Victor Moriyama / The New York Times
Victor Moriyama / The New York Times
Ernesto Londoño, The New York Times

03 de abril de 2020 | 06h00

MAR DEL PLATA, Argentina - Virou uma coisa insuportavelmente dissonante. Em 2014, María Castillo de Lima, cantora da principal casa de ópera da Argentina, havia transformado o que começara como uma personagem drag em identidade permanente.

Mas, no palco do Teatro Colón, em Buenos Aires, onde ela detém um cobiçado papel no coral permanente, esperava-se que Castillo continuasse alcançando as notas da escala de tenor, posto para o qual ela fizera a audição em 2010.

“Eu ainda era tenor, o que gerava uma certa angústia, porque tinha que ensaiar junto com os homens”, disse Castillo. “Como eu era mulher, no papel e na realidade, isso criou uma contradição”.

Embora as pessoas trans da Argentina tenham amplas proteções legais desde 2012, não havia precedentes no Teatro Colón.

“Houve uma certa resistência”, disse María Victoria Alcaráz, diretora do teatro.

Para que o teatro cedesse, foram necessários anos de treinamento, um alcance vocal extraordinário e uma performance espetacular que turbinou a carreira de Castillo - transformando uma talentosa cantora lírica em verdadeira estrela.

O passado de Castillo, 34 anos, parece improvável para uma estrela de ópera. Mas ela perseguiu seu sonho desde tenra idade.

Ela nasceu numa pequena cidade nos arredores de São Paulo, de uma mãe brasileira que ganhava a vida limpando casas de pessoas ricas e um pai argentino que trabalhava na construção civil. Durante sua infância, a família ficou passando de um país a outro em busca de trabalho.

“Foi uma infância dura, mas nunca me faltou nada”, disse Castillo, a mais velha de três irmãos.

Castillo seguiu obstinadamente a carreira na música. Aos 14 anos, matriculou-se no Conservatório de Música Gilardo Gilardi, em La Plata, Argentina, perto de Buenos Aires.

Em 2008, aos 22 anos, tornou-se tenor do coro permanente do Teatro Argentino de La Plata, uma respeitada casa de ópera.

Dois anos depois, ingressou no coro permanente no Teatro Colón, superando centenas de candidatos.

Mas, quando ela se estabeleceu em Buenos Aires, parecia estar faltando alguma coisa.

Ela a encontrou numa noite de 2011, no Cultural Mousetrap, um teatro alternativo onde fez sua estreia como drag, atuando como Maria Vkallasova, uma diva russa.

Traços de Maria Vkallasova, que tinha uma personalidade impetuosa e brincalhona, começaram a se infiltrar na vida de Castillo fora dos palcos.

Em 2014, Castillo mudou a indicação de gênero em seus documentos oficiais. Mas não se submeteu à terapia hormonal, temendo que isso pudesse alterar sua voz.

Em março do ano passado, ela participou de um concurso internacional de canto na província de Mendoza - uma grande oportunidade para mostrar até onde tinha chegado. Entre os juízes estava María Victoria Alcaráz. A diretora ficou deslumbrada e chocada.

“Foi a primeira vez em que a ouvi como soprano”, disse Alcaráz. “Senti uma certa culpa por não ter feito alguma coisa antes”.

Recentemente, Castillo interpretou o papel masculino numa música famosa de La Traviata e, em seguida, assumiu perfeitamente o papel feminino - uma mudança que deixou o público impressionado.

Castillo disse que a experiência de viver tanto como homem quanto como mulher continuaria ensinando muito a ela.

“A experiência me deu uma visão de 360 graus das sensações que nós, como seres humanos, vivenciamos”, disse ela. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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