Jun Michael Park para The New York Times
Jun Michael Park para The New York Times

Onda de iemenitas buscando asilo provoca tensões na Coreia do Sul

Conflito iemenita é considerado “a maior crise humanitária do mundo” pela ONU

Choe Sang-Hun, The New York Times

30 Setembro 2018 | 10h15

JEJU, Coreia do Sul - Jeju, uma ilha subtropical famosa por seus mares cor de turquesa e campos de golfe, há dezenas de anos atraía casais sul-coreanos em lua de mel. Entretanto, nos últimos meses, a ilha resort começou a receber um novo tipo de visitantes: pessoas que fogem da catástrofe no seu país, o Iêmen, e procuram asilo.

Hani al-Junaid, jornalista de 37 anos, é uma delas.

“Não havia um lugar seguro para eu me esconder no Iêmen”, disse Junaid, cujo relato do conflito iemenita - considerado “a maior crise humanitária do mundo” pela ONU - o tornou alvo de grupos armados e hoje é considerado um inimigo.

Em maio, ele acabou indo para Jeju, ao largo da costa meridional do país, e até agora aguarda que as autoridades sul-coreanas tratem do seu pedido de asilo. “Eu tinha ouvido dizer que a Coreia do Sul estava aberta aos iemenitas”, contou.

Mas não era bem assim.

A chegada de centenas de iemenitas criou uma forte oposição, que levou ao primeiro movimento organizado contra a concessão de asilo pela Coreia do Sul. “Vamos expulsar estes falsos refugiados!” gritavam as pessoas em um comício realizado no dia 30 de junho na ilha. Protestos semelhantes ao de Jeju foram realizados em outras partes, inclusive em Seul, neste verão.

Uma petição online que instava o presidente Moon Jae-in a parar de conceder asilo a estas pessoas atraiu mais de 714 mil simpatizantes.

Surpreso, o governo de Moon, que é filho de um refugiado da Coreia do Norte do tempo da guerra, prometeu rever a legislação a fim de tornar mais rigorosa a seleção dos candidatos ao asilo.

A popularidade de Jeju como resort começa a desaparecer, porque os sul-coreanos com rendas cada vez mais elevadas hoje preferem ir para o exterior. Por isso, em 2002, a ilha teve a permissão de não conceder vistos à maioria dos visitantes estrangeiros.

Quando em dezembro, a AirAsia instituiu voos mais baratos de lugares como Kuala Lumpur e Malásia para Jeju, repentinamente a ilha chamou a atenção de iemenitas que buscavam asilo e passaram a considerá-la uma etapa rumo à Coreia do Sul.

Milhares de iemenitas foram para a Malásia. Mas não puderam permanecer no país mais de 90 dias porque o status de refugiados lhes foi recusado.

Nos primeiros cinco meses deste ano, chegaram 561 iemenitas, em comparação com 51 em todo o ano passado.

Junaid, que chegou no dia 29 de maio, chegou no momento certo. No dia 1º de junho, a Coreia do Sul incluiu o Iêmen à lista de 11 outros países que precisam de visto para entrar na ilha.

No dia 30 de abril, um mês antes da chegada de Junaid, o governo impediu que 487 iemenitas que procuravam asilo e ainda se encontravam em Jeju partissem para o continente enquanto os seus pedidos de refúgio estavam sendo analisados.

Muaadh Galal Mohammed al-Razeqee e sua esposa grávida fugiram do Iêmen em maio e desembarcaram em Jeju seis dias mais tarde, depois de pegar um voo da AirAsia por 150 dólares na Malásia para o último trecho da viagem. “No Iêmen, bombas, bombas, bombas, continuamente”, ele disse. “Não há água, eletricidade, emprego, escola, nada. Como vou poder dar uma boa vida para o meu filho? Ouvi falar de Jeju e que ali eu poderia ter uma chance”.

Razeqee e a esposa encontraram um abrigo temporário quando uma americana professora de inglês concordou em dividir o apartamento com eles.

Mas nem todos em Jeju foram tão receptivos. Embora as poucas centenas de iemenitas que estão aqui constituam uma pequena porcentagem na população de 660 mil pessoas da ilha, sua presença gerou muitos temores, até mesmo medo.

“Se estas pessoas não representam um perigo, por que o governo não deixa que elas vão para o continente como desejam?” perguntou Kim Jin-yi, 32, que assistiu ao protesto em Jeju.

A Coreia do Sul se orgulha de ter uma sociedade homogênea, e há muito é avessa a aceitar pessoas que procuram asilo. Em razão de sua localização, o país não tem sido um local muito procurado pelos refugiados, além dos que vem da Coreia do Norte, que em geral são aceitos como compatriotas.

Mas esta situação está mudando desde 2013, quando a Coreia do Sul, sob a pressão de grupos defensores dos direitos humanos, adotou uma nova legislação que dá proteção aos refugiados. O número de candidatos ao asilo subiu desde então, de 2.896 em 2014, para 9.942, no ano passado.

Na internet, alguns alertaram os coreanos de uma invasão de terroristas ou estupradores árabes.

“Eles podem ter várias esposas e muitos filhos”, disse Yang Eun-ok, 70, um dos líderes do protesto em Jeju. “Agora, há 500 deles. Daqui a 10 e 20 anos, quantos deles haverá aqui?”

Em busca de asilo, centenas de pessoas procuram este lugar preferido para passar a lua de mel.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.