(Gilles Sabrié/The New York Times)
(Gilles Sabrié/The New York Times)

Objetivo de Pequim é manter todos sob vigilância

Capital chinesa adota tecnologias como reconhecimento facial e inteligência artificial para rastrear cidadãos

Paul Mozur, The New York Times

15 Julho 2018 | 10h15

ZHENGZHOU, China - Na cidade chinesa de Zhengzhou, um policial usando óculos equipados com reconhecimento facial identificou um contrabandista de heroína numa estação de trem.

Em Qingdao, cidade conhecida pela herança colonial alemã, câmeras acionadas por inteligência artificial ajudaram a polícia a apanhar duas dúzias de criminosos durante um festival de cervejas.

Com milhões de câmeras e bilhões de linhas de código, a China está construindo um futuro autoritário de alta tecnologia. Pequim está adotando tecnologias como o reconhecimento facial e a inteligência artificial para rastrear 1,4 bilhão de pessoas. A ideia é montar um vasto sistema nacional de vigilância, com a ajuda de sua próspera indústria da tecnologia.

“No passado, era tudo uma questão de instinto", disse Shan Jun, policial da delegacia de Zhengzhou onde o contrabandista foi apanhado. “Se deixássemos alguma coisa passar, não havia como voltar atrás.”

A China está invertendo a visão comum da tecnologia como grande força de difusão da democracia, trazendo mais liberdade para as pessoas e conectando-as ao mundo. Na China, a tecnologia é usada para o controle.

Câmeras vigiam as estações ferroviárias em busca dos criminosos mais procurados da China. Cartazes imensos mostram o rosto de quem atravessa fora da faixa de pedestres, listando também os nomes de pessoas que não pagam as contas. Sensores de reconhecimento facial protegem os complexos habitacionais. Já se calcula que a China tenha 200 milhões de câmeras de vigilância.

Os esforços desse tipo complementam outros sistemas que rastreiam o uso da internet e das comunicações, as estadias em hotéis, viagens de avião, trem e, dependendo do local, até viagens de carro.

Ainda assim, as ambições da China são maiores que suas capacidades. A tecnologia em uso num cruzamento pode não estar disponível em outra cidade, ou mesmo no quarteirão seguinte. Ineficiências burocráticas impedem a criação de uma rede de alcance nacional.

As autoridades chinesas costumam anunciar (e superestimar) suas capacidades. A mera percepção da vigilância generalizada pode ser forte o bastante para manter a população sob controle.

Alguns lugares estão mais avançados do que outros. O software invasivo de vigilância em massa é usado para rastrear a minoria étnica muçulmana Uighur, de acordo com o software ao qual o New York Times teve acesso.

“Isso pode representar uma forma totalmente nova de controle da economia e da sociedade por parte do 

governo", disse Martin Chorzempa, pesquisador do Instituto Peterson para a Economia Mundial.

“O objetivo é governar por meio de algoritmos", acrescentou ele.

Um importante cruzamento de Xiangyang era conhecidamente problemático. Os carros passavam em alta velocidade e os pedestres atravessavam as ruas aleatoriamente.

Então, em meados do ano passado, a polícia instalou câmeras ligadas à tecnologia de reconhecimento facial e uma grande tela para exibição ao público. Fotos de infratores começaram a ser exibidas, com seus nomes e números de documento de identidade.

“Se você for capturado pelo sistema sem perceber, seus colegas ou vizinhos ficarão sabendo, e haverá fofoca", disse Guan Yue, uma porta-voz. “As pessoas não suportam esse constrangimento.”

A nova vigilância chinesa tem como base uma ideia antiga: somente uma autoridade forte pode trazer ordem para um país turbulento. Mao Tsé-tung levou essa filosofia a cabo com resultados devastadores, e seu governo centralizado produziu fome generalizada e, em seguida, a Revolução Cultural.

Seus sucessores formaram um novo pacto com o povo chinês. Em troca da impotência política, os chineses seriam deixados em paz e teriam a possibilidade de enriquecer.

Funcionou. A censura e os poderes policiais continuaram sólidos, mas o povo chinês encontrou mais liberdade. Essa nova atitude ajudou a abrir caminho para décadas de um crescimento econômico aceleradíssimo.

Mas, hoje, a economia da China não está mais crescendo ao ritmo de antes. Existe uma grande desigualdade de distribuição de renda. E, após quatro décadas de salários crescentes e melhorias nas condições de vida, os chineses têm agora expectativas mais elevadas.

