Seth Mydans/The New York Times
Seth Mydans/The New York Times

O que permanece depois do genocídio cambojano

14 mil prisioneiros foram torturados antes de serem enviados a um campo da morte para execução

Seth Mydans, The New York Times

07 Dezembro 2018 | 06h00

Esta foi uma pergunta corriqueira em um processo que tratava da crueldade e do sofrimento infligidos durante os quatro anos de governo brutal dos fanáticos do Khmer Vermelho, no Camboja. A testemunha havia sido chicoteada, espancada, submetida ao quase sufocamento com um saco plástico? O seu torturador cutucou suas feridas com um bastão, teve as unhas arrancadas, sofreu choques elétricos nas orelhas? O comandante da prisão Kaing Guek Eav, conhecido como Duch, costumava espancá-la até desmaiar, ou Duch ficava mais atrás rindo enquanto olhava, como declararam algumas testemunhas?

Duch foi o primeiro réu no processo realizado contra o Khmer Vermelho com o apoio da ONU que eu cobri por mais de dez anos, até, aparentemente, os vereditos finais, no mês passado, com a condenação por genocídio de dois dos seus principais líderes. Eles foram os últimos sobreviventes de um grupo de revolucionários responsáveis pela morte de pelo menos 1,7 milhão de cambojanos de 1975 a 1979, por meio de execuções, da fome, de trabalhos forçados ou doenças.

Eles deixaram para outros, como Duch, serem responsáveis pelas mortes. Ele era o comandante da prisão principal do Khmer, Tuol Sleng, ou S-21, onde pelo menos 14 mil prisioneiros foram torturados durante dias ou semanas, antes de serem enviados - quase todos eles - para um campo da morte para a execução.

Era um lugar perigoso para se trabalhar. Um terço dos funcionários foi executado, às vezes por se dedicarem à tortura com excessivo entusiasmo e deixarem o prisioneiro morrer. Duch passou a simbolizar para mim a crueldade fria, impessoal, de um movimento que se pautava pelo slogan “Mantê-los não é um ganho, destruí-los não é um prejuízo”.

Cheguei ao Camboja em 1996, quando o país estava em frangalhos e mal respirava por causa da devastação de quatro anos de massacres, seguidos por mais de uma década de guerra civil, enquanto o Khmer Vermelho voltava à sua revolta na floresta.

Já havia visto o trauma, mas nunca uma nação traumatizada. Tive de lembrar a mim mesmo que todos os adultos que conheci eram sobreviventes ou ex-assassinos, que teriam de tentar viver com o que haviam visto ou feito. Quase todos haviam perdido membros da família. E carregavam dentro de si milhões de minúsculos mundos de sofrimento.

Visitei as vítimas de minas terrestres da guerra civil no hospital militar, um lugar escuro e sombrio, sem fornecimento regular de água ou eletricidade, onde os homens me imploravam para que lhes arranjasse muletas. Outros, para sempre deformados e rejeitados pela sociedade, saltitavam pelo mercado pedindo esmolas.

Em um hospital público entrevistei um psiquiatra que tratava sobreviventes traumatizados. Mas ele parecia incapaz de se concentrar. As suas palavras eram um devaneio sobre as suas próprias perdas: um filho, uma esposa, um pai. Mas ele insistia que não estava sofrendo por causa do trauma.

Uma comerciante de arroz de 52 anos me contou que tinha problemas intestinais e desmaiava quando ia ao banheiro. Ela sofria de convulsões e tinha medo de sair sozinha. Fechou os olhos. “Vejo um homem correndo, e vejo um homem atirando”, ela falou. “Ouço o som dos tiros. Ouço as pessoas dizendo: ‘Ai, mataram ele!’ é como uma fotografia na minha mente”.

Muitos com lembranças igualmente assustadoras afirmaram que se sentiam perturbados pelas perguntas: Quem nos fez isto, e por quê? O processo tentava responder a estas perguntas e compilou um conjunto incalculável de dados históricos. Entretanto, acabou levantando uma questão mais profunda: O que movia estes assassinos e torturadores? Será que homens como Duch são diferentes de nós, ou todos nós carregamos em nós sementes que, nas condições certas, podem nos transformar em animais ferozes?

“Como foi possível que seres humanos se tornassem parte de um projeto de assassinato em massa”, perguntou Alexander Laban Hinton em “Man or Monster?”, seu livro sobre Duch. “É muito fácil rotular pessoas como sociopatas ou psicóticas. No entanto, é preciso realmente encarar a sua humanidade.”

Duch contou aos juízes que tentara deixar esta função em Tuol Sleng, mas quando a assumiu sentiu-se determinado a realizá-la corretamente. E declarou com orgulho que inventou ou aprimorou alguns dos métodos de tortura que descreveu. Ele controlava as listas dos que seriam executados, inclusive uma com os nomes de 17 crianças. A instrução que ela continha era: “Mate todas elas”.

Um estudioso da história cambojana, David P. Chandler, examinou a questão da culpabilidade em seu livro “Voices from S-21” e concluiu que “para encontrar a origem do mal que era praticado diariamente no S-21, não precisamos olhar mais longe do que em nós mesmos”.

É fácil imaginar, enquanto sentava no banco dos réus, que Duch era um homem que comandava uma instituição dedicada à tortura. Para ele, um tribunal não era nada. A força da sua personalidade fazia com que todos os outros parecessem menores. Às vezes, ele corrigia as testemunhas no seu depoimento ou os advogados que confundiam o número da página ou uma referência. Certa vez, um juiz o repreendeu dizendo que uma risada não era uma resposta adequada a uma pergunta.

Eu não quis ter nada a ver com este torturador que ria. Observei-o durante dias através da parede de vidro à prova de balas que separava o público da sala do tribunal. E ele, aparentemente notou a minha presença também. Durante uma pausa nos depoimentos, me aproximei da parede de vidro, e Duch se virou e olhou para mim. Acenou com a mão. Sem pensar, acenei de volta.

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