Tomas Munita para The New York Times
Tomas Munita para The New York Times

ONU acusa líderes de Mianmar de genocídio

Um ano depois do massacre dos rohingyas, poucos foram responsabilizados

Hannah Beech, The New York Times

30 Agosto 2018 | 15h00

MYIN HLUT, MIANMAR - Na véspera do aniversário de uma campanha de limpeza étnica promovida pelos militares contra os muçulmanos rohingya, o comandante em chefe da nação, general Min Aung Hlaing, esteve na Rússia em uma expedição para a compra de armamentos.

Há um ano, mais de 700 mil rohingyas iniciaram sua fuga de Mianmar para o vizinho Bangladesh, depois de uma impressionante onda de massacres, estupros e incêndios por obra de soldados e de multidões budistas - atos de violência que foram amplamente documentados.

Entretanto, desde então, o general Min Aung Hlaing e outros líderes de Mianmar mantêm uma campanha de desmentidos e de atitudes esquivas, enquanto prendem e intimidam os repórteres que documentaram os ataques.

No dia 21 de agosto, Daw Aung San Suu Kyi, a governante civil de fato do país, pronunciou um discurso em Cingapura em que não mencionou o derramamento de sangue das forças armadas da nação. Acredita-se que milhares de rohingya tenham sido mortos no estado setentrional de Rakhine. Mas Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz, culpou "atividades terroristas como a causa primeira dos acontecimentos que levaram à crise humanitária em Rakhine".

No dia 25 de agosto de 2017, militantes rohingya realizaram greves nos postos de polícia e em um quartel do exército no estado e mataram dez soldados das forças de segurança. Os militares de Mianmar, conhecidos como Tatmadaw, afirmam que suas ações foram "operações de limpeza", sim, em resposta aos ataques dos rohingyas.

Mas grupos dos direitos humanos documentaram que os militares enviaram caminhões de soldados para Rakhine nas semanas anteriores à greve dos insurgentes, em dia 25 de agosto.

Estados Unidos, Canadá e a União Europeia impuseram sanções específicas aos militares de Mianmar que teriam dirigido sua violência contra os rohiangyas, uma minoria sem pátria, no ano passado. Entretanto, o general Min Aung Hlaing e outras altas patentes do exército foram poupados.

No dia 27 de agosto deste ano, a Comissão de Inquérito da ONU sobre Mianmar concluiu que seis generais, entre eles Min Aung Hlaing, deveriam ser levados perante um tribunal internacional por genocídio contra os muçulmanos rohingya e por crimes contra a humanidade em relação a outras minorias étnicas.

O relatório da comissão detalha que as campanhas militares, "sem sombra de dúvida, constituem os mais graves crimes que ferem as leis internacionais". Eles descreveram as operações contra os rohingyas como "uma catástrofe previsível e planejada" que foi se preparando ao longo de dezenas de anos de opressão dos muçulmanos desta minoria.

O chefe da comissão, Marzuki Darusman, ex-procurador geral da Indonésia, disse que os relatos de atrocidades colhidos junto às vítimas e testemunhas oculares "deixarão uma marca em todos nós pelo resto de nossas vidas".

Mianmar não é signatária do tratado que estabelece o Tribunal Criminal Internacional, mas o Conselho de Segurança tem o poder de começar o processo judicial. Contudo, China e Rússia, dois membros permanentes do organismo da ONU, frequentemente protegem Mianmar da condenação formal. Mianmar adquire equipamento militar de ambos os países. A China investiu consideravelmente nos recursos naturais de Mianmar, particularmente em áreas onde vivem minorias étnicas, como o estado de Rakhine.

Em parte, as ações em Mianmar chamaram a atenção porque aldeias rohingyas foram completamente arrasadas, como para tentar apagar a história.

Em uma recente visita de jornalistas do New York Times a Myin Hlut, aldeia do estado de Rakhine, a vegetação cobria o lugar onde antes surgiam habitações e trepadeiras se enrolavam em postes de concreto e cobriam as fundações chamuscadas das casas. Ao lado da estrada havia coqueiros queimados e os esqueletos de mesquitas incendiadas.

Zahidullah Rahim, um rohingya da aldeia, é hoje um refugiado que definha em um campo em Bangladesh. Ele disse que antigamente esperava tornar-se advogado para ajudar a representar seu povo. Agora, ele luta com a ideia de que a casa que outrora conhecia foi destruída pelas autoridades de Mianmar em um ato documentado por imagens do satélite.

"Tudo desapareceu, até os meus sonhos", disse.

Mianmar tem um dos maiores exércitos do Sudeste Asiático. Uma junta militar governou o país por cerca de meio século e colocou Aung San Suu Kyi em prisão domiciliar por 15 anos.

O atual governo, composto por uma liderança híbrida civil e militar, formou cerca de seis comissões para investigar a violência no estado de Rakhine. Mas com exceção de um caso específico e alguns tiros ou evacuações, nenhum indivíduo foi responsabilizado.

Aquele caso, o massacre de dez homens da etnia rohingya na aldeia de Inn Din, foi documentado pela Reuters. Sete soldados que participaram das execuções foram condenados a dez anos de prisão. Em abril, uma rede de televisão de Mianmar anunciou em seu site que os homens haviam sido soltos antes que a notícia fosse abruptamente retirada do site. / Nick Cummings-Bruce e Saw Nang contribuíram para a reportagem.

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