Rajesh Kumar Singh / Associated Press
Rajesh Kumar Singh / Associated Press

Onde está o Ronald Reagan da Índia?

Com DNA político fundamentalmente socialista, o país espera reduzir a burocracia disfuncional e liberar a economia para crescer mais rapidamente

Ruchir Sharma, The New York Times

08 de junho de 2019 | 06h00

Como muitos investidores globais, estou desconfiado do grande governo. Mas não cheguei a essa visão em Wall Street. E sim, crescendo na Índia, assistindo a vidas arruinadas pelo Estado arruinado, incluindo o hospital público que apressou a morte de meu avô, designando um auxiliar noturno sem treinamento para tentar sua cirurgia cardíaca de emergência.

Quando eu era um idealista de 20 e poucos anos no fim da década de 1990, minha esperança era que a Índia elegesse um dia um reformador do livre mercado como Ronald Reagan, que começaria a reduzir a burocracia disfuncional e liberaria a economia para crescer mais rapidamente. Olhando para trás, vejo o quão sem noção eu era.

Em Délhi, todo político é comprometido com um grande governo e não há um eleitorado para a reforma do livre mercado. Eu continuava esperando por Reagan, e a Índia continuava elegendo Bernie Sanders.

O primeiro-ministro Narendra Modi não é uma exceção. Cinco anos atrás, ele liderou o Partido Nacionalista Hindu Bharatiya Janata, conhecido como B.J.P., para obter uma promessa “reaganesa” de "governo mínimo". Agora ele ganhou um segundo mandato ao competir com rivais sobre quem poderia oferecer os programas de bem-estar mais generosos.

Isso não deve surpreender ninguém. O DNA político da Índia é fundamentalmente socialista. Após a independência em 1947, a Índia estabeleceu uma democracia parlamentar e um governo profundamente intrometido para espalhar a riqueza para suas massas empobrecidas. Mas se os indianos estavam prontos para a liberdade política em um estágio tão inicial de desenvolvimento, muitas vezes me perguntei: por que não a liberdade econômica?

Minhas esperanças se concentraram primeiro nos Gandhis, a principal dinastia do partido do Congresso. Talvez o Congresso encontrasse seu reformista mundano em Sonia Gandhi, a viúva de origem italiana de Rajiv Gandhi, o primeiro-ministro assassinado em 1991. Mais tarde, vi a esperança no filho de Gandhi, Rahul, formado em Cambridge e que trabalhou em uma empresa de consultoria em Londres e liderou a campanha de 2019 do Congresso.

No final de 2002, organizei uma reunião de uma hora com a Sra. Gandhi e seu filho em seu escritório em Délhi. Eu defendi a modernização da Índia, enfatizando os ganhos políticos que o Congresso poderia obter ao estender a liberdade à economia. O Congresso vinha perdendo apoio há anos, enquanto líderes mundiais emergentes como Kim Dae-jung, da Coreia do Sul, e Vladimir Putin, da Rússia, vinham ganhando popularidade ao se concentrarem em reformas que impulsionariam o crescimento econômico.

Os Gandhis fizeram perguntas céticas: os países que eu citei eram democracias reais? A reforma do livre mercado ajudaria os pobres e criaria empregos suficientes para as massas desempregadas da Índia? Ainda assim, nossa conversa me deu motivos para pensar que eles iriam seguir em frente, mas nunca o fizeram.

A reforma do livre mercado é antitética à ideologia socialista do Congresso, que agora promete uma renda anual básica de US$ 1.050 para as 50 milhões de famílias mais pobres da Índia. As esperanças de um big-bang e um reformador indiano ressurgiram anos depois com a ascensão de Modi, que em 2002 foi eleito ministro-chefe do estado de Gujarat, no oeste do país. Ao cortejar empresas multinacionais, construindo estradas e simplificando a burocracia estatal, Modi supervisionou um boom impressionante. A economia do estado cresceu a um ritmo próximo a 12% ao ano em seu primeiro mandato. Em 2014, o histórico de Modi em Gujarat ajudou a colocá-lo no escritório de primeiro-ministro.

Ouvi no apelo de Modi por “governo mínimo, governança máxima” a voz de um reformista burocrático e regulador no formato Reagan. Essa leitura ignorou a maneira como Modi entregou a “máxima governança” em Gujarat: por força da personalidade, cortando ele mesmo os investimentos estrangeiros e intimidando os burocratas a construir estradas na hora certa sem exigir suborno.

Esse desenvolvimento econômico foi por ordem executiva, e não a reforma econômica pela expansão sistemática da liberdade. Modi tentou governar a Índia da mesma maneira, mas os comandos de cima para baixo que reuniram dezenas de milhões de seus colegas de Gujarat não funcionaram tão bem na população indiana de 1,4 bilhão. Ele centralizou o poder no gabinete de primeiro-ministro e muitos empresários do setor privado agora dizem que ele os trata da mesma maneira que seus antecessores socialistas, muitas vezes desconfiados de seus motivos e contribuição para a sociedade.

Uma noite, em 2016, ele ordenou a retirada das notas de grande valor de rúpias - 86% da moeda em circulação - à meia-noite. O objetivo era tirar o dinheiro de debaixo dos colchões dos ricos trapaceiros fiscais. Um de seus ministros disse que Modi estava cumprindo uma "agenda marxista" para reduzir a desigualdade. Hoje, no entanto, os tremores secundários ainda estão se espalhando pela economia e têm sido especialmente dolorosos para os pobres.

De certa forma, Modi provou ser mais estatista do que os Gandhis. Antes de assumir o poder, ele criticou os programas de bem-estar social do Congresso como insultos aos pobres, que "não querem coisas de graça" e querem "trabalhar e ganhar a vida". Como primeiro-ministro, Modi reduziu os mesmos programas, ampliando o marco de 2006 que garantiu 100 dias de pagamento a todos os trabalhadores rurais, quer trabalhassem ou não.

Na frente econômica, então, todo partido indiano está à esquerda, pelos padrões ocidentais. O Congresso traça sua ideologia econômica para os pensadores socialistas, mas o pensamento do Partido Republicano baseia-se no Swadeshi, um nacionalismo econômico de esquerda. Os partidos regionais, uma terceira força cada vez mais importante, são inspirados pelos mesmos heróis socialistas indianos, como Ram Manohar Lohia.

É verdade que vários primeiros-ministros indianos, que remontam à década de 1980, impulsionaram a reforma do livre mercado. Mas só o fizeram quando foram forçados por uma crise financeira, não por convicção, e certamente não agora, depois de cinco anos de crescimento razoavelmente forte. Este ano, o B.J.P. anunciou novos programas que fariam Modi se sentir em casa em uma reunião na prefeitura de Bernie Sanders, incluindo transferências de dinheiro para agricultores, apoios salariais, assistência médica gratuita e uma casa de pucca (concreto) para cada família indiana.

Este não é o Modi retratado pela imprensa estrangeira, que o coloca como um nacionalista de extrema-direita. Sua campanha pode ter incitado a maioria hindu da Índia contra a minoria muçulmana. Mas na frente econômica, ele é tão à esquerda como qualquer líder indiano na memória. Durante seu segundo mandato, ele é muito menos propenso a governar como um Reagan do que um Sanders.

Ruchir Sharma é estrategista-chefe global da Morgan Stanley Investment Management.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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