Nicole Rivelli
Nicole Rivelli

Ópera no cinema alcança nova nota: a música como força vital

Aprofundando a relação entre música e a sétima arte

Michael Cooper, The New York Times

27 Setembro 2018 | 10h00

A música clássica, muitas vezes, pode se depreciar nos filmes. Quando ouvimos Mozart em um filme de James Bond, é possível que o vilão esteja alimentando tubarões com os seus inimigos. Wagner é o comentário sonoro da violência. Bach? Música de fundo para uma refeição de Hannibal Lecter.

Em um vídeo intitulado “Villains Love Classical Music: The Supercut”, a revista “Slate” certa vez mostrou que a tendência remonta ao menino assassino interpretado por Peter Lorre, que assobia Grieg no filme de Fritz Lang, de 1931, “M.” A opera, que leva paixões ferozes às suas conclusões lógicas, sexo e assassinato, não está alheia a este fenômeno.

As mortes por vingança em “O Poderoso Chefão: Parte III” têm como música de fundo a “Cavalleria Rusticana”. Em “Os Intocáveis’, Sean Connery, com o corpo crivado de balas, luta pela vida enquanto o Al Capone de Roberto De Niro se delicia com “I Pagliacci”.

Por isso, o novo filme “Bel Canto” - adaptação do romance de grande sucesso escrito por Ann Patchett, de 2001, com o mesmo título, estrelado por Julianne Moore no papel de uma diva americana sequestrada e feita refém na América do Sul - representa uma feliz possibilidade para a ópera retornar às telas em chave diferente.

“Bel Canto” não usa a ópera para comentar ironicamente o derramamento de sangue, ou destacar uma depravação sinistra, ou fornecer o equivalente sonoro de uma caixa de chocolates em formato de coração em pleno romance. Mesclando os elementos do thriller e do drama romântico, “Bel Canto” não é exatamente um filme sobre ópera. Mas usa a música como personagem e catalizador, uma força vital que funde artista e fã, refém e guerrilheiros, plutocrata e revolucionário.

“Ele fala do poder da arte na humanização das pessoas”, disse a soprano Renée Fleming, que gravou as árias de Dvorak e Puccini dubladas por Julienne Moore no filme.

Patchett disse que enquanto escrevia o romance e criava o personagem de Roxane Coss, a diva, se inspirou ouvindo as gravações de Renée Fleming.

É a beleza daquela voz que põe o enredo em movimento. Esta é a chave que nos permite compreender a obsessão que move o super fã interpretado por Ken Watanabe, o industrial japonês que viaja para um país não identificado da América do Sul para ouvir a sua diva favorita cantar em uma festa particular. 

Quando os guerrilheiros sequestram a diva, o fã e alguns convidados, e os levam como reféns em um incidente inspirado livremente pela crise dos reféns do Peru, em 1996, a beleza daquela voz torna-se um dos elementos que aproximam ainda mais sequestrados a sequestradores.

Não há a menor semelhança com a maneira como Hollywood costuma utilizar a música. O pianista Jeremy Denk, aclamado intérprete das “Variações Goldberg” de Bach, certa vez escreveu para a rádio estatal americana sobre a utilização de Bach em “O silêncio dos inocentes”, que acompanha a cena do canibalismo de Hannibal Lecter. Foi “certamente uma das melhores cenas de trituração de uma face que eu poderia imaginar”, escreveu cruamente Denk, definindo este uso da música uma verdadeira exploração.

A realização de “Bel Canto” em uma era em que predomina a ironia representou uma pausa para o seu diretor, Paul Weitz, com o irmão Chris. “O filme é romântico e trágico em um sentido completamente fora de compasso  com toda a ironia que geralmente acompanha temas sérios nas histórias atuais”, ele disse. “O que eu pude perceber, foi que todo o enredo do filme é essencialmente operístico”.

Renée Fleming afirmou que os filmes permitem que o público se familiarize com um tipo de música que talvez não conheça - desde Diana Ross cantando Billie Holiday em “Lady sings the Blues” ao ragtime de  Scott Joplin em “Golpe de mestre”.

“Para a ópera, em particular, isto é realmente ótimo”, afirmou. “As pessoas lembram da sua beleza, e também como pode ser épica”.

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