Jeremy M. Lange for The New York Times
Jeremy M. Lange for The New York Times

O perigo oculto do 'esverdeamento global'

A expressão soa bem. No longo prazo, é terrível

Carl Zimmer, The New York Times

06 Agosto 2018 | 10h15

As plantas precisam de dióxido de carbono para crescer, e estamos agora emitindo aproximadamente 40 bilhões de toneladas desse gás na atmosfera a cada ano. Vários pequenos estudos sugeriram que os humanos, na verdade, contribuem para uma elevação na fotossíntese em todo o mundo.

Eliot Cambell, pesquisador da área ambiental da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, e seus colegas publicaram no ano passado um estudo que confere um número a esse fenômeno. As plantas estão convertendo 31% a mais de dióxido de carbono em matéria orgânica do que antes da Revolução Industrial.

Os que negam as mudanças climáticas foram rápidos ao se agarrar à pesquisa de Campbell como prova de que a elevação no índice de dióxido de carbono está tornando o mundo melhor.

“As melhores mensagens são positivas: o CO2 aumenta as colheitas, a terra está ficando mais verde”, escreveu Joseph Bast, CEO do Heartland Institute, em um e-mail obtido pela EE News.

Campbell acredita que pessoas como Bast estão depreendendo lições equivocadas de sua pesquisa. 

Sim, nós retiramos muito mais comida das áreas cultivadas do que um século atrás. Mas o dióxido de carbono extra é responsável por uma fração desse aumento de produção. “Uma elevação de 30% no grau de fotossíntese não se traduz em uma elevação de 30% na produção de morangos”, afirmou Campbell.

Enquanto a fotossíntese retira dióxido de carbono da atmosfera, grande parte do gás retorna ao ar. 

No processo noturno da respiração, as plantas emitem dióxido de carbono em vez de consumi-lo. “Uma parte da história é que a fotossíntese está aumentando e outra parte da história é que a respiração também está”, afirmou Campbell.

Ainda que a elevação no índice de fotossíntese seja maior do que o aumento da respiração, os benefícios aos cultivos foram pequenos. E, de qualquer maneira, plantas que crescem em razão de maior cosmo de dióxido de carbono frequentemente apresentam menor concentração de nutrientes.

Em um artigo publicado na edição de junho da revista científica Current Opinion in Plant Biology, Johan Uddling, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e seus colegas especularam que a taxa de dióxido de carbono se eleva na mesma medida em que micróbios do solo consomem mais nutrientes, deixando menos para as plantas.

No total, cientistas estimam que as plantas retiram um quarto do dióxido de carbono que nós depositamos na atmosfera. “Isso tendo como medida as emissões da China”, afirmou Campbell. “E a China é o maior poluidor global.”

De maneira ainda mais notável, as plantas têm depurado do ar uma fração similar de dióxido de carbono mesmo enquanto nossas emissões explodem. “Todos os anos, construímos ainda mais usinas de energia, e todos os anos as plantas retiram mais CO2 da atmosfera”, afirmou Campbell.

Mas isso não é um fato para ser comemorado. Apesar do esverdeamento global, os níveis de dióxido de carbono atingiram picos ao longo dos últimos dois séculos. E o dióxido de carbono que injetamos na atmosfera já está ocasionando grandes impactos em todo o planeta.

Os seis anos mais quentes já registrados na história ocorreram todos após 2010. O clima já se tornou mais extremo. O nível do mar se elevou. Os oceanos estão se acidificando.

Se o esverdeamento global não está nos salvando agora, não podemos achar que ele vai nos salvar no futuro.

Campbell e seus colegas não sabem nem quanto tempo o esverdeamento global vai durar. Enquanto as temperaturas se elevam e os padrões de chuvas mudam, as plantas poderão parar de consumir os dióxido de carbono extra.

“As plantas estão silenciosamente depurando do ar uma quantidade de carbono equivalente à produção de uma China”, afirmou Campbell. “Se o índice de respiração alcançar o de fotossíntese, esse enorme reservatório de carbono poderá vazar de volta à nossa atmosfera.” 

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