(Adriana Zehbrauskas The New York Times)
(Adriana Zehbrauskas The New York Times)

Sem Olimpíada, corredor reencontra seu amor pela corrida

Desde que se formou na universidade, Kyle Merber perseguia um único objetivo: classificar-se para a prova dos 1,5 mil metros nas Olimpíadas

Scott Cacciola, The New York Times - Life/Style

28 de julho de 2020 | 05h00

Numa manhã nublada do final de março, alguns dias depois que o Comitê Olímpico Internacional anunciou que iria adiar os Jogos de Tóquio de 2020 por causa da pandemia de coronavírus, Kyle Merber fez a curta viagem de carro de sua casa em Hastings-on-Hudson, Nova York, até a ferrovia Dutchess, uma de suas rotas de corrida favoritas. Mas, desde o início, Merber sabia que essa corrida seria diferente.

Desde que se formou na Universidade de Columbia, em 2012, Merber perseguia um único objetivo: classificar-se para a prova dos 1,5 mil metros nas Olimpíadas. Agora, calçando o tênis, ele se perguntava se teria resistência psicológica e recursos financeiros para continuar treinando em período integral por mais um ano – talvez, pensou ele, fosse hora de se aposentar. Seu plano era percorrer 32 quilômetros, o que constituiria o treino mais longo de todos os tempos.

Ele sabia que era estranho aumentar a carga de trabalho quando não tinha motivos reais para aumentá-la. “Acho que faz parte de um processo de terapia”, disse ele. “É o que os corredores de longas distâncias fazem: nós corremos”. Merber, de 29 anos, estava acompanhado por sua esposa, Patricia Barry, que pedalava sua bicicleta debaixo de uma garoa fria enquanto filmava o marido para um vídeo que sua equipe mais tarde postaria no YouTube. Depois que venceu o primeiro quilômetro, ele acelerou o ritmo e começou a refletir. “Para a saúde do mundo, obviamente é a medida necessária”, disse ele sobre o adiamento da Olimpíada.

“Mas nem por isso dói menos”. Ainda assim, ele foi ficando mais animado com o passar da manhã. A corrida, que depois ele descreveria como uma das melhores de sua vida, fez com que ele batesse os 160 quilômetros naquela semana – um número arbitrário, mas pelo menos uma conquista diante de todo o resto que vinha dando errado. Nos três meses seguintes, os pensamentos de Merber sobre sua carreira de corredor continuaram a evoluir de maneiras que ele jamais teria previsto.

Durante muito tempo, Merber vinculara sua identidade às Olimpíadas e aos 1.500 metros: os Jogos Olímpicos eram seu sonho e os 1.500 metros, sua corrida. Mas, depois do adiamento, Merber aprendeu a abandonar essas duas obsessões entrelaçadas. Ele agora quer se concentrar nos 5 mil ou 10 mil metros – distâncias mais adequadas aos seus pontos fortes – e ver aonde essa estrada pode levar. E, mesmo que ainda queira dar uma chance às Olimpíadas, remarcadas para o próximo verão, seu objetivo de competir em Tóquio já não o consome por inteiro.

Mais do que qualquer outra coisa, o lockdown, de uma maneira estranha e inesperada, o levou a redescobrir a alegria de correr – uma mudança que ele vem revelando numa série de entrevistas desde o início do ano. “Decidi fazer uma coisa verdadeiramente nova”, disse ele. “Acho que o mais importante é que voltei a ficar empolgado para treinar. Talvez aquilo que eu vinha fazendo desde muito tempo tenha ficado obsoleto”.

“É duro olhar na tela e ver que você está sendo só um ser humano”

Merber – cujas melhores marcas pessoais são 3 minutos e 52,22 segundos por milha [1,6 km] e 3 minutos, 34 segundos e 54 centésimos nos 1.500 metros – tem aquele tipo de estrutura, feita de 1 metro e oitenta e 70 quilos de pura contração, que parece projetada para o desempenho cardiovascular de elite. Seus músculos isquiotibiais têm seus próprios músculos isquiotibiais. E uns 92% do seu corpo é só membros.

