Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

O ritual do teatro como um templo religioso

Para alguns, o hábito da devoção pode ser transformado no hábito de ir a peças teatrais

Laura Collins-Hughes, The New York Times

11 de julho de 2019 | 06h00

"Algo que há dentro de nós", adquirido na infância. No palco despojado de um teatro experimental em Nova York, o ator Ken Jennings só tinha um adereço: uma edição compacta da Bíblia, gasta pelo uso. Em uma noite de domingo, em junho, ali estava ele para apresentar a sua versão do Evangelho segundo João - não como paródia ou como uma revisão radical, mas como um testamento, um texto religioso resumido para durar 90 minutos.

“Primeiramente, eu o memorizei como uma oração, não como um texto teatral”, explicou ao público. Depois, fez o sinal da cruz, ficou por um instante de mãos postas em sinal de oração, e então começou sua apresentação forte, intensa. Era a concretização da ideia, muito respeitada entre os atores, de que ir ao teatro se parece muito com ir à igreja - talvez muito mais se, como amante do drama, você espera que a experiência lhe transmita algum tipo de amparo.

O Evangelho de João foi o espetáculo de encerramento do Festival de Teatro do Sheen Center de Escritores Católicos, uma espécie de vitrine fundada para expandir o conceito da dramaturgia católica. Neste momento, dois musicais Off Broadway, também, mostram que a devoção religiosa têm um significado importante: A Strange Loop, do dramaturgo Michael R. Jackson, em que a homofobia sob o disfarce da virtude cristã fere um jovem gay nascido na religião; e a adaptação de A vida secreta das abelhas, de Lyn Nottage, Duncan Sheik e Susan Birkenhead, em que uma estátua da Virgem Maria é objeto de veneração e fonte de conforto para um grupo de mulheres negras na Carolina do Sul, nos anos 60. “Maria não é mágica”, diz uma delas a um visitante curioso, “mas é mais do que um pedaço de madeira resgatada do mar. Ela é algo que está dentro de nós”.

Ainda que os credos religiosos da nossa infância nos tenham ajudado ou prejudicado, mesmo que os preservemos ou os rejeitemos na idade adulta, “algo dentro de nós” permanece destes ensinamentos: uma linguagem que sempre falaremos, porque foi a primeira que aprendemos. O seu eco se encontra na obra de um dramaturgo, e ela é reconhecida de maneira quase instantânea, instintiva.

Quando era criança, eu e meus irmãos nos amontoávamos à noite na cama dos nossos pais, onde mamãe lia para nós. Assim como James e o Pêssego Gigante está gravado na minha memória com a sua voz, as histórias bíblicas que ouvia na nossa igreja católica nos fins de semana estão inscritas de maneira indelével nas primeiras camadas do meu ser. Isto explica também a moral cristã e ética da minha formação.

Eu era adolescente quando deixei a igreja, mas ela continua predominando na minha visão de mundo. Tenho consciência de que esta é uma das razões pelas quais me sinto tão atraída pelas peças de Stephen Adly Guirgis, contundentes e profanas, extremamente engraçadas e profundamente católicas, com suas brigas acirradas entre o bem e o mal. Assim como a minha fascinação pelos autos medievais que dramatizavam o Velho e o Novo Testamento.

A mescla de devoção e drama, evidentemente, é mais antiga do que o cristianismo; na antiga Grécia, os atenienses prestavam o seu tributo ao dissoluto deus Dionísio realizando festivais teatrais. Atualmente, imaginamos o drama como algo que proporciona uma espécie de comunhão secular. Hadestown, na Broadway, adota a ideia de maneira literal, inserindo-a emocionalmente na ação do espetáculo.

Mas o secular também pode ser espiritual, o hábito da devoção transformado no hábito de ir ao teatro. Há poucos meses, voltando de uma visita a minha mãe, que estava morrendo, senti que precisava visceralmente ver uma peça imediatamente. Assistir a peças é o que faço como ganha-pão, mas isto não tinha nada a ver  com trabalho; era apenas uma maneira de aliviar a minha dor.

Comprei um ingresso para Octet, de Dave Malloy, que estava passando Off Broadway, consciente de que eu queria o consolo que a Igreja poderia me dar, se eu ainda fosse religiosa. Esta não é uma coisa certa para se esperar de uma obra de arte, tenho consciência disso. Entretanto, no instante em que a música começou, intensa e coral, envolvente, a minha alma foi se tranquilizando. O ritual do teatro, também, foi um conforto para um grupo de estrangeiros, sentados juntos no que eu considero um espaço sagrado, respirando o mesmo ar dos atores, ouvindo enquanto eles nos contavam uma história. Aquilo não tinha nada a ver com religião, ou fé. Mas para mim foi como estar em uma igreja./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

Tudo o que sabemos sobre:
Broadway [Nova York]igrejateatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.