Dadu Shin
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O uso da cetamina pode acabar com os suicídios?

Emprego da cetamina divide opiniões de médicos que estudam o tema

Moises Velasquez-Manoff, The New York Times

08 Dezembro 2018 | 06h00

Em maio de 2017, Louise decidiu que viver se tornara difícil demais, por isso, poria fim à vida. Nos quatro anos anteriores, ela perdera três irmãos e um meio-irmão. Amigos queridos haviam se mudado. Ela se sentia dolorosamente, insuportavelmente sozinha. Era a quarta vez que Louise (uso o seu segundo nome para preservar a sua privacidade), então com 68 anos, ia tentar o suicídio, e estava determinada a conseguir.

Escreveu uma carta indicando onde achar documentos importantes e quem herdaria o quê. Então foi para um hotel, pôs um lençol plástico sobre a cama, deitou, e engoliu alguns comprimidos com champagne. Dias mais tarde, acordou em uma clinica psiquiátrica. Havia sido encontrada pela camareira do hotel. “Fiquei muito abalada por ter falhado”, ela disse. Ela tentara cortar os pulsos com um bracelete - em vão.

Atualmente, o suicídio é a décima causa de morte nos Estados Unidos, segundo o Centers for Disease Control and Prevention. E no entanto, ainda não foi produzido um medicamento para tratar a depressão (e por extensão o problema dos suicídios) em cerca de 30 anos, desde a introdução no mercado de inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como o Prozac. 

O campo da psiquiatria necessita de novos tratamentos para pacientes que chegam aos hospitais com o estômago cheio de comprimidos. Agora, os cientistas acreditam ter descoberto, quem sabe, uma solução - um antigo anestésico chamado cetamina que, em doses baixas, pode acabar quase imediatamente com os pensamentos suicidas.

A depressão era frequente na família de Louise. O Prozac a ajudara por algum tempo, mas parou de fazer efeito no final dos anos 2000, como às vezes acontece. Nenhuma outra droga parecia capaz de livrá-la destes sentimentos funestos. Depois da tentativa de suicídio, o psiquiatra de Louise sugeriu que ela tentasse a cetamina.

Ela concordou, e recebeu uma infusão endovenosa. No prazo de horas, experimentou uma grande sensação de bem-estar. Recebeu alta do hospital. Em casa, ela descobriu que ir para o mercado não era mais uma “tarefa hercúlea”. Mandar lavar o carro deixara de ser uma obrigação insuportável. “A vida tinha melhorado. A vida era viável”.

Cetamina: uso de medicamento gera discussão

O emprego da cetamina para o tratamento da depressão e das tendências suicidas é algo controverso. Várias pequenos estudos sugerem que representa uma grande promessa, mas somente agora está sendo experimentado em testes controlados com placebo em centenas de pacientes. Também é muito conhecido como a “club drug”, pertencente à categorias das substâncias psicodélicas. Assim como a morfina, ela pode atuar sobre o sistema opióide e induzir sentimentos de euforia. Ocasionalmente, os que abusam da cetamina apresentam sintomas graves, inclusive danos cerebrais.

Não obstante, se for provado que pode ser segura e eficaz em pequenas doses, ela poderá modificar totalmente o atual tratamento de pacientes suicidas e da depressão. Excluindo-se a sedação e a restrição física, os médicos têm poucos recursos para frear rapidamente o pensamento suicida, ou o intuito de pôr fim à vida. Os antidepressivos atuais levam semanas e, às vezes, meses para fazer efeito, se é que conseguem. 

Paradoxalmente, eles podem até aumentar os instintos suicidas em alguns pacientes. E a terapia leva tempo para funcionar (pressupondo que funcione). Pesquisadores da Universidade Yale descobriram o potencial da cetamina como antidepressivo no final dos anos 90, e os cientistas do United States National Institute of Mental Health o confirmaram em meados dos anos 2000. Seguiram-se numerosos estudos que sugeriram que a droga ajuda os pacientes para os quais nada mais funciona. Ela não é eficaz para todos os deste grupo, mas quando funciona, é no prazo de horas.

Como já foi aprovada pela Administração para a Alimentação e os Medicamentos dos Estados Unidos, os médicos podem prescrevê-la “off-label”, para outros usos que não aqueles para os quais foi aprovada. O que significa que é teoricamente válida. “Muitos outros pacientes deveriam ser informados disto”, disse Louise. “Realmente é uma bênção de deus”.

