Alfândega e Proteção à Fronteira dos EUA via The New York Times
Alfândega e Proteção à Fronteira dos EUA via The New York Times

O preço de atravessar a fronteira dos EUA

Uma perspectiva individual de uma jornada perigosa, desafiadora e cara

Nicholas Kulish, The New York Times

22 Julho 2018 | 10h15

MATAMOROS, MÉXICO - Pouco antes do nascer do sol de um domingo de agosto do ano passado, um motorista num SUV apanhou Christopher Cruz num cativeiro de Matamoros, cidade fronteiriça perto do Golfo do México. O jovem de 22 anos de El Salvador ficou feliz em sair de lá, mas tinha grande ansiedade em relação ao que vinha pela frente.

O motorista depositou Cruz num ponto de travessia ilegal da fronteira, à margem do Rio Grande. Um contrabandista tirou uma foto para confirmar a identidade dele e a enviou por WhatsApp para um motorista do outro lado da fronteira.

A viagem de 3 mil quilômetros já tinha custado à família de Cruz mais de US$ 6 mil, trazendo-o para perto de Brownsville, Texas. Os 800 quilômetros restantes até Houston custariam outros US$ 6.500. Trata-se de uma quantia quase inconcebível para alguém que ganhava apenas alguns dólares por dia colhendo café em sua terra natal. Mas ele não estava sonhando com os benefícios de um emprego com salário melhor. Seu objetivo era fugir da violência e do que ele disse ser a morte certa nas mãos das gangues locais.

"Não há alternativa", disse Cruz. “O primeiro pensamento que tive foi, 'Preciso sair daqui, não importa o preço'".

O trecho da fronteira situado no sudoeste se tornou o epicentro da batalha em andamento envolvendo a repressão do governo Trump aos imigrantes. Uma clara consequência do policiamento reforçado da fronteira americana é o fato de as famílias, desesperadas, recorrerem a operações de contrabando cada vez mais sofisticadas para trazer seus parentes aos Estados Unidos.

Mesmo com o elevado valor pago por sua família, ele dormiu em meio à sujeira e aos vermes. Às vezes os contrabandistas se referiam a ele usando um código numérico, e em outras ocasiões, usavam um nome combinado entre eles. Mas, com frequência, mencionavam-no apenas como "o pacote".

Para Cruz, valeu a pena. "Eles podem construir todos os muros que quiserem", disse, referindo-se às autoridades americanas. "Podem mandar à fronteira todos os soldados que quiserem; o desejo das pessoas de uma vida melhor será mais forte".

Dez anos atrás, os mexicanos e centro-americanos pagavam de US$ 1.000 a US$ 3 mil pela entrada clandestina nos EUA. Agora, este pagamento pode chega a US$ 9.200, de acordo com relatório do Departamento de Segurança Interna publicado no ano passado.

Naquele dia de meados do ano passado, no Rio Grande, os contrabandistas reuniram os imigrantes na margem da água. Cruz tirou a calça jeans e a camiseta e nadou até o outro lado.

Depois de atravessar o rio, a pequena multidão de imigrantes começou a correr na direção da cerca de aço de cinco metros de altura que tenta impedir a entrada nos EUA. Cruz já tinha escalado metade da cerca quando ouviu um helicóptero se aproximando, bem como carros de patrulha. Agentes agarraram aqueles que já estavam na cerca e começaram a prendê-los.

"Quando vi o que estava acontecendo, desci da cerca e voltei correndo", lembrou Cruz. Ele mergulhou novamente no Rio Grande, sua única esperança de escapar para o México.

Medo da morte

Cruz cresceu em San Miguel. A violência entre gangues é um problema endêmico no país, e Cruz abandonou o ensino médio quando a famosa gangue MS-13 se tornou perigosa demais na região. Sua família se mudou para Berlín, onde o problema das gangues não era tão grave.

A mãe de Cruz vivia nos EUA, mas ele era muito mais próximo do irmão dela que morava lá, um tio que ele tratava como uma figura paterna e chamava de "Papi". Cruz morava com a avó e a irmã mais nova. Ele também tem um filho de 2 anos.

A polícia praticamente declarou aberta a temporada de caça a jovens com idade para integrar as gangues, disse Cruz, e ele e os amigos passaram a ser alvo de assédio e violência por parte das forças de segurança. Enquanto isso, membros das gangues o ameaçavam com frequência.

