Gordon Welters para The New York Times
Gordon Welters para The New York Times

O ressurgimento do socialismo na Alemanha

Líder socialista alemão já criticou o 'sonho americano' enquanto modelo de realização pessoal

Jochen Bittner, The New York Times

18 de maio de 2019 | 06h00

HAMBURGO, ALEMANHA - Nos anos 1980, um primo da família do meu pai me deu uma lição memorável a respeito do socialismo. O primo Werner era engenheiro em uma fábrica de veículos da Alemanha Oriental. Como muitos outros que viviam sob o regime comunista, independentemente de seu grau de escolaridade e capacitação, ele e a mulher viviam em um dos típicos e pequenos apartamentos de concreto de um complexo habitacional padrão. Esses chamados Plattenbauten ("pré-fabricados") eram elogiados como símbolo da sociedade supostamente igualitária do Oriente liderado por Erich Honecker.

Durante uma das visitas da minha família, vinda da Alemanha Ocidental, Werner nos levou ao porão de seu edifício e destrancou uma porta que revelou um pequeno armário. Nele havia um acervo de ferramentas de precisão que impressionou até a nós, ocidentais: martelos e chaves de todo tipo, furadeiras e um torneiro feitos para uma oficina profissional. Quando perguntamos a ele como tinha obtido todo aquele equipamento em uma economia famosa pela escassez, Werner deu de ombros. "Bem, Honecker nos disse para extrair das fábricas tudo que pudermos, não?", respondeu ele.

O socialismo, ideia segundo a qual as necessidades dos trabalhadores são mais bem atendidas pela coletivização dos meios de produção, não funcionava para Werner. Um sistema no qual fábricas, bancos e até a moradias eram nacionalizados exigia uma economia planejada, como substituta para a concorrência capitalista. Mas o planejamento central mostrou-se incapaz de satisfazer as demandas individuais das pessoas, levando ao florescimento dos mercados negros e às infrações das regras. 

Os pequenos furtos de Werner não eram nada diante da corrupção que minou os alicerces da Alemanha Oriental desde sua fundação. No fim, o sistema inteiro entrou em colapso, como ocorreu em todos os demais países, o socialismo fracassou na Alemanha.

E, por isso, é estranho ver em 2019 a volta do socialismo ao discurso político alemão: Kevin Kühnert, líder da juventude social-democrata, se diz defensor desse sistema. De acordo com Kühnert, socialismo significa o controle democrático da economia. Ele não quer recalibrar o capitalismo, e sim substituí-lo.

O neo-socialismo alemão é profundamente diferente do capitalismo. Em entrevista concedida ao jornal para o qual trabalho, Kühnert criticou especificamente o sonho americano enquanto modelo de realização pessoal. Ele disse questionar um sistema "em que milhões participam da largada de uma corrida, pouquíssimos cruzam a linha de chegada e, em seguida, gritam para os demais, 'Vocês também poderiam vencer!'".

O socialismo de Kühnert coloca as necessidades acima da habilidade, e o bem-estar coletivo acima da recompensa individual. Empresas como a BMW seriam coletivizadas, ou seja, seriam de propriedade dos trabalhadores. "Sem uma forma ou outra de coletivização, é impensável superar o capitalismo", ele nos disse.

O mesmo princípio seria aplicado ao mercado imobiliário. "Não me parece que ganhar dinheiro com o espaço habitado por outros seja um modelo de negócios legítimo", disse. "Todos deveriam, no máximo, ser donos do lugar que de fato habitam". Tudo o mais seria de propriedade coletiva.

Por que a ideia do socialismo está ganhando força?

Acima de tudo, é a sedução de responder a um exagero com seu oposto. O primeiro exagero é a chamada era neoliberal que teve início após 1989. A vitória contra o "socialismo real existente", como descrito na Alemanha Oriental e em outros lugares, somada à globalização e à digitalização, deram à economia de livre mercado um reforço no ego. Mas esse impulso resultou em uma distorção: os ganhos financeiros foram empurrados cada vez mais para o alto, enquanto o crescente custo dos riscos sociais foi empurrado cada vez mais para baixo.

Os ataques do 11 de Setembro foram outra distorção: concentrados na ameaça do terrorismo, os países ocidentais deixaram de enxergar um risco maior. Como argumenta Kishore Mahbubani em seu novo livro, Has the West Lost It? (O Ocidente perdeu o rumo?), o mais decisivo acontecimento de 2001 não foram os ataques, e sim a entrada da China na Organização Mundial do Comércio. Ao essencialmente aprovar as práticas comerciais injustas de Pequim, o Ocidente destruiu a segurança econômica que formava a base do seu contrato social capitalista.

O capitalismo sem limites não era claramente o que os fundadores da república da Alemanha Ocidental tinham em mente. "O sistema econômico capitalista não serviu aos interesses do povo alemão", declararam os democratas cristãos, de centro-direita, em 1947. É por isso que a Alemanha Ocidental foi erguida sobre a ideia da economia social de mercado, na qual a concorrência individual era recompensada, mas também a obrigação dos ricos de ajudar os desfavorecidos.

Mas, hoje, os mais ricos são frequentemente aqueles que dispõem dos recursos e habilidades para evitar impostos e exportar empregos para a China. Com frequência, não são nem mesmo alemães: Warren Buffett é um dos grandes investidores imobiliários de Berlim. Setenta anos atrás, ninguém tinha imaginado cenários como esses, e nenhum dos principais partidos políticos da Alemanha descobriu como ajustar a economia social de mercado a essas novas realidades.

Como resultado, alguns alemães, como Kühnert, reagem não com apelos para corrigir esses erros, e sim com uma condenação completa do capitalismo. Mas eles não se dão conta de que o socialismo não vai trazer a mudança que buscam. Ao contrário: a aposta em receitas fracassadas do passado só vai tornar mais fácil a denúncia desse sistema por aqueles que lucram com o capitalismo sem limites. O primo Werner teria compreendido isso muito bem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Jochen Bittner é editor de política para o semanário alemão Die Zeit. 

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