SpaceX via The New York Times
SpaceX via The New York Times
Dennis Overbye, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 05h00

Eu tenho passado muito tempo ultimamente pensando em um fungo chamado Pilobolus. Ele vive de estrume, principalmente de vacas e cavalos, mastigando alegremente, enriquecendo o solo à medida que avança, até que começa a ficar sem estrume para comer. Então algo mágico acontece: o fungo para de se alimentar e se reorganiza em um talo gigante com uma bola de células - um esporângio - no topo.

Este aparato consegue detectar a luz solar. A osmose incha o talo até que, quando a pressão aumenta o suficiente, ele basicamente espirra. O esporângio é lançado com uma força equivalente a 20.000 vezes a força da gravidade, em direção a um pedaço de grama próximo, onde outro cavalo ou vaca provavelmente pastará.

Nosso fungo astronauta se prende a um talo de grama. Uma vez comido, o esporângio passa pelo sistema digestivo do animal e é excretado de volta em uma rica pilha de estrume, depois disso, o ciclo de consumo e fuga começa novamente.

Isso é assustador para mim. Como as células fúngicas individuais sabem quando abandonar sua anarquia e se engajarem juntas em ações com propósito? Os fungos sabem algo coletivamente que nenhum deles sabe por si mesmo - quando e como atacar um novo território, longe do estrume gasto?

Não posso deixar de pensar no comportamento do humilde Pilobolus como uma metáfora para o programa espacial: uma espécie, respondendo a impulsos que não entende totalmente, querendo abandonar a pilha de estrume. O que não sabemos sobre nós mesmos?

Isso não é para diminuir as realizações e paixões dos magnatas que viajam hoje ao espaço. Elon Musk, Richard Branson e Jeff Bezos - os irmãos Pilobolus - colocaram seu dinheiro onde estão seus sonhos de ficção científica, seguindo três gerações de astronautas e cosmonautas.

Em setembro, quatro humanos sem nenhuma credencial de astronauta - incluindo seu líder, o bilionário Jared Isaacman - circundaram a Terra por três dias no Inspiration4, uma missão em uma das cápsulas SpaceXDragon que transportam humanos e materiais para a Estação Espacial Internacional. Isaacman não divulgará quanto pagou pelo voo, apenas que espera arrecadar dinheiro para o St. Jude Children's Research Hospital em Memphis, no Tennessee, onde um de seus passageiros, Hayley Arceneaux, já foi tratada de câncer e agora é uma médica assistente.

Desde 2001, quando Dennis Tito, um engenheiro que se tornou guru de investimentos, pagou supostos US$20 milhões para passar oito dias na Estação Espacial Internacional, um punhado de gente abastada e tecnológica desejou uma experiência fora desse mundo, alguns deles mais de uma vez. Neste verão, Branson e Bezos dirigiram suas próprias espaçonaves até a borda do espaço, algumas dezenas de milhas para cima.

Está ficando lotado lá em cima em torno da corda de veludo final.

Há dois anos, a NASA anunciou que qualquer pessoa poderia visitar a estação espacial por US$35.000 por dia, sem contar o custo de ida e volta. Foi dito que Tom Cruise queria gravar um filme lá. Musk fez a famosa declaração de que queria morrer em Marte, mas ainda não. E Alan Stern, chefe da missão New Horizons para Plutão e além, agora se inscreveu para fazer pesquisas espaciais em uma série de voos da Virgin Galactic, cada um custando US$ 250.000, pagos pelo Southwest Research Institute em Boulder, no Colorado, onde ele trabalha.

O que ele planeja fazer com os quatro minutos de ausência de peso de que desfrutará a cada tomada? Bastante, disse Stern, que definitivamente não é um bilionário, em uma entrevista recente por telefone.

Entre outras coisas, Stern estará usando um equipamento biomédico em seu primeiro voo que irá registrar a resposta de seu corpo ao voo espacial e à gravidade zero, enquanto tira fotos de campos estelares para avaliar a qualidade das janelas da nave espacial. Durante a próxima década, ele disse, centenas de turistas espaciais usarão o equipamento, dando aos cientistas e médicos um tesouro de informações sobre como as pessoas comuns - ao contrário dos astronautas em forma e bem treinados - respondem e se adaptam, ou não, ao espaço.

Outros itens na agenda podem incluir a busca de asteroides muito próximos do Sol, disse Stern.

O preço de um assento da Virgin Galactic subiu para US$450.000, mas isso ainda é uma pechincha, disse Stern. Naves espaciais suborbitais como a nave 2 da Virgin Galactic ou a Blue Origin de Bezos podem voar com mais frequência e menos custos do que os foguetes tradicionais que a Nasa tem usado para erguer instrumentos sensíveis acima da atmosfera, mas que custam US $ 4 milhões ou mais por voo.

“Acho que vai florescer”, disse Stern sobre o negócio suborbital. Já ouvimos tudo isso antes. Quatro décadas atrás, o ônibus espacial tornaria as viagens espaciais rotineiras e baratas, quase tão tranquilas quanto um voo transatlântico. Então 14 astronautas morreram.

Agora, uma nova geração de foguetes, engenheiros, cientistas e exploradores está pronta para tomar o céu. Não devemos nos surpreender com o fato de que as pessoas ricas estão na linha de frente. O espaço pode ser o novo playground para os ricos, como Maui e Aspen se tornaram. Claro, quem paga o flautista escolhe a música. Queremos que a agenda para a ciência - para a humanidade - seja definida por um clube de homens brancos ricos? (Sim, até agora todos foram homens brancos.)

Ninguém sabe se Musk acabará morrendo em Marte. Mas algum dia, alguém provavelmente entrará na história como a primeira pessoa a morrer no Planeta Vermelho. Na história de Arthur C. Clarke, Transit of Earth, um astronauta é abandonado em Marte e vagueia pelo deserto para morrer, enquanto ouve música clássica, para que seus micróbios possam dar sustento a tudo o que possa usá-los no novo mundo. Houston, Pilobolus terá pousado. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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