Ludovic Marin/Agence France-Presse ? Getty Images
Ludovic Marin/Agence France-Presse ? Getty Images

Onda de calor na Europa é consequência do aquecimento global, dizem especialistas

As condições climáticas estão cada vez mais caóticas no continente europeu

Alissa J. Rubin, The New York Times

09 Agosto 2018 | 15h00

PARIS - No norte da Europa, este verão parece uma versão contemporânea das pragas bíblicas. Vacas estão morrendo de sede da Suíça, incêndios estão consumindo florestas na Suécia, e a majestosa geleira Dachstein está derretendo na Áustria.

Em Londres, os ventiladores e unidades de ar-condicionado estão acabando nas lojas. Na Groenlândia, um iceberg pode perder um pedaço tão grande que sua queda no mar pode gerar um tsunami capaz de destruir os assentamentos litorâneos. Recentemente, o pico mais alto da Suécia, monte Kebnekaise, perdeu o primeiro posto por causa do derretimento da ponta da sua geleira.

O sul da Europa está ainda mais quente. No dia 4 de agosto, vários lugares em Portugal registraram recorde de temperaturas mais altas e, nas duas semanas mais recentes, duas pessoas morreram na Espanha por causa das altas temperaturas, e mais uma em Portugal.

Mas, nas latitudes mais setentrionais, onde o clima está esquentando mais rapidamente do que a média global, as temperaturas têm sido mais extremas, de acordo com um estudo de pesquisadores da Universidade de Oxford e da rede World Weather Attribution.

Uma série de cidades na Noruega, Suécia e Finlândia observaram temperaturas máximas recordes este verão, com cidades dentro do Círculo Polar Ártico registrando quase 32°C.

Além do norte e oeste da Europa estarem mais quentes que o habitual, as condições climáticas estão mais caóticas. Chuvas torrenciais e tempestades de relâmpagos se alternaram com secas em partes da França. Na Holanda, uma seca - e não a alta do nível do mar - está afetando o sistema de diques porque não há água doce suficiente para se contrapor à água do mar.

Os resultados preliminares do estudo de Oxford revelaram que, em alguns lugares, a mudança climática aumentou em mais de 100% a probabilidade de uma onda de calor como a observada este ano no verão europeu.

“No passado, esse tipo de onda de calor ocorria uma vez a cada 10 anos, e agora passou a ocorrer a cada dois anos ou algo parecido”, disse François-Marie Bréon, climatólogo e vice-diretor do Laboratório de Ciência Ambiental e Climática. “Esse é o verdadeiro indício da mudança climática: temos ondas de calor que não são necessariamente mais intensas, mas cada vez mais frequentes.”

Temperaturas que antes eram vistas como anomalias - como as observadas no verão de 2003, quando pelo menos 70 mil pessoas morreram em toda a Europa - se tornarão “a regra para o verão” depois de 2060, disse Jean Jouzel, que foi vice-presidente do Painel Intergovernamental da Mudança Climática.

Ondas de calor ocasionais podem levar as temperaturas na Europa até a casa dos 49°C a não ser que ocorra uma desaceleração dramática nas tendências de aquecimento global, disse ele.

“Trata-se de um mundo com o qual a França e a Europa Ocidental não estão acostumadas. Para a Europa Ocidental, teremos uma mudança significativa no clima se não combatermos de maneira eficiente o aquecimento global”, disse ele.

Gradualmente, a mudança climática é compreendida aqui como algo que poderá destruir ou reduzir partes da economia.

“Na Europa, a cada ano, cerca de 5% da população enfrenta um evento climático extremo, seja uma onda de calor, uma enchente ou uma seca. Mas, na segunda metade deste século, se o aquecimento global não for controlado, é possível que dois em cada três europeus enfrentem eventos climáticos extremos", disse Jouzel.

Antes, eram as tempestades de inverno que fechavam aeroportos e atrasavam voos. Mas, neste verão, na cidade alemã de Hannover, norte do país, as pistas de pouso construídas há 50 anos cederam diante do calor de 33°C, provocando atrasos de horas.

Em toda a Alemanha, as árvores, especialmente as mais jovens, foram duramente atingidas pela seca.

Em toda região dos Alpes e principalmente no leste da Suíça e Oeste da Áustria, bem como na Irlanda, a falta de água é tão grave que não há feno o bastante nos pastos para alimentar as vacas leiteiras locais. Assim, os agricultores precisam recorrer ao estoque que costumam guardar para o inverno.

A Suécia enfrentou algumas das piores repercussões decorrentes do tempo quente, começando com incêndios florestais que destruíram mais de 60 mil acres de área verde, de acordo com David Sundström, do Departamento Sueco de Contingências. Os incêndios seguem descontrolados, mas já diminuíram de intensidade em relação ao seu auge.

Na França, o tempo quente ainda não quebrou recordes. Mas essas condições fazem parte de uma tendência geral (o mês de julho foi um dos três mais quentes já registrados) e há mudanças sutis ocorrendo por todo o país. Entre elas estão a alta no nível dos oceanos - para Bréon, estamos subestimando esse fenômeno.

“Mesmo se respeitarmos o acordo climático de Paris e estabilizarmos as temperaturas num patamar dois graus acima do observado na era pré-industrial, o nível do mar seguirá aumentando por centenas de anos. Há cidades litorâneas que já podem se considerar condenadas", disse ele.

Repórteres contribuíram de Paris, Berlim, Roma, Bruxelas, Madri, Estocolmo, Londres, Dublin e Atenas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.