Ellie Smith para The New York Times
Ellie Smith para The New York Times

Obras iraquianas no MoMA simbolizam protesto contra destruição do país

Exposição incluindo mais de 250 obras no MoMA PS1, em Nova York, ficará em cartaz até 1º de março

Neil MacFarquhar, The New York Times

09 de janeiro de 2020 | 06h00

LONDRES - Mais ou menos um ano depois de as forças americanas terem tomado Badgá, um iraquiano procurou o artista Dia al-Azzawi em um café em Amã, Jordânia, oferecendo a ele a venda de várias pinturas raras. Azzawi, que ajudou a reunir os acervos de diferentes museus iraquianos nos anos 1960 e 1970, sabia que duas das obras tinham sido roubadas do Museu de Arte Moderna de Bagdá. Ele não conseguiu convencer o homem a devolvê-las.

Anos mais tarde, Azzawi ainda considera inacreditável que os iraquianos tenham saqueado diferentes museus nacionais  em 2003 enquanto os soldados americanos que tinham deposto Saddam Hussein assistiam a tudo. “Todos aqueles que entraram para roubar tudo e destruir tudo fizeram isso sem perceber que as peças não pertenciam ao governo, nem a Saddam, e sim a eles", disse ele em entrevista de seu estúdio em Londres. “Perderam sua identidade e não se importaram com nada.”

Para ele, essa destruição gratuita, agravada pelos combatentes do Estado Islâmico que atacaram com marretas estátuas insubstituíveis da antiguidade, cristalizou o quanto os longos anos de ditadura, guerra e pesadas sanções ocidentais tinham feito ruir a sociedade iraquiana. A influência dessas décadas nos artistas iraquianos, americanos e de outras nacionalidades é o foco de uma exposição incluindo mais de 250 obras no MoMA PS1, em Nova York, chamada Theater of Operations: The Gulf Wars 1991-2011, em cartaz até 1º de março.

Boa parte das pinturas e esculturas de Azzawi tem como foco o impacto da guerra, e ele incluiu 11 de suas próprias obras à exposição, além de 28 peças de seu acervo de arte iraquiana moderna. A obra dele pode ser abertamente política - telas amplas e cruas que engolem o público na tragédia da violência. Obras mais abstratas e sutis que combinam cores vivas, letras árabes e fragmentos de antiguidades ou poesias também transmitem uma mensagem.

“Uso o formato da caligrafia como parte da arte", disse ele, “não uso para ler em árabe. É parte da identidade". Aos 80 anos, Azzawi é uma figura ativa de bigode grosso e riso fácil. Nasceu em 1939 em Bagdá, o terceiro de dez irmãos, e amadureceu em meio ao clima de fermentação política dos anos 1950. Já em 1976, Azzawi sentiu que o Iraque caminhava para a formação de um estado totalitário. Mudou-se para Londres e nunca mais morou no país.

Em 1982, enquanto o exército invasor israelense controlava Beirute, milícias das falanges libanesas cristãs massacraram centenas de palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Horrorizado, Azzawi criou sua primeira obra de grande porte, desenhando um vasto panorama da carnificina que hoje pertence à Tate Modern. 

Durante os anos 1980 ele desenvolveu um estilo característico, com grandes pinturas abstratas em cores vivas que frequentemente incluíam elementos de letras árabes ou referências à antiguidade. Então, em 1991, durante a primeira Guerra do Golfo, a cor sumiu de sua paleta. As obras em branco e preto eram ao mesmo tempo uma reação emocional e uma afirmação contra a guerra. Azzawi começou a criar dafatir, ou cadernos, habitualmente longas sanfonas de papel áspero combinando pinturas ou pedaços de esculturas e poemas.

No fim dos anos 1990, Azzawi começou a colecionar arte iraquiana que refletisse o debilitante efeito das pesadíssimas sanções internacionais após a primeira Guerra do Golfo. Os dafatir são novidade, ecoando o passado de Bagdá enquanto importante fonte de manuscritos islâmicos. 

Com o trabalho de Azzawi, evoluíram para um formato exclusivamente iraquiano - rasgados, criativos e altamente conceituais. “Resistem à exposição, e seu objetivo é documentar", disse Zainab Bahrani, professor iraquiano de arte antiga do Oriente Próximo na Universidade Columbia, em Nova York. “São muito poderosos e originais porque não se inspiram no que acontecia em outros lugares.”

Na sequência imediata da guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, o presidente George W. Bush fez seu famoso discurso de “missão cumprida”, ainda que o futuro reservasse anos de banho de sangue e a destrutiva fúria do califado do EI. Em resposta, Azzawi levou muitos anos para completar Mission of Destruction, obra do tamanho de um outdoor que ocupa uma parede inteira do MoMA PS1. De um lado, soldados americanos reluzem com suas baionetas e seu maquinário da destruição. 

Do outro, representando os iraquianos, jaz uma pilha caótica de membros decepados e máscaras mortuárias. A única cor é o vermelho derramado entre as vítimas. No meio, um corpo desaba em um abismo. Azzawi lamenta o fato de, em vez de reconstruir o Iraque, a ocupação americana fomentou novos e sangrentos sectarismos.

“O que ocorreu no Iraque é um épico, a completa destruição do Iraque, seja pelos iraquianos ou pelas forças estrangeiras", disse ele. A exposição no MoMA PS1 “é uma oportunidade para mostrar o trabalho de artistas iraquianos e expressar uma forma de protesto contra o que aconteceu com o país deles". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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