"Essa é a realidade de El Salvador", contou. "Temos medo de ambas: das gangues e da polícia".

O tio de Cruz usou o WhatsApp para entrar em contato com uma mulher no México que representava uma rede de contrabandistas, e ela se tornou seu ponto de contato durante a jornada de Cruz. O tio, que agora vive legalmente nos EUA depois de chegar clandestinamente anos atrás, falou sob condição de anonimato porque teme ser processado pelo envolvimento do contrabando de um parente.

A tia e o tio de Cruz ganharam o bastante para emprestar a ele o dinheiro necessário para a jornada, mas Cruz teria de devolver a soma ao casal. Eles transferiram US$ 800 para El Salvador. "Assim que tiver a oportunidade de se conectar, envie-me uma mensagem com sua localização", escreveu o tio. "Ative o recurso Buscar iPhone para que você possa saber onde estou por meio do iCloud", respondeu Cruz. "Assim, você saberá o caminho que estou fazendo".

O custo da viagem

No começo, foi quase como uma viagem de turismo. Cruz entrou legalmente na Guatemala a bordo de uma caminhonete pilotada por um contrabandista em La Hachadura usando seu documento nacional de identificação.

O motorista o levou num ônibus até a capital, Cidade da Guatemala. Eles trocaram de ônibus e viajaram até Huehuetenango, que serve como ponto de travessia perto da fronteira mexicana. Eles passaram a noite num hotel barato e viajaram no dia seguinte até La Mesilla, na fronteira com o México.

Para evitar o posto de controle policial, o contrabandista orientou Cruz a seguir por uma área industrial, onde caminhou sozinho por uma estrada de cascalho até entrar no México. Pela primeira vez, ele se tornou um imigrante ilegal.

Cruz embarcou num miniônibus para começar a viagem atravessando o estado de Chiapas, no sul do país. Seguindo as orientações do motorista, ele se agachava e se cobria com as mochilas e pertences dos outros passageiros quando o veículo se aproximava dos pedágios. Passados apenas dois dias desde o início da jornada de Cruz, sua família teve de transferir aos contrabandistas US$ 1.900 para que o transportassem pelo sul do México.

Depois de várias noites em Chiapas, Cruz subiu na cabine de um trator e viajou ao longo do rio. Policiais pararam o trator para uma verificação de rotina e, depois de verem o documento salvadorenho de Cruz, perceberam que ele estava no México ilegalmente. Exigiram dinheiro, caso contrário, eles o deportariam, disse Cruz. Ele sacou US$ 170 que trazia escondidos nos sapatos.

Nas paradas subsequentes, o suborno para a polícia era sempre o mesmo: 1.500 pesos mexicanos, o equivalente a cerca de US$ 84. Na quarta vez em que foi parado para o pagamento de suborno, o policial simplesmente disse: "Você já sabe quanto custa". 

Foi assim que Cruz chegou até Puebla, a sudeste da Cidade do México. Sua família transferiu US$ 450 aos contrabandistas. Depois de uma semana na cidade, Cruz se escondeu dentro da cabine de um trator para a viagem noturna até Monterrey.

Longe do centro de Monterrey, atrás de um portão, as janelas e portas da casa onde Cruz foi mantido estavam fechadas e bloqueadas. Havia lixo por toda parte. Formigas e baratas rastejavam pelo chão.

"Foi como uma prisão", disse Cruz. À noite, segundo ele, era impossível dormir com os insetos e camundongos ao seu redor.

Ele ficou ali por quatro dias. Seu tio enviou mais US$ 2.800, e os contrabandistas o levaram até o estado de Tamaulipas, que faz fronteira com o sul do Texas.

Do outro lado do Rio Grande

Cruz estava doente. Tinha pressa em sair dali, mas seus ataques de tosse obrigaram os contrabandistas a esperar. Não queriam que ele entregasse sua localização.

A família dele mandou US$ 180 para os contrabandistas, que disseram que metade da quantia seria usada para comprar remédio e a outra metade, para comprar um telefone reserva. Doses de xarope para tosse e vários dias de repouso tiveram o efeito desejado. Naquela noite de sábado, Cruz escreveu para o tio: "Partiremos às 4h da manhã".

