Ksenia Kuleshova/The New York Times
Ksenia Kuleshova/The New York Times

Com um livro chamado ‘Odeio homens’, uma feminista francesa toca num ponto sensível

Pauline Harmange está se adaptando ao sucesso e à revolta a respeito de sua obra de estreia, que figura entre alguns livros na França que sugerem uma abordagem mais direta em relação ao sexismo e à violência de gênero

Laura Cappelle, The New York Times - Life/Style

10 de fevereiro de 2021 | 05h00

PARIS - Se não fosse por um homem, a estreia literária de Pauline Harmange, Odeio homens, poderia ter passado em branco. O ensaio feminista, que argumenta a favor de evitar os homens como um mecanismo de defesa contra a misoginia generalizada, foi publicado inicialmente em francês pela editora sem fins lucrativos Monstrograph. A tiragem foi de apenas 400 exemplares. Porém, no dia de seu lançamento, em agosto, um funcionário do ministério francês de igualdade de gênero, Ralph Zurmély, mandou um e-mail à Monstrograph de seu endereço eletrônico governamental.

De acordo com ele, o livro era obviamente “uma ode à misandria”. Zurmély, que não tinha lido o livro, comparou-o a “incitar o ódio com base no sexo" e concluiu, “Peço que vocês retirem imediatamente esse livro de seu catálogo, sob pena de processo legal”.

A ameaça saiu pela culatra. Não demorou para que se tornasse público o fato de que Odeio homens se tornou uma causa célebre na imprensa francesa — e chamou atenção para a misandria, a aversão ou suspeição em relação a homens, enquanto fenômeno social. Como a Monstrograph não conseguiu atender à demanda, uma grande editora francesa, a Seuil, venceu a guerra de propostas para reimprimir o livro, que vendeu 20 mil exemplares desde então. Foram vendidos direitos de tradução para 17 idiomas.

Nos Estados Unidos, a HarperCollins lançou I Hate Men traduzido por Natasha Lehrer, em 19 de janeiro.

Nesse meio tempo, o ministério francês de igualdade de gênero sofreu para se dissociar da ameaça de Zurmély. Um porta-voz da atual ministra, Élisabeth Moreno, afirmou que ela “condenou firmemente esse ato isolado” e acrescentou que Zurmély estava sendo transferido para uma função diferente “por sua vontade”.

Para Pauline, de apenas 26 anos, essa experiência, em sua totalidade, pareceu um estalo. “Isso lançou minha carreira, que eu achava um sonho quase impossível”, disse ela em uma entrevista por chamada de vídeo, em dezembro, de sua casa em Lille, no norte da França. Com a atenção do público, porém, veio o assédio nas redes sociais, com insultos diários agora em várias línguas.

“Há momentos que digo a mim mesma que não fui feita para isso”, afirmou ela.

Odeio homens começou em 2019, como um texto publicado em um blog a respeito do esgotamento do feminismo. Pauline tinha se formado um ano antes como bacharel em comunicação e estava trabalhando como redatora freelancer. Seus ensaios pessoais, a respeito de assuntos que variavam entre cuidados pessoais e ambientalismo, auferiam um pequeno mas constante número de seguidores, ajudando-a a pagar as contas por meio da plataforma Tipeee, uma alternativa francesa para o serviço de crowdfunding Patreon.

Os editores da Monstrograph, Martin Page e Coline Pierré, viram o texto e perguntaram se ela queria transformá-lo em um livro. Para Pauline, que atua como voluntária em uma associação de apoio a vítimas de estupro, a misandria se tornou o melhor conceito para expressar sua frustração contra a violência de gênero estrutural.

“Somos insultadas por sermos feministas”, afirmou ela. “Qualquer coisa que digamos, se criticarmos os homens, somos acusadas de misandria. Foi então que me dei conta de que, na verdade, é exatamente isso”.

Curto e fluido, Odeio homens é parte de uma recente retomada do sentimento antimasculino na literatura feminista francesa. Como Pauline, Alice Coffin, uma vereadora eleita na cidade de Paris, aborda a misandria em Lesbian Genius [Genialidade lésbica], publicado pela Grasset no fim de setembro. Enquanto o livro relata principalmente a experiência dela como jornalista e ativista lésbica, costurada com uma série de entrevistas com jornalistas LGBT dos EUA, uma seção é dedicada à “guerra dos homens” contra as mulheres. Alice argumenta que a arte feita por homens é “uma extensão de seu sistema de dominação” e afirma que evita isso.

A sinceridade da obra de Alice e Pauline colocou o dedo em uma ferida na França. O país demorou a reagir ao movimento #MeToo, em parte por causa de uma diferença geracional entre as feministas mais velhas e conhecidas e as feministas mais jovens e impetuosas, que apontam para a falta de avanços.

“As feministas dedicaram muito tempo e energia para garantir aos homens que na verdade não os odiamos, e eles são bem-vindos", disse Pauline. “Não recebemos muito em troca.”

A desilusão com a política francesa contribuiu para uma mudança na geração mais jovem. Ainda que o presidente francês Emmanuel Macron tenha declarado certa vez que a igualdade de gênero seria “a grande causa da minha presidência", o governo dele foi criticado por promover poucas políticas feministas. No ano passado, Macron nomeou como ministro do interior Gérald Darmanin, que já foi acusado de estupro.

Em entrevista na casa dela em Paris, Alice disse que os homens “tiveram sua chance” de promover a igualdade. “Eles tiveram tempo de sobra para reparar nos indícios, mas, aparentemente, não se entusiasmaram muito com a questão.”

Nesse contexto, Pauline e Alice afirmam que colocar a irmandade feminina acima da ideia de contemporizar com os homens seria o próximo passo lógico.

Algumas mulheres ainda acreditam que denunciar coletivamente os homens é uma atitude mais nociva do que produtiva. Em coluna publicada no Journal du Dimanche, a filósofa Élisabeth Badinter criticou a “mentalidade binária” do “neofeminismo beligerante". Outras defendem Pauline e Alice, mas não chegam a se declarar misândricas.

Rokhaya Diallo, destacada jornalista negra e ativista pela igualdade racial e de gênero, disse em entrevista pelo telefone que não gostaria de “concentrar meu ativismo nos homens".

Rokhaya destacou que também é mais difícil para que as mulheres não brancas sigam o exemplo de Pauline e Alice. “Em se tratando das feministas não brancas, o discurso é rapidamente analisado como um tipo de ódio ao homem branco", disse ela. “A misandria acaba se misturando a questões raciais”.

Agora Pauline tem três outros livros com publicação programada, incluindo um romance que escreveu antes de Odeio homens, intitulado Limoges to Die, a ser lançado este ano ou em 2022, e um ensaio a respeito de sua difícil experiência com o aborto, com lançamento em 2022.

Acima de tudo, o sucesso de Odeio homens significa que ela consegue pagar as contas. Pauline disse que, pela primeira vez em anos, não teve que imaginar se poderia voltar a morar com os pais.

“Nunca tive a coragem de ser um modelo de comportamento, uma ‘mulher inspiradora”, escreveu ela dois anos atrás no texto publicado no blog que deu origem a Odeio homens. Para uma geração de feministas francesas, talvez ela tenha se tornado uma inspiração. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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