Erika P. Rodriguez/The New York Times
Erika P. Rodriguez/The New York Times

Onda de assassinatos aterroriza população de Porto Rico

A ilha, que ainda tenta se reconstruir após a devastação causada pelo furacão Maria, agora registra um surto de violência em plena luz do dia

Alejandra Rosa e Frances Robles, The New York Times

18 de janeiro de 2019 | 06h00

SAN JUAN, PORTO RICO - Liz G. Rodríguez Quiñonez, 30, cresceu sabendo se jogar no chão, para o caso de balas perdidas de um tiroteio próximo atravessarem sua janela. Mas foi somente no segundo semestre do ano passado que Liz, atendente de uma barraca móvel de lanches numa cidade a leste da capital porto-riquenha, testemunhou seu primeiro assassinato: certa manhã, ao lado do fogão da barraca, ela ouviu estalos, seguidos de gritos, e percebeu que o sujeito que foi alvo dos disparos estava logo atrás da barraca dela. Liz se agachou, mas não houve esperança para o homem, que morreu a poucos metros de onde ela estava.

"Vi o cadáver. Ele tinha cerca de 30 anos. Foi horrível", disse Liz.

Faz tempo que Porto Rico apresenta um dos índices de violência mais altos dos Estados Unidos, em episódios que podem ser quase invariavelmente atribuídos à violência entre gangues. Mas um recente surto de assassinatos em plena luz do dia, alguns deles registrados em vídeo e amplamente compartilhados nas redes sociais, abalou a população e preocupou as autoridades policiais locais e federais.

Com manchetes anunciando que 22 pessoas já tinham perdido suas vidas de maneira violenta nas primeiras semanas de 2019 - incluindo o músico gay Kevin Fret, baleado no dia 10 de janeiro enquanto passeava de moto na madrugada em San Juan -, o governador Ricardo Rosselló convocou uma reunião com os líderes de todas as agências policiais federais e comunitárias, que prometeram uma resposta.

Após a falência e a devastação impostas pelo furacão Maria, Porto Rico enfrenta uma economia em pleno naufrágio e um êxodo em massa. E embora a proporção de homicídios tenha caído bastante em relação ao auge observado sete anos atrás, o declínio não traz muito consolo quando pensamos que quase 5 mil policiais se demitiram nos anos mais recentes.

Vinte e cinco anos após a ocasião em que Porto Rico ganhou as manchetes ao enviar sua Guarda Nacional para o patrulhamento de bairros urbanos, a ilha ainda é um dos lugares mais perigosos do mundo, mesmo com a queda constante nos índices de crimes violentos.

O secretário de segurança pública, Héctor Pesquera, disse que os dados amplamente divulgados mascaram o progresso alcançado. Ele disse planejar uma nova estratégia que identificaria os membros mais violentos das gangues, responsáveis pela maioria dos assassinatos ligados à disputa por território, centralizando neles os esforços da promotoria.

Ele  destacou que Porto Rico registrou 641 assassinatos em 2018, queda de 10% em relação aos 710 registrados em 2017. Em comparação, a ilha registrou um recorde de 1.135 homicídios em 2011 - 30 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Agora, perto da marca de 20 assassinatos por 100 mil habitantes, o índice de homicídios de Porto Rico é quatro vezes superior ao observado no restante dos Estados Unidos, e parece mais próximo de países como o México.

Pesquera, que foi chefe de polícia em 2012, conseguiu reduzir bastante o índice de homicídios com a detenção de ladrões por acusações federais ligadas a armas de fogo. O demógrafo Alexis Santos, da Universidade Estadual da Pensilvânia, destacou que, levando em consideração a acentuada queda na população de Porto Rico, o constante declínio dos indicadores de violência chegou ao fim em 2015, quando esses números voltaram a aumentar.

O diretor-executivo do sindicato de policiais de Porto Rico, José Marín, disse que as pessoas têm razão em sentir medo.

"Agora os delinquentes agem em plena luz do dia, saindo dos carros impunemente, atirando na frente de testemunhas", disse Marín. "Não se importam de serem vistos. Perderam o medo de prisão".

Não faz muito tempo que Porto Rico mudou o plano de aposentadoria dos policiais, o que levou milhares a deixarem o emprego. Em 2012, a ilha contava com 17.500 policiais; agora são 11.800, de acordo com o departamento de segurança púbica.

Segundo Marín, cerca de 900 policiais deixaram o cargo no ano passado, além dos que se aposentaram. Diante dessa afirmação, Pesquera responde que o índice de homicídios era mais alto quando havia mais policiais nas ruas.

A redatora Rayze Ostolaza, 24, que teve o carro roubado em 2017, disse que o problema é especialmente grave para as mulheres.

"Não me sinto segura em Porto Rico", disse ela. "Quando estou na rua e vejo um beco escuro, ando com o coração apertado e um nó na garganta. E agora sei que a violência não acontece somente à noite".

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