Koji Sasahara/Associated Press
Koji Sasahara/Associated Press

O renascimento econômico do Japão está em apuros

Problemas antigos como a deflação, a burocracia e uma população em queda trouxeram fricção para o crescimento do país

Ben Dooley, The New York Times

19 de abril de 2019 | 06h00

TÓQUIO - A Nidec Corporation gosta de dizer que produz tudo que “rodopia e se movimenta", desde as complexas engrenagens que ouvimos zumbindo nos discos rígidos até as imensas engrenagens usadas em plataformas de petróleo. Nos anos mais recentes, as coisas iam bem para a empresa. A demanda global por peças de engenharia de precisão, especialmente por parte da China, fez aumentar as vendas da Nidec e de outras companhias japonesas, ajudando a erguer o Japão, há muito em marcha lenta, dos seus problemas econômicos.

Então, as vendas destinadas à China tiveram queda acentuada em novembro e dezembro com a desaceleração da economia do país. A Nidec, que conta com a China para obter cerca de 40% da sua receita, reduziu suas projeções de lucro em mais de 25%. “Trabalho com gestão há 46 anos, e é a primeira vez que vejo tamanha queda nas nossas encomendas mensais", disse o fundador e diretor executivo da empresa, Shigenobu Nagamori.

O renascimento econômico do Japão está em apuros, e parte da responsabilidade pode ser atribuída à China. As exportações tiveram queda acentuada, e as empresas que dependem da vizinha japonesa em rápido crescimento, a China, estão reduzindo a previsão de lucro e considerando manter as fábricas na ociosidade.

Somada a outros problemas - incluindo os baixos gastos domésticos e uma sociedade cada vez mais velha -, a desaceleração da China representa um grande desafio para o primeiro-ministro Shinzo Abe e sua plataforma econômica, conhecida como Abenomics, conforme ele se prepara para disputar uma eleição nacional neste ano.

As exportações começaram a despencar em dezembro. A produção industrial teve queda por três meses seguidos antes de aumentar um pouco em fevereiro. A negociação salarial anual com os sindicatos foi encerrada com ganhos modestos nos salários. Em meados de março, o governo rebaixou sua avaliação econômica pela primeira vez em três aos, apontando para a economia da China como um dos principais fatores para tanto.

As propostas econômicas de Abe deveriam ajudar o Japão a sair de um declínio que começou no início da década de 1990. Entre elas estavam as chamadas “três flechas” do Abenomics: aumentar a quantidade de dinheiro em circulação no Japão, ampliar os gastos do governo e corrigir problemas que levavam as empresas a limitar seus investimentos e contratações.

A injeção de dinheiro na economia do Japão foi a solução mais rápida. O banco central começou a imprimir mais ienes em 2013. O valor da moeda caiu, tornando as exportações japonesas mais interessantes para os compradores estrangeiros. Mas a política de dinheiro fácil pouco fez para ajudar outras partes da economia. Problemas antigos como a deflação, a burocracia e uma população em queda trouxeram fricção para o crescimento do país.

O Japão apresenta o endividamento mais alto entre os países desenvolvidos e, com isso, pode ser difícil encontrar dinheiro para gastar. Faz tempo que Abe pressiona por um aumento no imposto sobre o consumo no país para a marca de 10%, o que ajudaria a financiar gastos públicos. Mas, após um aumento inicial em 2014, passando de 5% para 8%, ter abalado a economia, o governo adiou duas vezes a segunda rodada de aumento na tributação. Ainda assim, Abe se comprometeu com a medida. Os economistas dizem que ele não tem outras opções.

Isso significa que o crescimento futuro do Japão pode depender da China. Pequim prometeu se concentrar na criação de empregos, aumentou o volume de dinheiro disponível para empréstimos concedidos por bancos estatais, e prometeu reduzir impostos e burocracia. Ainda assim o governo reduziu sua meta de crescimento para 2019. A decisão do presidente americano Donald J. Trump de aplicar tarifas à China pressionou as empresas japonesas com manufatura no país. Para o economista Shinichiro Kobayashi, do Mitsubishi UFJ Financial Group, a guerra comercial é “o maior risco enfrentado pela economia do Japão". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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