No início deste ano, escrevi sobre a cetamina e a depressão para o site Wired, e alguns pacientes me contaram a mesma versão da mesma coisa - que a droga mudou sua vida e, em alguns casos, foi a sua salvação. A cetamina funciona de maneira diferente dos outros antidepressivos. Segundo a teoria predominante, ela afeta o sistema dos receptores de glutamato do cérebro, que como os cientistas agora se dão conta, pode estar envolvido na depressão, mais do que o emprego mais conhecido da serotonina, usada por drogas como o Prozac.

Pesquisas em animais sugerem que o bloqueio parcial de alguns receptores de glutamato aumenta a plasticidade do cérebro - a capacidade do cérebro de fazer conexões neurais - e corrige algumas anormalidades decorrentes do estresse crônico. Estes efeitos no cérebro, associados à rapidez com que a cetamina funciona, inspiraram uma série de pesquisas. Ao mesmo tempo, estão sendo desenvolvidas várias drogas derivadas da cetamina, ou baseadas no seu funcionamento previsto pelos cientistas.

Mas a droga tem o que muitos consideram uma falha grave. Enquanto está sendo ministrada, ela pode produzir efeitos colaterais dissociativos e alucinatórios. Os pacientes podem ter a sensação de abandonarem o próprio corpo ou de estarem morrendo. Louisa descreveu a sua primeira experiência com a cetamina como se ela fosse o quadro “Guernica”, de Picasso  - desmembrada e desagradável. Mas os tratamentos subsequentes, afirmou, foram “maravilhosos” - cheios de imagens de aves, peixes e baleias.

Permanecem também interrogativos quanto à segurança do seu uso prolongado. Pacientes deprimidos muitas vezes precisam voltar para “reforçar” o tratamento (Louise acha que precisa de uma infusão por mês). A droga é considerada segura quando ministrada uma vez, mas não se sabe ao certo quantas doses sucessivas poderão afetar o cérebro. E também pode criar dependência.

Não obstante, foram abertas dezenas de clínicas que oferecem a cetamina como tratamento “off-label” contra a depressão. As avaliações destas clínicas vão desde o temor de que visem apenas o lucro, até o reconhecimento de que podem ajudar pacientes extremamente doentes.

Samuel Wilkinson, um psiquiatra de Yale que estuda a cetamina, teme que algumas das operadoras destas clínicas abandonem tratamentos mais tradicionais para tentar a droga. Por exemplo, Louise recusou a terapia por eletrochoques, porque ela lembra que fazia com que sua mãe e avó parecessem zumbis. 

Do ponto de vista de Wilkinson, os pacientes deveriam considerar todas as outras possibilidades razoáveis antes de adotar o tratamento com a cetamina. (Ele disse que a terapia por eletrochoques, por outro lado, foi significativamente aperfeiçoada.) Ele teme também que ela faça com que os impulsos suicidas dos pacientes pareçam ter desaparecido depois do tratamento, levando o hospital a dar-lhes alta, mas acabem voltando mais tarde.

A questão principal no caso está em avaliar os riscos de um tratamento que tem efeitos colaterais a longo prazo pouco estudados, contra uma doença cujo sintoma principal é o impulso suicida. O endosso mais importante da cetamina poderá vir dos que estão na linha de frente da medicina: os médicos do pronto-socorro. Conheci Louise por intermédio de um amigo, Lowan Stewart, que trabalha na emergência de um hospital no Novo México, onde ela foi internada depois de uma overdose. Ele trata também pacientes da clínica que emprega a cetamina onde Louise acabou indo.

Os médicos da emergência frequentemente conhecem muito bem a droga. Stewart a emprega regularmente como anestésico em crianças por ser considerada muito segura. Agora que a pesquisa revelou seu potencial para o tratamento da depressão e por acabar com os impulsos suicidas, ele acha que os médicos  deveriam oferecê-la a pacientes suicidas na emergência.

“Nós poderíamos ajudar muitas pessoas”, afirmou.

Moises Velasquez-Manoff  é o autor de “An Epidemic of Absence: A New Way of Understanding Allergies and Autoimmune Diseases” e é o editor da revista “Bay Nature”.

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