Xi Jinping, principal líder da China, avançou para consolidar o próprio poder, retomando a crença maoísta num culto à personalidade e na importância do envolvimento do Partido Comunista no cotidiano. A tecnologia confere a ele o poder de concretizar essa visão.

O historiador chinês Zhang Lifan disse: “O sistema atual criou uma aguda segregação social e econômica. Com isso, os governantes passaram a usar o dinheiro do contribuinte para vigiar o contribuinte".

Xi promoveu uma grande atualização do estado policial chinês. Analistas estimam que o país terá quase 300 milhões de câmeras instaladas já em 2020.

As licitações do governo estão dando fôlego à pesquisa e ao desenvolvimento de tecnologias capazes de rastrear rostos, vestimentas e até o jeito de andar de uma pessoa. Dispositivos experimentais, como óculos equipados com reconhecimento facial, começaram a aparecer.

Ainda assim, a inconsistência no policiamento das leis significa que o longo braço de Pequim pode parecer distante no dia a dia. Como resultado, muitos celebram as novas tentativas de imposição da lei e da ordem.

O atual período de prosperidade do setor da tecnologia na China está facilitando as ambições do governo para a vigilância. Em maio, a empresa iniciante de inteligência artificial SenseTime captou 620 milhões de dólares, conferindo-lhe um valor de mercado de aproximadamente 4,5 bilhões de dólares. A Megvii captou 460 milhões de dólares de investidores que incluem um fundo criado pelo alto escalão da liderança chinesa.

O mercado de segurança pública da China foi avaliado em mais de 80 bilhões de dólares no ano passado, de acordo com Shen Xinyang, ex-cientista de dados do Google que agora integra a startup Eyecool.

Numa conferência realizada em maio, Shen disse que sua empresa tinha sistemas de vigilância em mais de 20 aeroportos e estações ferroviárias, que ajudaram na apreensão de 1.000 criminosos. Ele disse que a Eyecool entrega mais de dois milhões de imagens faciais por dia para um sistema policial de big data chamado Skynet.

Para que a tecnologia seja eficaz, não é necessário que ela funcione perfeitamente. Tomemos como exemplo os óculos chineses equipados com reconhecimento facial.

Policiais da cidade de Zhengzhou demonstraram recentemente o funcionamento dos óculos numa estação de trem de alta velocidade. A mídia oficial do governo fez imagens de uma policial em alerta usando óculos de lentes escuras.

Mas os óculos só funcionam se o alvo permanecer imóvel por vários segundos. Eles foram usados principalmente para conferir os documentos de viajantes em busca de falsificações.

O banco de dados de indivíduos designados para observação pelas autoridades chinesas, que inclui suspeitos de terrorismo, criminosos, traficantes de drogas, ativistas políticos e outros, é composto por entre 20 milhões e 30 milhões de pessoas, disse um executivo do setor de tecnologia. É um número grande demais para ser analisado pela tecnologia atual de reconhecimento facial, disse o executivo, que pediu para não ser identificado.

O sistema ainda se parece mais com uma colcha de retalhos digital do que com uma rede tecnológica que tudo vê. Muitos arquivos ainda não foram digitalizados, e outros estão em planilhas discrepantes que são difíceis de incluir no padrão.

Mas, em muitos lugares, a tecnologia funciona. No cruzamento de Xiangyang, os pedestres deixaram de atravessar fora da faixa após a instalação de câmeras. Num complexo de edifícios que teve um sistema de reconhecimento facial instalado na portaria, o roubo de bicicletas acabou, de acordo com administradores do complexo.

“A questão é a incerteza das pessoas em relação ao monitoramento. Essa incerteza as torna mais obedientes", disse Chorzempa, pesquisador do Instituto Peterson.

Em Zhengzhou, a polícia explicou como a mera ideia dos óculos de reconhecimento facial poderia levar os criminosos a se entregarem.

Shan, o policial de Zhengzhou, disse que, ao interrogar um suspeito, os policiais mostraram os óculos e disseram a ele que seu depoimento era irrelevante: os óculos poderiam lhes dar toda a informação que desejassem.

“Com medo de ser identificado pela tecnologia avançada, ele confessou", disse Shan.

“Não precisamos nem sequer aplicar técnicas de interrogatório", disse ele. “O sujeito simplesmente se entregou.”

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