Fabrizio Bensch/Reuters
Fabrizio Bensch/Reuters

O rosto da masculinidade na China está mudando

Mais que uma onda da contracultura dos jovens, abraçar uma forma de masculinidade mais moderna e menos rígida representa a frustração com as ideias tradicionais do ser homem na sociedade

Helen Gao, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2019 | 20h00

PEQUIM - Recentemente, o Beijing News, jornal de grande circulação no país, publicou uma coleção de perfis de chineses do milênio para a festa da juventude, no dia 4 de Maio, em comemoração de um movimento estudantil de 1919. Entre os personagens destacados, um escritor best-seller, um historiador da arquitetura amador e um produtor de vídeos sobre ciência popular, estava também Cai Xukun, cantor pop de pouco mais de 20 anos com um número tão elevado de seguidores que um seu recente post na da mídia social foi visto mais de 800 milhões de vezes.

Cai pertence à tribo da chamada “pequena carne fresca”, apelido cunhado pelos fãs para definir jovens artistas masculinos de feições delicadas, que usam abundante maquiagem. Estas celebridades de aparência bem cuidada estrelam filmes de grande sucesso, anunciam marcas de cosméticos e suas músicas encabeçam as listas das mais vendidas. A sua ascensão constitui uma das maiores tendências culturais dos últimos dez anos. A sua imagem - em contraposição às qualidades patriarcais tradicionalmente associadas aos homens chineses - está mudando o rosto da masculinidade na China.

Apesar de sua aparência inocente, os jovens da tribo da "pequena carne fresca" são alvos de fortes críticas. A agência estatal de notícias Xinhua denuncia o que chama de “niangpao”, ou a cultura das “calças de maricas”, como “patológica” e, em um editorial de setembro do ano passado, afirmou que a sua popularidade está acabando com a ordem social.

A decisão do jornal de Pequim de incluir Cai em seus perfis levou a Liga dos Jovens Comunistas a divulgar sua própria lista de jovens ícones: atletas patrióticos e cientistas, que chamou de “a autêntica personificação” do espírito da juventude comunista. Os ataques do governo a esta nova ideia de masculinidade desencadearam uma reação dos fãs das celebridades. E em artigos online e posts, os defensores dos jovens deixaram claro que a sua preferência é mais do que uma onda da contracultura dos jovens. Essencialmente, o fato de abraçar uma forma de masculinidade mais moderna, menos rígida, representa a frustração com as ideias tradicionais de masculinidade.

“A ridícula condenação dos homens ‘de calças de maricas’ mostra a ideologia de gênero de uma sociedade patriarcal que equipara a fortaleza ao sexo masculino e a fragilidade ao sexo feminino”, explicou um jornalista que usa o pseudônimo de Wusi, em um artigo publicado online em setembro, expressando uma opinião compartilhada por muitos.

A ênfase oficial na masculinidade tradicional - inclusive reintroduzindo currículos escolares e o patrocínio dos clubes exclusivos para meninos - é motivada em parte pelos temores de que a política do filho único, ao longo de dezenas de anos, tenha produzido uma geração de jovens masculinos tímidos e voltados em si mesmos, pouco preparados para as suas responsabilidades sociais.

Por outro lado, no contexto do crescente poder da China, a preocupação da ordem vigente com a promoção de uma masculinidade ultrapassada, no estilo hollywoodiano, também contém uma mensagem política. Assim como os intelectuais patrióticos do século passado afirmavam que a força da nação deriva da energia viril dos jovens, os nacionalistas chineses da atualidade veem suas ambições assumirem a forma de uma disposição máscula a combater por causas justas.

Esta visão está exposta na obra de suspense e ação de 2017 “Wolf Warrior 2”. O filme fala de um soldado do Exército Popular de Libertação envolvido em uma guerra civil na África, que coloca as vidas de civis locais acima da própria enquanto combate sozinho mercenários liderados por americanos. O objetivo da história, afirma Wu Jung, diretor e principal ator, em uma entrevista, é “inspirar os homens a serem homens de fato”. O filme  acabou se tornando o espetáculo de maior bilheteria da história da China.

Não há dúvida quanto a quem, na vida real, personifica melhor o chauvinismo masculino caracterizando a linha oficial de hoje em dia: basta passear  pela cidade, ou ligar a televisão no horário dos programas de notícias, para ver o rosto do presidente Xi Jinping com aquele perene olhar de pessoa segura de si e de grande determinação.

Os fãs da "pequena carne fresca" se assemelham consideravelmente aos seus congêneres globais pelo fato de terem o mundo na ponta dos seus dedos. As medidas tomadas pelo Grande Firewall da China foram muito eficazes em manter abertamente as informações políticas sensíveis longe da China, mas teve o efeito de direcionar a atenção dos jovens para o campo da cultura. Muitos jovens chineses, como os seus colegas no resto do mundo, consideram as normas de gênero intrinsecamente fluidas e a insistência em valorizar as características masculinas tradicionais, irremediavelmente ultrapassada.

As feministas chinesas apoiam a mudança do ideal de masculinidade. Muitas delas são mulheres bem-sucedidas com uma considerável renda disponível; seus gostos e poder aquisitivo contribuíram para a ascensão dos jovens ídolos. Na sua opinião, o apelo destes ídolos é definido primeiramente no negativo, por carecerem das atitudes e dos comportamentos sintomáticos entranhados nos privilégios masculinos.

Tanto os estereótipos culturais quanto as feministas parecem unidos na convicção de que a expressão de gênero é inequivocamente uma questão de escolha individual. E isto vai contra o refrão da mídia social que afirma que a masculinidade tradicional é a base da força nacional e que esta “crise” da masculinidade é um mau presságio para o futuro do país.

Um artigo postado na conta WeChat de um importante comitê do Partido Comunista, no fim do ano passado, afirmava que em uma época em que a China é atormentada por ameaças nucleares nas suas fronteiras e por uma guerra comercial do outro lado do Pacífico, o país não quer ver os seus homens “aos gritinhos retocando a maquiagem”.

“Com a mídia social repleta de retórica instando a China a ‘se portar com valentia’ diante da escalada da guerra comercial, a febre da pequena carne fresca continua sem parar. O Konka Group, um fabricante chinês de eletrodomésticos, um setor envolvido na disputa comercial com os Estados Unidos, divulgou no mês passado um comercial estrelado por Lu Han, um dos ídolos mais conhecidos. Zhou Bin, diretor executivo da companhia, disse em uma coletiva à imprensa que a decisão foi determinada pela enorme popularidade de Lu entre os jovens do milênio, que se tornaram o seu principal grupo de consumo.

O comercial foi amplamente aplaudido na mídia social. Os fãs observaram que a popularidade da "pequena carne fresca", em lugar de ser um sinal de debilidade nacional, pode indicar a força dos seus alicerces. “Jovem, moderno e elegante”, foi como um dos usuários resumiu o apelo do ídolo em um post no Weibo. “É isto que nos amamos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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