Sara Krulwich The New York Times
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O que a ópera pode nos ensinar a respeito da morte

Na ópera, a morte é uma arte - que pode iluminar o caminho para uma conversa mais consciente sobre o fim da vida

Corinna da Fonseca-Wollheim, The New York Times - Life/Style

07 de setembro de 2020 | 05h00

Dois anos atrás, ouvi a meio-soprano Joyce DiDonato cantar o grande lamento final de Dido e Eneias (Henry Purcell) em Hamburgo, Alemanha. Esse texto é composto por apenas duas frases: “Quando eu for depositado na terra, que meus equívocos não aflijam teu peito. Lembrai-me, mas ah! esqueça meu destino".

Purcell sobrepõe os versos a um baixo constante e solene, com um vocal que começa hesitante. Com o “Lembrai-me", a música se torna cada vez mais confiante e apaixonada, até interromper-se com o “ah", e a melodia se recolher em um suspiro. Joyce soube imprimir vivamente esse misto de determinação e medo — a postura ereta imóvel, exceto por momentos em que ela oscilava como se sofresse de uma vertigem.

A ária ainda ecoava no meus ossos no dia seguinte, quando visitei meu pai no asilo no subúrbio da cidade. Faz anos que ele quase não sai da cama e desenvolveu demência em estágio avançado, incapaz de andar ou se expressar com palavras e gestos. Sentada com a mão dele na minha, vi-me pensando na Dido de Purcell sob nova luz — uma mistura de pena e inveja. Fiquei impressionada com a clareza e a determinação da despedida dela diante da vida, a eloquência com que moldou aquelas que sabia serem suas últimas palavras. Em comparação com o desfecho mudo e confuso do mal de Alzheimer, a morte de Dido — como a de tantos personagens na ópera — parecia de uma lucidez preciosa.

Sei que as árias finais dos personagens nas óperas têm sido um alvo fácil para a ridicularização. Cenas em que um personagem morre e canta longamente a respeito disso são divertidas de parodiar, e contribuem para a sensação de artificialidade que pode afastar os menos acostumados a essa forma de arte. E as críticas feministas apontam com razão que a profusão de cenas em que morrem personagens femininas consolida as normas do patriarcado ao ritualizar a destruição de mulheres excepcionais.

Mas, nos meses mais recentes, meus pensamentos têm voltado àquilo que a ópera pode nos ensinar a respeito da morte. Enquanto sociedade, geralmente evitamos falar na morte e no eventual significado de deixar a vida com algum protagonismo e graça (há exceções, como a iniciativa Let’s Reimagine, que busca enriquecer o debate a respeito de questões ligadas ao fim da vida).

Esse ano nos obrigou a contemplar vítimas do coronavírus que morreram em estéril isolamento, silenciadas pelos respiradores. Obrigou-nos a assistir os últimos momentos de vida de um homem sufocado pelo joelho de um policial. Talvez mais do que nunca, a capacidade de formular e anunciar uma mensagem de despedida parece um privilégio. Na ópera, é também uma arte, que pode iluminar o rumo de um debate mais consciente a respeito do fim da vida.

Longe de nos alienar, o artifício ajuda a nos atrair. A ópera tem o poder de condensar a vida e mostrá-la em detalhe. Processos de transformação demorados e bagunçados na natureza são concentrados em cenas (relativamente) compactas. Mas, ao mesmo tempo, o fluxo de efeitos psicológicos e pensamentos que essas experiências despertam em nós — na realidade, frequentemente efêmeras e pouco examinadas — é mostrado lentamente, ampliado pela música.

“Há uma espécie de distanciamento conferido pela beleza, e um outro tipo de proximidade", disse em entrevista o contratenor Anthony Roth Costanzo. “É como se nos aproximássemos dos sentimentos, mas, ao mesmo tempo, como se os enxergássemos através de uma lente.”

Quando figuras políticas morrem na ópera, como Boris Godunov, de Modest Mussorgsky, suas árias finais são testamentos elaborados que encerram disputas, promulgam ordens derradeiras e vinculam suas tramas pessoais ao arco maior da história. Esses personagens avaliam seu impacto na sociedade, o papel que desempenharam na história, seu legado. Monólogos finais como o de Brünnhilde ao fim do Anel de Richard Wagner, antes de cavalgar rumo a uma pira funerária para se juntar a Siegfried na morte, são tão abrangentes porque encerram múltiplas tramas.

Mas até esses grandes testamentos cerebrais e loquazes se resumem a uma questão: o tirano pede perdão; o amor vence a maldição. É esse foco que parece verossímil, independentemente da pompa e da estilização. Uma das cenas mais tocantes da ópera é o fim de La Bohème (Giacomo Puccini), quando os amantes se reúnem minutos antes de Mimì sucumbir. Ela percebe que lhe resta pouco tempo. “Há tantas coisas que quero lhe dizer", canta ela, “ou, na verdade, apenas uma, vasta e profunda e infinita como o oceano: você é o amor da minha vida".

O musicólogo e regente Will Crutchfield destacou que uma morte como a de Mimì — gratuita e comum, decorrente de uma doença qualquer — era novidade para a ópera do século 19. Em eras anteriores, a ópera era mais fiel às regras da tragédia clássica, na qual a morte prematura é provocada pelo trágico defeito do personagem. O Iluminismo trouxe óperas nas quais a morte é um castigo para os maus, como em Don Giovanni. Em ambos os casos, a empatia do ouvinte em relação ao moribundo é ditada pela moralidade.

Em obras como La Bohème e La Traviata (Giuseppe Verdi), por outro lado, a ópera apresenta a morte “quase da maneira aleatória com que ela ocorre na vida, sem discriminar muito entre os merecedores e os inocentes", disse Crutchfield, destacando que muitos frequentadores da ópera do século 19 teriam perdido entes queridos para doenças parecidas. Com isso, o ouvinte era convidado a se identificar mais tanto com a vítima quanto com aqueles que ficam para trás.

“Acho que é algo que evoca no público uma idealização não somente de como eles vão enfrentar a morte, mas também como enfrentarão o luto", disse Crutchfield.

Os compositores de ópera conferem a seus personagens uma clareza e eloquência inspiradora e educativa, seja para amaldiçoarem seu destino ou entregar-se a ele. Os estágios imitados pelos personagens da ópera podem ser um modelo útil para uma saída consciente da vida: a ideia de um legado pessoal dentro de um contexto social; a formulação de uma única mensagem emotiva destinada a outro ser humano, uma dádiva; e, finalmente, uma reconciliação com a morte, levantando a âncora que nos prende à vida.

Essas lições são mais explícitas em obras religiosas como as cantatas de Johann Sebastian Bach. E canções de arte como “Ich bin der Welt abhanden gekommen” (Gustav Mahler) são objetos de contemplação maravilhosamente compactos. Mas, com sua combinação de drama vivo e expansividade, a ópera nos permite vestir temporariamente a experiência da morte.

“Graças à nossa vivência de grandes momentos, como um nascimento ou uma paixão, sabemos que eles podem parecer escorregadios e rápidos, e pode demorar para que consigamos compreendê-los", disse Costanzo, o contratenor. “A ópera nos dá uma forma de olhar para esses momentos através de uma maravilhosa lente estética, por meio da qual confrontamos aquilo que nos dá significado.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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