Ricardo Nagaoka/The New York Times
Ricardo Nagaoka/The New York Times

O trabalho intenso para transformar resgate de time de futebol em caverna na Tailândia em filme

Depois que o filme sobre o resgate na caverna ficou pronto, mais 87 horas de filmagem apareceram e o documentário foi reeditado

Nicole Sperling, The New York Time - Life/Style, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2021 | 05h00

A documentarista Elizabeth Chai Vasarhelyi vive com medo de não ter contado uma história completa. E se existir outro ângulo para explorar ou outras gravações ainda não descobertas? Sua exploração de certo assunto está realmente completa? Esses pensamentos lhe ocuparam a cabeça em maio, quando finalmente conseguiu viajar à Tailândia.

Vasarhelyi, de 42 anos, e seu marido, Jimmy Chin, de 47 anos, são mais conhecidos por Free Solo, documentário sobre escalada vencedor do Oscar. A dupla já havia passado três anos revirando de forma meticulosa todos os vídeos disponíveis para seu novo filme, The Rescue (O resgate, em tradução livre). O filme conta a história do esforço global de 2018 para resgatar 12 jovens jogadores de futebol e seu treinador que ficaram presos quando a caverna Tham Luang, localizada na província de Chiang Rai, na Tailândia, inundou. Os cineastas vasculharam notícias internacionais e gravações de equipes tailandesas locais, muitas vezes juntando cenas de diversas fontes distintas. Ela, Chin e os mergulhadores britânicos que lideraram a operação de resgate recriaram em um tanque, nos estúdios Pinewood, no Reino Unido, o que não conseguiram encontrar.

Eles basicamente já tinham terminado o filme, que estava comovente e angustiante, mas Vasarhelyi ainda estava incomodada. Faltava o escopo da operação e alguns momentos menores e mais íntimos que destacavam a gravidade da situação. Mas esses momentos estavam nas mãos dos marinheiros tailandeses e, mesmo depois de dois anos de negociações, Vasarhelyi não conseguiu convencer os militares a compartilhar as gravações com ela.

Até maio – quando a cineasta, totalmente vacinada e disposta a enfrentar uma quarentena de duas semanas na Tailândia, foi até Phuket para se encontrar com o contra-almirante Arpakorn Youkongkaew, comandante da Marinha Real Tailandesa, e sua esposa, Sasivimon Youkongkaew, ex-jornalista de televisão que teve o instinto de fornecer câmeras aos marinheiros no início do que se tornaria uma operação de resgate de 18 dias. "Passamos três anos com essa história – eu não me perdoaria se ela aparecesse depois que o filme fosse finalizado. É como o código de não ficção: se está lá, temos de tentar de tudo para consegui-lo", afirmou Vasarhelyi, referindo-se a qualquer cena perdida.

Dessa vez, depois de uma longa reunião em que Vasarhelyi novamente reforçou sua intenção de incluir todos os lados da história, eles finalmente entraram em um acordo. Ela retornou aos Estados Unidos com a promessa de um tesouro valioso e a ajuda de Youkongkaew, que voou até Nova York com as 87 horas de filmagem na mochila e paciência para vasculhar. "É como um sonho se tornando realidade para uma cineasta de não-ficção. Também foi um pesadelo. O editor, Bob Eisenhardt, sabia o que eu estava pedindo a ele. Viu o iceberg chegando. Seria uma queda lenta e dolorosa, e ninguém dormiria durante todo o verão", disse Vasarhelyi.

O resultado desse esforço extra é uma experiência cinematográfica visceral, de tirar o fôlego, tão inesquecível quanto a jornada de Alex Honnold em Free Solo, embora o destino do time de futebol tenha sido bem documentado. Quinze minutos de filmagem dos marinheiros (e do exército tailandês) agora estão no filme, dando a ele uma camada extra de escopo. Graças às câmeras da equipe de resgate, os espectadores poderão ver a primeira vez que os mergulhadores Rick Stanton e John Volanthan emergiram da caverna depois de encontrar os meninos, bem como as fotos de centenas de pessoas tirando da água as macas com as crianças. "Aquelas cenas finalmente deram uma escala", observou Vasarhelyi.

