ENO Breathe, via English National Opera e Imperial College Healthcare NHS Trust/The New York Times
ENO Breathe, via English National Opera e Imperial College Healthcare NHS Trust/The New York Times

Cantores de ópera ajudam pacientes de covid-19 a reaprender a respirar

Um programa de seis semanas desenvolvido pela English National Opera e um hospital de Londres oferece aulas de canto personalizadas para ajudar na recuperação do coronavírus

Andrew Dickson, The New York Times – Life/Style

25 de fevereiro de 2021 | 05h00

LONDRES – Recentemente, a professora de canto Suzi Zumpe estava dando uma sessão de aquecimento a um estudante. Inicialmente, ela endireitou a espinha dorsal e encheu o peito; então passou para uma série de exercícios de respiração, expelindo o ar em golpes breves e fortes. Depois começou a usar a sua voz, produzindo um "hum" sonoro que começou alto quase como um guincho, antes de descer a um baixo profundo; e recomeçou lá no alto. Finalmente, pôs a língua para fora, como em uma careta de nojo: um exercício para os músculos faciais.

O estudante, Wayne Cameron repetiu tudo, ponto por ponto. “Bom, Wayne, bom”, disse Suzi em tom de aprovação. “Mas acho que você pode mostrar ainda mais a língua naquele último pedaço”.

Embora a aula fosse via Zoom, se parecia com as que Suzi costuma dar na Royal Academy of Music, ou Garsington Opera, onde treina jovens cantores.

Mas Cameron, 56 anos, não é cantor, ele administra a logística dos depósitos de uma companhia de material de escritório. A sessão foi receitada pelos médicos como parte do seu plano de recuperação, após uma experiência massacrante com a covid-19, em março de 2020.

Chamado E.N.O. Breathe e criado pela English National Opera em colaboração com um hospital de Londres, o programa de seis semanas oferece aos pacientes aulas de emissão de voz personalizadas: exercícios de recuperação clinicamente comprovada, mas reformuladas por professores de canto profissionais, e ministrado on-line.

Se foram poucas as organizações culturais que puderam escapar do drama da pandemia, as companhias operísticas foram particularmente atingidas. Na Grã-Bretanha, muitas não puderam apresentar-se diante de um público ao vivo por quase um ano. Enquanto alguns teatros e salas de concertos conseguiram reabrir para espetáculos observando o distanciamento social entre um lockdown e outro, muitas produtoras de ópera simplesmente apagaram as luzes.

Mas a English National Opera, uma das duas companhias mais importantes da Grã-Bretanha, está tentando redirecionar as suas energias. No início, a sua equipe de educação intensificou as atividades, e o departamento de figurinos produziu equipamento de proteção para hospitais durante o primeiro lockdown nacional. Em setembro, a companhia ofereceu “uma experiência de ópera em drive-in”, apresentando uma versão sintetizada de La Bohème de Puccini sobre amplos telões em um parque de Londres. No mesmo mês, começou a pôr em prática o programa médico.

Em uma entrevista em vídeo, Jenny Mollica, encarregada do trabalho de divulgação da English National Opera, explicou que a ideia começou a ser desenvolvida em meados do ano passado, quando começaram a aparecer casos “prolongados de covid”: pessoas que se recuperam da fase aguda da doença, mas que sofrem com os efeitos como dor no peito, fadiga, confusão mental ou falta de ar.

“A ópera se baseia na respiração,” disse Jenny Mollica. “Esta é a nossa experiência. Então pensei: Talvez a E.N.O. tenha algo a oferecer”.

Experimentalmente, entrou em contato com Sarah Elkin, especialista em respiração de uma das maiores redes hospitalares públicas do país, o Imperial College NHS Trust. Acontece que Elkin e sua equipe também estavam quebrando a cabeça tentando pensar em como tratar estes pacientes a longo prazo.

“A falta de ar pode ser um problema grave”, explicou em uma entrevista, observando que existem poucos tratamentos para a covid e que as sequelas da doença ainda são pouco conhecidas. “Quando você verifica as possibilidades com os tratamentos à base de medicamentos, conclui que não tem grande coisa para oferecer às pessoas”.

Ela contou que cantava jazz, e que achava que o treinamento vocal poderia ajudar. “Por que não?”, disse.

De início, foram recrutados doze pacientes. Depois de falarem individualmente com um especialista da voz para contar sua experiência pessoal com a covid-19, eles participaram de sessões de grupo semanais realizadas on-line . Suzi Zumpe começou com elementos básicos como a postura e o controle do fôlego antes de ensinar aos participantes a dar curtas explosões de canto, testando-os na classe e encorajando-os a praticar em casa.

O objetivo era encorajá-los a usar ao máximo sua capacidade pulmonar, danificada pela doença, em alguns casos, mas também para ensiná-los a respirar com calma e a controlar a ansiedade – um problema para muitas pessoas que tentam se recuperar de uma covid prolongada.

Quando perguntaram a Cameron se queria participar, ele ficou pasmo: “Pensei: Será que vou ser o próximo Pavarotti?”

Mas a covid-19 o deixou com a sensação de ter levado uma surra. Depois que saiu do hospital, ele teve que voltar várias vezes para a sala de emergência, e os médicos lhe recomendaram meses de tratamento contra coágulos e problemas respiratórios. “Fiz tudo, mas continuava lutando para respirar”, disse.

Alguns simples exercícios de respiração logo fizeram uma enorme diferença. “O programa ajuda mesmo”, contou. “Fisicamente, mentalmente, em termos de ansiedade”.

E como Cameron canta agora? Ele riu. “Sou mais afinado”, disse. O programa o ajudou a alcançar notas altas quando canta sozinho no carro, acrescentou. “Como aprendi a técnica, posso me arranjar bem melhor”.

Elkin contou que outros participantes também reportaram efeitos positivos, e ela encomendou um teste aleatório para aprofundar a compreensão clínica, principalmente porque ajudaria a convencer os colegas mais céticos a respeito de terapias complementares e das chamadas prescrições sociais.

Algumas pessoas  acham que é uma coisa um pouco sentimentaloide”, ela disse. “Elas querem evidências”.

Entretanto, o programa está se expandindo para as clínicas de pós-covid na Inglaterra, com o respaldo de doações de caridade, e também gratuitamente para pessoas indicadas por um médico. O objetivo é cuidar de mil pessoas na próxima fase, disse a companhia de ópera em um documento.

Não foram apenas os pacientes e os clínicos que se beneficiaram, segundo Jenny Mollica; ela observou que o E.N.O. Breathe deu também aos músicos e aos produtores da companhia algo para se concentrarem durante este período sombrio. “Todos acham que se trata de algo que realmente motiva,” afirmou. “É fantástico perceber que esta habilidade que nós temos é útil”.

Embora Cameron não tenha recuperado plenamente a saúde, ele contou que recentemente fez uma guerra de bolas de neve com a filha, um grau de esforço físico que teria sido impensável meses atrás. “Hoje eu me sinto muito mais confiante”, declarou. “Aquele sentimento de tristeza desapareceu”.

E acrescentou que o programa teve também um efeito imensamente valioso: ele o ensinou a respirar. “Até a covid eu achava que respirar não era nada demais”, explicou. “Mas de certo modo, é uma bênção”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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