Adriana Loureiro Fernandez / The New York Times
Adriana Loureiro Fernandez / The New York Times

Obra de padre divide aldeia na região amazônica venezuelana

Nos últimos 15 anos, o frade Sandoval trabalhou para levar a El Tukuko educação e assistência médica. Segundo aliados, ele é responsável por mantê-la viva em plena crise econômica

Anatoly Kurmanaev, The New York Times

15 de janeiro de 2020 | 06h20

EL TUKUKO, VENEZUELANA – Os conflitos entre o Pe. Nelson Sandoval e as autoridades socialistas, os rebeldes marxistas e chefes tribais lhe cultivaram tanto seguidores quanto inimigos nesta remota aldeia indígena de 3.500 habitantes na floresta amazônica, na parte ocidental da Venezuela.

Nos últimos 15 anos, o padre Sandoval trabalhou para levar a El Tukuko educação e assistência médica. Segundo dizem os seus aliados, ele é responsável por mantê-la viva em plena crise econômica da Venezuela.

Os detratores “me mandam para inferno", afirmou padre Sandoval, um jovial frade capuchinho de 49 anos. “E eu digo para eles que já vivo no inferno”.

El Tukuko foi devastado pela crise da Venezuela. A eletricidade e as conexões telefônicas são esporádicas. A desnutrição impera e o hospital público não tem medicamentos. Os montes Perijá que a circundam e se estendem até a Colômbia são o reduto de narcotraficantes e rebeldes.

Padre Sandoval se queixa dos socialistas que há tanto tempo estão no governo. “Eles são uma maldição que caiu sobre nós”, justificou ele, falando do governo do presidente Nicolás Maduro. “Vivem como reis enquanto as pessoas comem lixo".

Durante o boom do petróleo, nos anos 2000, o governo da Venezuela distribuía doações para tentar enfraquecer a influência da igreja católica sobre as comunidades indígenas. Mas com o colapso econômico, a missão de Los Angeles em Tukuko, supervisionada pelo Padre Sandoval, assumiu parte das funções básicas do Estado.

Embora a maioria o admire, as denúncias que o Padre Sandoval faz contra Maduro o tornaram alvo de críticas. Alguns chefes Yukpa ressentem-se de sua interferência nos assuntos indígenas, como eles afirmam; outros acreditam que o fato de ele politizar os problemas prejudica as chances de obter recursos públicos. Padre Sandoval acusou alguns chefes de se apoderarem de lotes de alimentos subsidiados e de roubar gado, o que lhe valeu o apelido de “o Diabo” entre os partidários dos chefes.

Os monges espanhóis construíram a missão em Tukuko, em 1945, para converter o povo Yuká e estabelecer o primeiro contato pacífico com a tribo Bari, menor e mais aguerrida que vivia nos montes. Os baris travavam uma guerra sem esperanças com os fazendeiros venezuelanos, que pagavam uma recompensa para cada indígena morto.

O padre

Sandoval nasceu na cidade de San José, na zona agrícola, a cerca de uma hora de viagem. Sua mãe era professora, e o pai um faz-tudo alcoólatra. Ele passou a juventude cuidando do avô. A violência provocada pelo vício do pai o aproximou do clube  local dos jovens católicos. Quando descobriu a missão Tukuko, dedicou a sua vida a este trabalho.

A missão mantém uma escola para 716 crianças indígenas, que  também os alimenta. Cerca de 30 estudantes vivem lá. “Ele é um segundo pai para mim”, disse Marvillo Sevogira, um rapaz de 23 anos que estuda engenharia graças a uma bolsa do padre Sandoval.

A missão em Tukuko e as suas terras são a maior fonte de emprego da aldeia. Ela tem um estoque de remédios enviados pela ONU e pela instituição católica Carita. No ano passado, um programa organizado pela Caritas com o apoio do padre ajudou 105 crianças e mulheres grávidas a se recuperarem da desnutrição, segundo um expoente da organização.

“Ele é de grande ajuda para todos aqui”, afirmou a enfermeira da tribo, Audio Morran. Mas os paroquianos afirmam que a atitude paternalista de Sandoval às vezes é controvertida. Ele puniu  Morran, que tem 27 anos de experiência, quando foi aviar uma receita. O recuo do governo de Maduro abriu os corações e as mentes de El Tukuko a um concorrente: o Exército de Libertação Nacional, a guerrilha marxista sediada na Colômbia.

Para conseguir os favores dos indígenas, esta prometeu a redistribuição da terra e a expulsão dos “parasitas” da Igreja. Depois dos ataques verbais, estabeleceu-se uma tensa trégua entre a missão e os rebeldes, contou o padre. “Eu sou um incômodo para eles, não são meus amigos”, disse. “Mas não tocam em mim porque sabem que tenho o apoio dos indígenas”.

Embora ele inste os aldeões a levarem uma vida moral, Sandoval compreende os dilemas que eles enfrentam. Muitos estudantes abandonaram tudo para trabalhar na produção de cocaína na Colômbia, onde ganham 20 vezes o salário mínimo da Venezuela. “Não posso competir com esta oferta”, ressaltou o frade. / SHEYLA URDANETA CONTRIBUIU PARA A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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