. Vários estados aprovaram leis que proíbem estudantes transgêneros de usarem banheiros que não se coadunam com o seu sexo biológico. Dois anos atrás, o governo Trump rescindiu as diretrizes do governo Obama para as escolas que permitiam que estes estudantes assim fizessem. Em maio, propôs a abolição das proteções dos direitos civis a pessoas Transgêneros.

Tais medidas poderão ter consequências fatais, advertiu Amit Paley, diretor executivo do Trevor Project, grupo que oferece serviços de intervenção em momentos de crise a jovens LGBTI+. Estudantes do segundo grau lésbicas, gays e bissexuais têm quase cinco vezes mais probabilidade de tentar suicídio em comparação a seus colegas heterossexuais, segundo um relatório de 2015 dos Centers for Desease Control and Prevention. Entretanto, jovens transgênero que recebem apoio experimentam taxas consideravelmente menores de depressão, constaram os pesquisadores.

Segundo Caden Farley, um jovem transgênero que concluiu o curso secundário em Nova Jersey e usa os pronomes neutros, determinar a sua identidade é algo mais complexo. “Eu me incluo entre o masculino e o feminino”, explicou o jovem de 18 anos. Inicialmente, estes jovens se revelam durante o primeiro ano como masculinos transgêneros, mas é somente depois de descobrirem o termo “não binário” online que eles se sentem realmente confortáveis.

Embora os jovens LGBTI+ encontrem refúgio online, muitas vezes enfrentam objeções em relação às suas identidades sexuais e de gênero por parte de outros membros da sua comunidade. Victor, de 18 anos, um homem transgênero bissexual de Maryland, disse que, quando se descobriu no primeiro ano do secundário, foi criticado por pessoas que pensaram que lhe dariam apoio: os colegas do grupo da aliança de gays-heteros no secundário, que afirmaram que a identidade de gênero masculina de Victor não era legítima. 

“Eu não fui aceito plenamente porque era um homem trans”, afirmou. “Eu me senti muito isolado”. No entanto, ele disse que ficou muito emocionado pelo fato de os jovens agora encontrarem rótulos e comunidades que se incorporem com a sua experiência pessoal. “É uma forma de legitimação”, defendeu. “Poder discutir estes problemas abertamente faz com que a gente se convença de que não esta só”. / ANNA CAPOVILLA 

 

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