Ele se sente afortunado por viver da corrida – “é uma ótima maneira de passar pelos vinte e poucos anos”, disse ele – e seus patrocinadores, principalmente a marca de calçados Hoka One One, pagam o bastante para ele viajar, correr e comer. Ele sempre vai correr, garantiu, mesmo depois de se aposentar do esporte, mas, nos últimos anos, seu jeito meio despojado o deixou popular entre os corredores.

“Kyle tem sido um catalisador para criar essas comunidades no mundo da corrida profissional”, disse Sam Parsons, que corre pelo clube Tinman Elite, com sede no Colorado. Em tempos não-pandêmicos, Merber organiza uma corrida anual, a Hoka One One Long Island Mile, que reúne muitos de seus amigos corredores de elite. E, num esporte que enfrenta o eterno desafio de ampliar seu público, o Merber é um dos seus grandes influenciadores nas redes sociais.

Lá está ele no Instagram (@kylemerber), contorcendo-se em posição fetal no porta-malas de seu carro depois de um treino especialmente brutal. Lá está ele no Twitter (@TheRealMerb), comemorando o recente recorde mundial de seu amigo Johnny Gregorek pela milha mais rápida numa corrida de calça jeans. Merber é conhecido por suas observações graciosamente autodestrutivas sobre o treinamento: “O fato de eu odiar cada segundo desse treino deve significar que isso me ajudará a melhorar na corrida”.

E, mais recentemente, por seus insights sobre a vida confinada: “Acabei de me meter em apuros, de novo, por fazer bacon enquanto minha mulher está numa chamada de trabalho”. O humor pode ser um mecanismo de enfrentamento. Os 1.500 metros, em particular, exigem uma terrível mistura de força, velocidade e resistência, e Merber é muito franco sobre suas derrotas, sobre suas dúvidas e sobre a vez em que desembolsou US $ 15 mil para fazer uma cirurgia de hérnia esportiva e achou que sua carreira tinha acabado.

“Se você tira cinco meses de folga e não consegue dar uma volta sem sentir dor, você meio que chega à conclusão de que acabou”, disse ele. Ele passou por um ciclo exaustivo de altos e baixos. Venceu a prova masculina dos 1.500 nos prestigiados Millrose Games quando se formou pela Escola Secundária Half Hollow Hills West, em Long Island, e depois estabeleceu um recorde na Ivy League para a prova indoor quando estava no segundo ano em Columbia.

Mas, depois de pisar num caco de vidro no verão seguinte, ele acabou perdendo um ano. Ele se recuperou no último ano a tempo de correr os 1.500 metros em 3:35.59, um recorde nas competições universitárias americanas. Quando ele não conseguiu avançar na bateria preliminar das etapas classificatórias para as Olimpíadas de 2012, ele imaginou que teria mais oportunidades.

Mas a dura verdade é que toda corrida deve ser saboreada. Dois meses antes das classificatórias olímpicas de 2016, Merber vinha sofrendo com uma lesão por estresse na região lombar. Ele terminou em nono e ficou de fora mais uma vez. A corrida foi uma decepção tão profunda que Merber evitou assistir ao vídeo até o início deste ano. “Foi péssimo porque eu fiquei ainda mais para trás do que me lembrava”, disse ele. “É duro olhar na tela e ver que você está sendo só um ser humano”.

Em 2018, depois de passar meses lutando contra dores na virilha, ele foi submetido a uma cirurgia muscular para reparar uma hérnia esportiva, pagando do próprio bolso pelo procedimento. “Realmente achei que era o fim”, disse ele. O pequeno milagre foi que Merber estava voltando à forma no ano passado, mas, depois, machucou a região lombar. “Exagerei”, disse ele.

Um plano frágil indo por água abaixo

Em janeiro, antes de o coronavírus dominar completamente o mundo e forçar o adiamento dos Jogos Olímpicos, Merber viajou ao Arizona para um programa de treinamento de seis semanas. Ele não tinha margem para erro. “Eu preciso desesperadamente estar saudável”, disse ele na época. Mas, enquanto tentava recuperar a confiança, Merber se virava e revirava sempre que seus pensamentos caíam nas etapas classificatórias para a Olimpíada.

Sua ansiedade se enraizava na urgência. Ele sabia que tinha de realinhar suas prioridades depois de Tóquio, pois seus patrocínios iriam expirar no final do ano. Além disso, queria seguir adiante com sua vida: uma família, um trabalho que envolvesse fazer algo além de sprints de 600 metros, uma verdadeira transição para a idade adulta.

