Joe Penney para The New York Times
Joe Penney para The New York Times

Onda de repressão à migração ganha força no Níger 

Recursos da UE contribuem para reduzir o contrabando humano, mas isto também tem um custo

Joe Penney, The New York Times

13 Setembro 2018 | 15h15

DIRKOU, Níger - Tropas fortemente armadas estão posicionadas ao redor dos oásis no vasto deserto no norte do Níger, onde as temperaturas costumam subir acima dos 38 graus.

Embora tanto o Al-Qaeda quanto o Estado Islâmico tenham ramificações que operam nesta área, a missão das forças do governo aqui não é combater o jihadismo.

Ao contrário, os soldados nigerianos combatem os contrabandistas de seres humanos, que transportam os migrantes através desta paisagem desolada. Os migrantes esperam chegar à vizinha Líbia, e dali, tentar a traiçoeira travessia do Mediterrâneo para alcançar a Europa. Alguns contrabandistas estão armados, os militantes são muito numerosos e o terreno é implacável.

Mas a operação está produzindo alguns efeitos: nos últimos dois anos, o Níger reduziu drasticamente o número de pessoas que se deslocam rumo ao norte, na direção da Líbia, através do seu território.

A União Europeia anunciou no ano passado que forneceria ao Níger uma ajuda de cerca de 1 bilhão de dólares para o desenvolvimento, até 2020, e centenas de milhões de projetos destinam-se a projetos para deter a migração. Alemanha, França e Itália também oferecem ajuda por conta própria. Isto faz parte de uma estratégia da União Europeia para manter os migrantes longe dos seus portos, pagando inclusive bilhões à Turquia e mais 100 milhões de dólares ao Sudão.

A Itália foi acusada de pagar milícias na Líbia para conter os migrantes. E aqui no Níger, oficiais militares afirmam irritados que a França financiou um antigo líder rebelde que continua sendo uma ameaça, priorizando o seu desejo de acabar com a migração em lugar de atender aos interesses do Níger no que diz respeito à segurança nacional.

Desde a aprovação de uma lei contra o tráfico humano em 2015, o Níger orientou os seus militares a prender e pôr na cadeia os contrabandistas e confiscar os seus veículos.

No pico da onda migratória, em 2015, de 5 mil a 7 mil migrantes viajavam semanalmente através do Níger para a Líbia. Agora, a criminalização do contrabando de pessoas reduziu estes números para cerca de mil por semana, segundo a Organização Internacional para a Migração (OIM).

Ao mesmo tempo, mais migrantes estão deixando a Líbia, fugindo da crescente insegurança e da violência racista que ali visa africanos da região subsaariana.

Nos últimos dois anos, foi maior o número dos migrantes africanos que deixaram a Líbia para voltar às próprias casas do que o dos que entraram no país vindos do Níger, informou o OIM.

Uma das principais empresas de ônibus do Níger, a Rimbo, costumava enviar diariamente quatro ônibus lotados de migrantes da capital do país Niamey, no sul, para a cidade de Agadez, no norte, o ponto onde se inicia a viagem até a fronteira da Líbia. Agora, a companhia assinou um contrato de dois anos com a OIM para transportar migrantes no sentido contrário, para que possam ser repatriados.

A realização deste esforço por parte do Níger teve evidentemente um custo, inclusive para os migrantes que continuam determinados a chegar à Líbia, e assumem mais riscos do que antes. Os motoristas pegam atualmente rotas distantes centenas de quilômetros de pontos de abastecimento de água e atravessam áreas minadas a fim de evitar as patrulhas militares. Quando os contrabandistas sabem que os militares estão na área, em geral abandonam os migrantes no deserto para escapar da prisão.

Isto provocou dezenas de mortes por desidratação nos últimos dois anos, levando a agência de proteção civil do Níger e o OIM a enviar semanalmente patrulhas de resgate.

Segundo informou o diretor da agência, Adam Kamassi, sua equipe resgata de 20 a 50 pessoas a cada saída. Nestas viagens, quase sempre encontra três ou quatro corpos.

A repressão ao contrabando também foi acompanhada pelo declínio econômico e por preocupações quanto à segurança no Níger.

Com o fechamento das rotas de migração por parte do governo houve um aumento do desemprego e de atividades como o contrabando de drogas e assaltos.

“Conheço cerca de 20 pessoas que se dedicam ao banditismo pela falta de trabalho”, disse Mahamadou Issouf, que conduzia migrantes de Agadez para o sul da Líbia desde 2005, e agora não tem o quer fazer.

Um documento da inteligência militar afirma que, desde o início da repressão, as cidades ao longo da rota da migração têm encontrado dificuldades para pagar serviços essenciais como escolas e clínicas de saúde, porque antes dependiam do dinheiro da migração e dos setores que a alimentavam.

A União Europeia está ansiosa por manter esta iniciativa, e parte da ajuda do bloco financia um projeto para transformar antigos contrabandistas em empreendedores. Mas o projeto ainda se encontra em seu estágio piloto mais de dois anos depois do início da repressão à migração.

Hassan Mohammed, 31, anteriormente contrabandista de migrantes, agora que o trabalho acabou está ocioso e abatido em razão da repressão.

“Não há nenhum projeto para nós, aqui”, ele disse. “Não há nada acontecendo. Eu só durmo e acordo”.

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