Adam Rose/Fox
Adam Rose/Fox

O programa que fez da dança algo popular

Em 'So You Think You Can Dance', os dançarinos deixaram o segundo plano e ganharam os holofotes

Brian Schaefer, The New York Times

14 Junho 2018 | 10h00

No primeiro semestre de 2005, o produtor Jeff Thacker foi a Miami para participar dos testes para uma nova competição de dança no formato reality TV. Ele entrou em contato com escolas e estúdios de dança e distribuiu folhetos em casas noturnas e discotecas. Quatro pessoas atenderam ao chamado. Dois anos depois, ele voltou a Miami para os testes dos participantes do mesmo programa, que tinha se tornado um sucesso inesperado. Mais de 1,4 mil pessoas compareceram.

O programa era “So You Think You Can Dance” e, nos anos que se seguiram à sua estreia, a atração ajudou a tirar os dançarinos do fundo do palco e colocá-los nos holofotes, elevando o status dos coreógrafos na indústria do entretenimento e inspirando a estreia de outros programas de dança nos Estados Unidos e outros países, incluindo China, Vietnã, Polônia, Armênia e Moçambique. 

“So You Think” está em sua 15.ª temporada. Sua exibição coincidiu com um período de prosperidade para a dança na cultura popular. “Dancing With the Stars", que reúne celebridades e dançarinos profissionais, foi lançado mais ou menos no mesmo semestre que “So You Think You Can Dance". Outras competições de dança televisionadas foram ao ar, como “America’s Best Dance Crew” e, mais recentemente, “World of Dance", de Jennifer Lopez, que está na segunda temporada.

Além desses programas, a dança tem aparecido com mais frequência e destaque nos filmes e na TV - desde “Glee” e “La La Land” até os filmes da série “Step Up”. Thacker, que era dançarino e coreógrafo antes de se tornar produtor, enxerga uma correlação. Ele disse que “So You Think You Can Dance” “abriu novos espaços para a dança em todo o entretenimento".

Para os dançarinos que aparecem no programa, a exposição é claramente positiva, trazendo fãs instantaneamente e boas relações na indústria. Alex Wong era solista principal no Balé da Cidade de Miami quando decidiu de uma hora para a outra fazer o teste de “So You Think". Wong, que cresceu com o sapateado e o jazz e tinha vontade de “voltar às raízes", estava se destacando na temporada 7 quando uma lesão o obrigou a abandonar o programa.

Ainda assim, ele conseguiu converter a experiência numa constante sequência de trabalhos nos palcos e nas telas, bem como lucrativas oportunidades como professor. “Sem o programa, a transição da companhia de balé para o mundo comercial teria sido difícil", disse ele. “É quase como um curso de treinamento intensivo.”

Mas aparecer (ou mesmo sagrar-se campeão) no “So You Think” não é uma garantia de sucesso na carreira. Melanie Moore, campeã da temporada 8 que deu início a uma bem sucedida carreira na Broadway, disse que o programa é pouco apreciado pelos diretores de teatro, chegando a ter uma conotação negativa por causa das raízes no estilo reality TV. “Descobri o estigma e as reações de indiferença", disse ela. 

Os ganhadores seguiram diferentes caminhos: Benji Schwimmer (temporada 2) coreografou o número de patinação artística olímpica de Adam Rippon; Jeanine Mason (temporada 5) está em “Grey’s Anatomy”; e outros criaram o espetáculo de dança itinerante “Shaping Sound".

“So You Think” é um trampolim natural para os dançarinos, mas talvez o legado mais importante e significativo seja a plataforma proporcionada aos coreógrafos. “As pessoas que não pertencem ao mundo da dança nem sequer conheciam a palavra ‘coreografia’”, disse Mia Michaels, que ganhou três prêmios Emmy por seu trabalho no programa. “Os coreógrafos se tornaram nomes conhecidos, algo incrível para nossa indústria.”

Essa visibilidade trouxe a eles um crescente poder de influência em Hollywood, onde a Academia de Televisão criou recentemente um grupo de jurados coreógrafos cujos membros votam para escolher o ganhador do Emmy de melhor coreografia. “O programa nos fortaleceu enquanto categoria", disse Mandy Moore (nenhum parentesco com a atriz de mesmo nome), líder do grupo de jurados, que começou como assistente em “So You Think", trabalhou com as coreografias na temporada 3 e agora é produtora do programa.

Mas nada disso mudou muito o universo mais conceitual dos concertos de dança, para o qual o programa não é levado a sério por causa dos números extravagantes. “Esses números menores e elaborados são como uma forma de arte em si", disse Mia.

Outros do universo dos concertos de dança aplaudem a contribuição do programa para o ecossistema mais amplo da dança.

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