Pawel Mildner
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No estudo sobre obesidade, pesquisadores recorrem ao microbioma intestinal

Estudos realizados em camundongos obesos mostram que, quando sua microbiota é transplantada nos intestinos de camundongos magros, receptores ganham peso

Anahad O’Connor, The New York Times

25 de setembro de 2019 | 06h00

Elaine Yu, endocrinologista do Massachusetts General Hospital de Boston, ficou surpresa ao receber a adesão de um número considerável de voluntários quando, há alguns anos, colocou um anúncio para pessoas acima do peso dispostas a fazer parte de um estudo sobre obesidade e microbioma. “Estávamos preocupados porque temíamos que fosse difícil recrutar pessoas; em geral, as pessoas sentem nojo por ter de tomar uma pílula de fezes”, ela disse. “No entanto, conseguimos um número prodigioso de voluntários”.

Nos últimos anos, os cientistas descobriram indícios de que a microbiota, a comunidade de trilhões de micróbios que moram nos intestinos, exerce uma função no ganho de peso e na doença metabólica. Agora, em estudos de pequena envergadura, eles estão investigando se os micróbios poderão promover mudanças no metabolismo e no peso corporal por meio de uma terapia conhecida como transplante de microbiota fec (FMT, em inglês), que transfere bactérias intestinais de doadores magros para os intestinos de pacientes obesos.

A pesquisa apresentou resultados variados. Os especialistas afirmam que os transplantes fecais nunca substituirão a dieta, o exercício, e outras intervenções contra a obesidade e o diabete de tipo 2. No entanto, alguns acreditam que o novo método poderá levar à descoberta de bactérias que protegem contra a doença metabólica, tornando-se uma de várias ferramentas a serem utilizadas por pacientes obesos.

Há algum tempo, os cientistas já sabiam que os microbiomas das pessoas obesas e das pessoas magras são diferentes. A obesidade, a resistência à insulina e a doença hepática gordurosa estão associadas a uma menor variedade microbiana e a níveis mais elevados de um grupo de organismos chamado Firmicutes.

Estudos realizados em camundongos obesos mostram que, quando sua microbiota é transplantada nos intestinos de camundongos magros, os receptores ganham peso. Os cientistas também descobriram que os transplantes fecais constituem um tratamento eficaz contra o Clostridium difficile, uma infecção bacteriana devastadora que ocorre quando os antibióticos dizimam as bactérias intestinais saudáveis. 

Em um caso, uma mulher magra que recebeu um FMT de sua filha obesa para tratar do C. diff. engordou rapidamente 15 quilos. Mas os seus médicos não têm certeza de que o transplante tenha contribuído para o ganho de peso. Purna Kashyap da Clínica Mayo de Minnesota, disse que o tratamento do C. diff. com um FMT permite desalojar um patógeno e restaurar o equilíbrio no intestino. Mas a obesidade é provocada por muitos fatores, e a ideia de que um FMT possa curá-la não é realista, afirmou.

O primeiro teste do que aconteceria se pacientes obesos recebessem micróbios de pessoas magras data de 2012. Pesquisadores holandeses mostraram que a transferência de microbiota de doadores magros para os intestinos de homens obesos com a síndrome metabólica favoreceu um acentuado aumento da sensibilidade da insulina dos receptores e da diversidade microbiana depois de seis semanas.

Em Boston, Yu recrutou 24 pessoas obesas com resistência à insulina. A metade delas tomou semanalmente cápsulas contendo fezes de doadores magros, enquanto as outras receberam um placebo. Depois de 12 semanas, os sujeitos que receberam o FMT apresentaram microbiota semelhante à dos doadores. Mas não tiveram uma melhora da saúde metabólica.

Um estudo realizado no Canadá investigou os efeitos dos transplantes fecais na gordura do fígado de pessoas com a doença hepática gordurosa. Os autores disseram que o tratamento produziu mudanças nos intestinos dos receptores, tornando a membrana intestinal menos “porosa“. 

Uma hipótese sobre a possível contribuição de um microbioma anormal para a doença metabólica e o ganho de peso é que ele pode danificar a barreira intestinal que impede as toxinas e os patógenos de penetrar na corrente sanguínea. Isto pode desencadear uma inflamação, contribuindo para a resistência à insulina, uma doença cardiovascular e problemas de autoimunidade, disse Michael Silverman, o autor principal do estudo. “Seria fantástico se esta pesquisa produzisse um tratamento”, disse Yu. “Mas não acredito que vamos encontrar uma poção mágica capaz de curar a obesidade sem outras intervenções”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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