A região, pela qual o Rio Grande faz um percurso sinuoso, tornou-se o principal campo de batalha daqueles que tentam entrar ilegalmente nos EUA. Cerca de 138 mil pessoas foram apanhadas ali, em 2017, tentando cruzar a fronteira. Dirigíveis equipados com câmeras proporcionam ao policiamento da fronteira o recurso da vigilância por vídeo. Os imigrantes ativam sensores sísmicos com seus primeiros passos em solo americano. O número de agentes policiando a fronteira aumentou de aproximadamente 9 mil em 2001 para cerca de 20 mil.

Os contrabandistas reuniram Cruz e mais de 20 outros imigrantes e os colocaram na traseira de um SUV. Preso numa quina do veículo e oprimido pelo peso dos outros imigrantes, Cruz teve dificuldade para respirar.

Chegando ao Rio Grande, ele nadou até o outro lado, enquanto aqueles que não sabiam nadar eram puxados em câmaras de ar pneumáticas. Os imigrantes de seu grupo começaram a subir na cerca da fronteira. Mas a patrulha fronteiriça avançou contra eles. Cruz percebeu que tinha de voltar para a outra margem do rio.

Como é de costume, os contrabandistas deram a ele três oportunidades de chegar ao outro lado em segurança.

A segunda tentativa, em outro ponto de travessia nas imediações, foi ainda mais breve que a primeira. Agentes da patrulha de fronteira apanharam o grupo assim que os imigrantes chegaram ao outro lado. Cruz fugiu nadando.

O sol já estava baixo quando os contrabandistas trouxeram os imigrantes ao terceiro ponto de travessia. Eles disseram que aquela rota, mais isolada, era reservada para o contrabando de drogas, mais valioso que o tráfico de seres humanos.

Cruz lembra que, das 17 pessoas restantes, cinco eram mulheres, incluindo uma gestante e uma mulher que aparentava ter mais de 50 anos. Ele se perguntou como elas conseguiriam concluir a travessia, mas sua família o tinha alertado: preocupe-se apenas consigo. Não pare para ajudar ninguém.

Cruz mal pôde acreditar na determinação da gestante enquanto eles emergiam do outro lado do rio. Mas a mulher mais velha ficou para trás e caiu no chão. O guia deles nada fez. "Ele simplesmente a abandonou ali", disse Cruz.

Pouco mais que um refém

Um rápido trajeto de carro o levou até o estacionamento onde os contrabandistas separaram os imigrantes em diferentes carros, dependendo de seu destino final. Cruz e cinco outros foram embarcados num Cadillac com destino a um cativeiro em McAllen, Texas.

Após um dia e meio, Cruz encolheu-se com quatro outros imigrantes escondidos na cabine de um trator com destino a San Antonio.

Ele foi levado a um último cativeiro, onde tomaram suas roupas e o deixaram apenas de cuecas, pouco mais que um refém à espera dos últimos pagamentos. Dois dias se passaram.

A família dele tinha de transferir os US$ 6.500 restantes à rede de contrabando. Embora a soma recorde de US$ 28,8 bilhões tenha sido remetida ao México no ano passado, as autoridades monitoram ativamente as transações suspeitas. O tio de Cruz teve de dividir a soma devida em transferências menores para não chamar a atenção.

Foi somente quando o último pagamento chegou ao México que Cruz foi liberado. "Eles me devolveram as roupas, e me vendaram novamente", disse ele. Os contrabandistas o levaram a um posto de gasolina. Ali ele reconheceu o rosto do tio. Cruz começou a chorar.

O alívio com o fim da jornada não durou muito. Cruz estava agora num país desconhecido, sem falar o idioma local e impossibilitado de trabalhar legalmente. Teria de se esconder à vista de todos. Estava devendo US$ 12.630. Mas ele disse que, pelo menos, não tinha mais medo de morrer. "Aqui estou em segurança", afirmou.

Cruz planejava juntar dinheiro novamente para recomeçar o processo, pagando pela vinda do filho, da irmã e da avó. "Sonho em trazê-los para cá", disse ele. / Ron Nixon, Nadia T. Rodriguez e Cecilia Ballí contribuíram com a reportagem.

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