Elias Newman via The New York Times
Elias Newman via The New York Times

ONG que leva judeus a Israel enfrenta protestos de ativistas

A Birthright, cujo objetivo é promover a identidade judaica e fortalecer vínculos de judeus com Israel, é criticada por ignorar conflito com palestinos

Farah Stockman, The New York Times

19 de junho de 2019 | 06h00

Durante quase 20 anos, uma ONG chamada Birthright Israel proporcionou a cerca de 700 mil jovens judeus uma viagem totalmente grátis a Israel, uma iniciativa com a finalidade de promover a identidade judaica e a criar um forte vínculo com o país.

Mas no ano passado, alguns ativistas judeus se desligaram de algumas viagens da Birthright, afirmando que estas excursões apagam as experiências de árabes-israelenses e palestinos que vivem sob a ocupação na Cisjordânia. Defensores da iniciativa menosprezam os protestos, alegando que os manifestantes procuram apenas publicidade. Outros afirmam que a função da viagem não é educar os participantes sobre a situação palestina. Segundo a Birthright, as viagens tratam a história de Israel de maneira apolítica.

Entretanto, os protestos mostram o crescente desconforto entre jovens judeus com a política de Israel. Eles compreendem claramente que os líderes israelenses querem a anexação da Cisjordânia, território sobre o qual os palestinos esperam há muito tempo construir o seu país. Os protestos evidenciam também uma fratura entre as gerações dos judeus que vivem com medo da destruição de Israel, e os mais jovens, para os quais a existência de Israel é indiscutível, embora se preocupem com a situação dos palestinos que deixaram de ter um Estado próprio.

Risa Nagel nunca se envolveu em um protesto ligado a Israel antes de sua viagem pela Birthright, e não tomou muito conhecimento do conflito quando se inscreveu para umas "férias gratuitas de dez dias". No entanto, quando algumas pessoas que conheceu na excursão pediram que ela a abandonasse, como elas estavam fazendo, concordou.

Na primeira noite do grupo em Israel, um dos integrantes perguntou se Risa poderia participar de um debate sobre o controle militar de Israel na Cisjordânia. Ela aceitou. Naquela primeira noite, muitos aprovaram a discussão, de acordo com Ben Fields,  um dos participantes. Mas à medida que a viagem foi se desenrolando, ela e outros três jovens levantaram as mesmas questões.

Ben Fields não sabia, mas os quatro estavam em contato com a rede IfNotNow de ativistas judeus que querem pôr fim ao apoio à ocupação. No verão passado, o movimento começou a encorajar os ativistas a boicotar as viagens da Birthright.

Quando a ONG foi criada, nos anos 1990, poucos estavam interessados na discussão do conflito cujo fim supunham iminente, disse Brian Lurie, um rabino que costuma falar contra a ocupação, e está ligado à Birthright desde o começo.

À medida que o conflito se estendeu, contou, a Birthright teve de se defrontar com a necessidade de discutir a questão. A organização, então, atualizou o currículo de maneira a incluir um maior contato com os árabes-israelenses e uma conferência sobre geopolítica.

No entanto, segundo os ativistas, a nova programação não é suficientemente ousada. No final do ano, a J Street U, organização liberal judia com 60 afiliadas em campus universitários americanos, fez circular uma série de petições pedindo que a Birthright incluísse pelo menos um orador palestino para falar sobre a ocupação. Por outro lado, a J Street U também criou sua própria viagem alternativa gratuita a Israel, que levará estudantes para conhecerem palestinos e colonos israelenses. Segundo os organizadores, ela pretende ser um modelo de mudança para a Birthright.

O rabino Lurie explicou que tem discutido tanto com a IfNotNow quanto com a J Street U a respeito de seus protestos. "Se o seu objetivo é aprimorar a Birthright, estou com vocês. Mas se o seu objetivo é destruir a Birthright, vou estar totalmente contra vocês", disse.

Charles Bronfman, um dos fundadores da Birthright, afirmou que compreende o desejo dos jovens judeus de saber como os palestinos veem o conflito. "Não vou dizer que eles não têm razão. Mas não é esta a função da Birthright".

"Se eles tiverem algo para nos ensinar, vamos conversar", ele disse sobre a iniciativa da J Street U. "Talvez nós tenhamos algo para ensinar a eles". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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