Koji Sasahara/Associated Press
Koji Sasahara/Associated Press

Obsessão do Japão pelo plástico está matando o mar

País é o segundo maior gerador de embalagens plásticas per capita do mundo

Motoko Rich, The New York Times

17 de julho de 2019 | 06h00

OSAKA, JAPÃO - Shoji Kousaka sempre pensou o Japão como um lugar em que as pessoas sabiam como eliminar o seu lixo. Mas isto foi antes de passar uma manhã em um veleiro na Baía de Osaka, no fim do ano, chocado com as montanhas de garrafas de refrigerantes, sacolas plásticas, embalagens de lanchinhos e canudinhos de plástico presos nas redes, juntamente com linguados e camarões.

“Coisas que jamais deveriam estar lá, estavam”, disse Kousaka, vice-diretor da União de Governos de Kansai, uma federação de prefeituras que representa a segunda maior área metropolitana do Japão, depois de Tóquio. Segundo o que viu nas seis horas em que ficou no barco, Kousaka calcula que no leito da baía haja mais de 6,1 milhões de lixo plástico e cerca de três milhões de sacolas plásticas.

"Considerando a elevada coleta de plásticos do Japão e sua rigorosa estratégia de reciclagem", disse Kousaka, “fiquei surpreso com a quantidade de lixo que está no fundo do oceano”. Os japoneses costumam ser elogiados por sua meticulosa coleta de resíduos e talvez sejam extremamente cuidadosos com a separação do material a ser reciclado.

Mas o consumo de plásticos está profundamente enraizado na cultura japonesa, na qual legumes e verduras vendidos nas lojas são embrulhados individualmente, as embalagens frequentemente são duplas e as máquinas distribuidoras instaladas em toda parte contêm quantidades enormes de garrafas de plástico. O país é o segundo maior gerador de embalagens plásticas per capita do mundo, depois dos Estados Unidos.

Embora muitas prefeituras disponham de sofisticadas sistemas de coleta - entre 70 a 80% dos filmes plásticos, garrafas e sacos usados são recolhidos pelas empresas de gestão do lixo e em seguida reciclados ou incinerados - o Ministério do Meio Ambiente do Japão acredita que anualmente acabem no oceano entre 18 mil e 54 mil toneladas de lixo plástico.

“Na realidade, nós não estamos solucionando o problema”, afirmou Karen Raubenheimer, professora da Universidade de Wollongong na Austrália. “Se falamos somente de coleta e gestão do lixo, não estamos falando da redução da produção e do consumo”. Os esforços do Japão em relação ao problema do lixo que acaba no mar são contraditórios; na reunião do Grupo dos 7, no Canadá, no ano passado, o país não assinou uma carta que falava especificamente dos plásticos com o objetivo de reduzir o lixo marinho.

Os Estados Unidos tampouco a assinaram. Ao mesmo tempo, países em desenvolvimento utilizam cada vez mais este tipo de embalagem, muitas vezes no âmbito de um programa destinado a aumentar a segurança e a higiene dos alimentos. Um dia, no mês passado, Chiyoko Yamada, 72, fazia compras em Osaka, e a sua cesta estava cheia de produtos acondicionados em plásticos.

Havia caixas próprias para macarrão soba frito e panquecas conhecidas como okonomiyaki, cheias de sachês de individuais para cada ingrediente. No fundo da cesta, havia uma única cenoura envolvida em filme plástico ao lado de quatro aspargos, também envolvidos em plástico um por um. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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