“Eu vejo dois cenários”, disse ele numa manhã de fevereiro. “No primeiro cenário, estou numa equipe olímpica, realizando meu sonho de infância. No outro cenário, não faço parte da equipe, mas pelo menos posso dizer que fiz três boas tentativas e poderei me aposentar sem arrependimentos, sabendo que fiz o que podia fazer”. Esse cálculo frágil se desfez depois que Merber voltou a Nova York. Diante do adiamento da Olimpíada, ele se perguntou se já teria feito sua última competição como profissional.

O mundo estava em crise – “Meus problemas não parecem assim tão ruins”, disse Merber – mas ele ainda se sentia perdido. Tom Nohilly e Frank Gagliano, seus treinadores de longa data, logo perceberam que havia alguma coisa errada. “Era seu grande impulso final para entrar na equipe olímpica e provar que ele podia estar lá”, disse Nohilly. “Quando você perde isso, é um choque”. Em abril, Merber parecia mudar de ideia sobre o próprio futuro pelo menos uma vez por dia. Ele queria ficar com os 1.500 metros? Ou era hora de abandonar a corrida?

“Só tenho vontade de explorar mais”

Nohilly viu uma oportunidade para Merber se recalibrar. Desde a cirurgia de hérnia, Merber vinha sofrendo para alcançar o tipo de velocidade máxima exigida pelos 1.500 metros. Os sprints necessários para a prova também eram o motivo pelo qual ele se sentia mais propenso a sofrer uma segunda lesão. Lá no fundo, Merber já sabia desde algum tempo que, nesse estágio da carreira, provavelmente seria melhor passar para as corridas mais longas. (Uma das esquisitices do esporte é que, para alguns corredores, as corridas mais longas podem ser mais clementes do que as mais curtas em termos físicos.)

Ele só estava com medo de dar esse passo. “Nunca achei que teria tempo suficiente para aprender a correr numa nova prova ou realmente chegar à quilometragem necessária”, disse Merber. Agora, por causa da pandemia, ele tinha uma grande janela de experimentação, e Nohilly o encorajou a tirar vantagem da situação: mais quilômetros, menos velocidade total. Desde o início, Merber se sentiu mais livre. Estava correndo só pela diversão.

Agora ele podia se concentrar direto no aperfeiçoamento pessoal. Depois de aumentar sua quilometragem semanal de 120 para 160 quilômetros, em maio Merber mediu seu progresso com uma corrida de 16 quilômetros. Ele imprimiu um ritmo intenso, encerrando o circuito em cerca de 49 minutos. “Eu podia deixar meu eu pré-quarentena no chinelo”, disse ele. Isso ajudou a solidificar sua crença de que estava no caminho certo – um caminho novo, mas o caminho certo – e seus treinadores acham que talvez ele possa até se gabaritar para correr a maratona.

Mas, mesmo agora, depois de aumentar sua quilometragem e reconsiderar suas prioridades, ele se sente em conflito. Vai fazer um treino em pista, disse ele, mas sua cabeça fica na mensagem de LinkedIn que ele mandou para saber de uma vaga de emprego. Às vezes é difícil se concentrar. Ele está dividido entre o passado e o futuro. “Eu sempre vou competir, mas talvez não precise mais ser um trampo de tempo integral”, disse ele, acrescentando: “Agora que estou mais velho, só tenho vontade de explorar mais, de fazer outras coisas além da corrida.

Quero desenvolver toda a minha personalidade”. Ao mesmo tempo, ele não pode deixar de sonhar com sua próxima corrida, provavelmente nos 5 mil metros, num tempo e local ainda indeterminados. E aquelas sensações tão familiares – expectativa, ansiedade, pressão – voltam à tona.

Um desempenho ruim, disse ele, seria perturbador. Mas ele também teme que um resultado excelente o leve de volta a querer mais da vida que ele está tentando deixar para trás. Então ele se lembra das lições aprendidas: que ele corre pelo amor à corrida, que há espaço para os tons de cinza – para o equilíbrio – num esporte muitas vezes definido por centésimos de segundo. Ele só precisava de um pouco de tempo e distância para entender. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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