The Rescue estreou no Festival de Cinema de Telluride em setembro. Três semanas depois, quando Vasarhelyi e Chin deram uma entrevista, o filme mudara novamente – um minuto extra fora adicionado para dar destaque a outras táticas de resgate cruciais. Segundo Chin, "o processo foi muito intenso. Queremos representar o que é realmente importante, e estamos trabalhando com isso há três anos, tentando consertar". "Eu disse à minha mãe que fiz tudo que podia", acrescentou Vasarhelyi.

Para The Rescue, a National Geographic, que financiou o filme, tinha os direitos sobre os mergulhadores britânicos, grupo de homens em sua maioria de meia-idade que, por acaso, eram os melhores mergulhadores amadores de cavernas do mundo. Embora o esforço de resgate tenha sido global, os meninos provavelmente não teriam sobrevivido sem os mergulhadores.

Vasarhelyi e Chin não tinham os direitos sobre os meninos, por isso ela não pôde entrevistá-los para o filme. Conheceu-os quando visitou a Tailândia. "Não os filmei. Eu só queria ouvir... e entender", explicou a cineasta.

Ela compartilhou refeições com alguns deles e aprendeu mais sobre seus 18 dias debaixo da terra. Ficou comovida com os exercícios de simulação em que uma criança fingia ser o pai ou a mãe de outra criança para que pudessem matar a saudade da família. As crianças também pediram a Vasarhelyi que mostrasse a filmagem que tinha deles sendo sedados pelo dr. Richard Harris, anestesista e mergulhador de cavernas que tomou a crucial – e controversa – decisão de aplicar neles uma injeção de Xanax, cetamina e atropina para que pudessem ser transportados por 1,6 quilômetro abaixo da água sem entrar em pânico. "Foi surreal. É claro que eles se perguntaram como tudo se passou. É claro que queriam saber o que aconteceu quando estavam inconscientes. Fico feliz em poder compartilhar isso com eles", comentou Vasarhelyi.

Os mergulhadores foram atraídos pela dedicação de Vasarhelyi e Chin à precisão. O produtor P.J. van Sandwijk, que assegurou o direito de filmar os mergulhadores em dois acordos distintos – um para o documentário e outro para um filme dirigido por Ron Howard –, disse que os homens estavam inicialmente "apreensivos para fazer qualquer coisa. Eles voltaram da Tailândia com a seguinte ideia: 'Esse foi um resgate global; havia milhares de pessoas no local.' Eles não queriam que o assunto fossem só aqueles caras."

Assim, quando Vasarhelyi e Chin pediram aos mergulhadores que encenassem com eles nos Pinewood Studios as cenas subaquáticas, eles interpretaram aquilo como um sinal da dedicação dos cineastas.

"O que quisemos desde o início do documentário foi demonstrar o que realmente fizemos e o que passamos durante o resgate dos meninos. De certa forma, éramos nós fazendo o que gostamos de fazer, que é mergulhar – exatamente com o mesmo equipamento, fazendo exatamente o que fizemos na Tailândia. Ainda que estivéssemos em um estúdio, foi uma oportunidade de mergulhar. Foi muito mais fácil do que me sentar diante de uma câmera e falar da infância e do que me levou a esse hobby tão peculiar de mergulho em caverna. Aquilo, sim, foi extremamente doloroso", contou Stanton, bombeiro britânico aposentado de 60 anos.

Ainda assim, desde aquelas fatídicas semanas no verão boreal de 2018, quando ninguém sabia ao certo se as crianças viveriam ou morreriam, Stanton e seus colegas mergulhadores tiveram mais experiências boas do que ruins. O Hollywood Reporter elegeu Stanton "o solteiro mais cobiçado de Telluride"; ele passou dois meses na Austrália vendo Viggo Mortensen interpretá-lo no filme de Howard; e assistiu à estreia do novo filme de James Bond: 007 – Sem Tempo para Morrer.

Stanton realmente gostou do filme. "Fiquei muito satisfeito. A maioria das pessoas não gosta quando se vê na câmera ou ouve a própria voz. Não fico envergonhado. Acho que nos saímos muito bem." Para ele, tudo faz parte de seu plano de aposentadoria, promessa que fez a si mesmo de que não se deixaria estagnar. E acrescentou: "Se é para ser reconhecido por algo, melhor que seja por ter resgatado 12 crianças, quando todo mundo achava que elas iam morrer."

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