Mustafah Abdulaziz / The New York Times
Mustafah Abdulaziz / The New York Times

O que fazer quando Mercúrio está retrógrado?

Pesquisa concluiu que 62% dos americanos acreditam em, pelo menos, um de quatro conceitos espirituais, como reencarnação e astrologia, e 41% acreditam em espiritismo

Caroline Arbour, The New York Times

28 de abril de 2019 | 06h00

E se as respostas a todas as indagações prementes da vida estiverem disponíveis por US$ 19,99 ao mês? Observar as estrelas, solicitar a ajuda de médiuns espíritas ou outros rituais que nos ajudem a enfrentar as incertezas da vida, não são nenhuma novidade. E nem ganhar dinheiro com estas incertezas. 

Nos últimos anos, a astrologia “trocou o seu estigma psicodélico da nova-era pela moderna magia do Instagram” e adquiriu uma considerável popularidade, noticiou The Times. Uma pesquisa realizada em 2017 pelo Pew Research Center concluiu que 62% dos americanos acreditam em, pelo menos, um de quatro conceitos espirituais identificados como “Nova Era”, como a reencarnação e a astrologia, e 41% acreditam em espiritismo.

O Co-Star, um aplicativo de astrologia, foi baixado mais de três milhões de vezes. Entretanto, estudos científicos não mostram qualquer correlação entre a localização dos planetas e o comportamento das pessoas. Na realidade, a comunidade científica rejeita ativamente a astrologia, segundo o jornal.

Mas deixar de lado a ciência faz parte do fascínio da astrologia, permitindo que a sua “irracionalidade invada o nosso modo de viver tecno-racionalista”, como afirma o site do Co-Star. Assim como é da natureza humana buscar respostas para o desconhecido, também faz parte da natureza humana procurar algo para culpar quando as coisas vão mal. Agora, as pessoas apontam o dedo para uma luzinha inocente lá no céu: Mercúrio.

De três a quatro vezes ao ano, ocorre uma ilusão ótica quando Mercúrio passa entre a Terra e o sol, dando a impressão de estar se movendo para trás em um movimento “retrógrado”. Segundo os astrólogos, este movimento desencadeia eventos caóticos. A frase “Mercúrio está retrógrado” tornou-se uma brincadeira comum, usada quando tudo parece ter enlouquecido ao nosso redor.

Susan Miller, a força que comanda o site Astrology Zone, disse ao The Times que, embora a preocupação com Mercúrio retrógrado tenha aumentado, seus efeitos  costumam ser exagerados. “Não é trágico”, disse. “É incômodo”.

A astrologia não é o único hobby que está novamente em moda. Uma análise mostrou que a indústria dos “serviços espirituais” nos EUA cresceu de modo persistente nos últimos cinco anos, chegando a US$ 2 bilhões em receitas em 2018, segundo publicou The Times.

Alguns médiuns espíritas se apresentam também no papel de técnicos do bem-estar, além de oferecer os seus serviços. “A maioria dos médiuns com os quais trabalhamos está menos interessada no truque de exibir as próprias habilidades espirituais e mais em ensinar as pessoas, mulheres em particular, a confiar na própria capacidade e a confiar na própria intuição”, explicou Noora Raj Brown, executiva da área de comunicações do império Goop, de Gwineth Paltrow.

Mas assim como a internet favoreceu o florescimento do setor, também tornou as pessoas mais vulneráveis ao golpe. Gente que se proclama espírita extrai as informações da presença online de clientes para inventar leituras e explorar seus fiéis seguidores. “Dizer às pessoas o que você acha que elas querem ouvir, ainda que não seja necessariamente danosa, equivale quem sabe a pôr um Band-Aid em algum machucado”, comparou Lisa Levine, fundadora do Maha Rose, um centro de bem-estar em Nova York. “E talvez seja isto o que a pessoa mais quer, um Band-Aid, ou algum tipo de ‘está tudo bem’ ”.

Em um mundo caótico, imprevisível, a confiança que estes serviços inspiram aos clientes faz parte do seu apelo. As pessoas recorrem a estas práticas “para terem a sensação de que existe alguma estrutura, alguma esperança, estabilidade em sua vida”, ressaltou a astróloga Aliza Kelly. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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