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Empresa egípcia iniciou operação secreta de influência no Oriente Médio

Companhia pagou a novos recrutas para escreverem mensagens favoráveis aos militares utilizando falsas contas no Facebook, Twitter, Instagram e Telegram

Declan Walsh e Nada Rashwan, The New York Times

12 de setembro de 2019 | 06h00

CAIRO - Dias depois de soldados sudaneses massacrarem manifestantes em favor da democracia em Cartum, em junho, uma companhia de marketing digital do Cairo começou a colocar combatentes diante do teclado em uma segunda frente: uma operação secreta para elogiar os militares do Sudão nas redes sociais.

A empresa egípcia, dirigida por um ex-oficial militar que se define especialista em “guerra pela internet”, pagou a novos recrutas US$180 por mês para escreverem mensagens favoráveis aos militares utilizando falsas contas no Facebook, Twitter, Instagram e Telegram. Os instrutores forneciam hashtgs e temas de discussão.

Desde a deposição do presidente Omar Hassan al-Bashir, em abril, eles informaram aos novos funcionários, os manifestantes espalharam o caos no Sudão. “Estamos em guerra”, afirmou um instrutor aos recrutas. “A segurança é fraca. Por enquanto, o exército precisa governar”.

Campanhas de influência encobertas, destinadas a influenciar a opinião pública, tornaram-se o instrumento favorito de líderes de países como China e Rússia. No Oriente Médio, estas campanhas estão sendo coordenadas no exterior, na tentativa de promover um governo autoritário e apagar a lembrança dos protestos populares que deram origem à Primavera Árabe, em 2011.

A iniciativa secreta egípcia com o objetivo de apoiar os militares do Sudão pela mídia social, no verão, lançada pela companhia New Waves, no Cairo, foi apenas um aspecto de uma operação muito maior que visava cidadãos de pelo menos nove países do Oriente Médio e do norte da África, segundo o Facebook.

Em agosto, o Facebook anunciou o fechamento de centenas de contas da New Waves e de uma companhia dos Emirados Árabes Unidos, a Newave. As duas empresas usaram dinheiro e métodos fraudulentos para atrair uma audiência de quase 14 milhões de seguidores do Facebook, e milhares no Instagram. 

Um porta-voz do Facebook informou que a companhia  não encontrou provas suficientes que ligassem a operação aos governos do Egito ou dos Emirados Árabes Unidos. O proprietário da New Waves, Amr Hussein, é um militar egípcio na reserva desde 2001, que se define “pesquisador de guerras de internet”. Ele apoia o líder autoritário do Egito, Abdel Fattah el-Sisi.

Respondendo às acusações do Facebook, Hussein negou qualquer vínculo com os Emirados. “Não sei do que vocês estão” falando, escreveu em uma mensagem de texto. As mensagens na mídia social promoveram o chefe militar líbio Khalifa Hifter, elogiaram os Emirados Árabes Unidos e criticaram o estado do Catar, no Golfo Pérsico. Outras falaram da guerra liderada pelos sauditas no Iêmen.

Os recrutas da operação da New Waves foram informados de que a sua função era estabelecer um “equilíbrio” entre os militares e os manifestantes na mídia social, segundo quatro pessoas a par das ações da empresa. Um treinador disse: “No passado, as guerras eram travadas com armas. Agora, é através das redes sociais”.

Desde os primeiros protestos contra al-Bashir, em dezembro, os líderes do movimento vêm usando a internet para mobilizar os manifestantes e driblar a censura. No prazo de poucas horas após o massacre em Cartum, o primeiro ato dos militares foi fechar a internet no país. Depois, lançaram mão da mídia social para abrandar a propria imagem.

Contas do General Mohamed Hamdan e da unidade paramilitar das Forças de Apoio Rápido enfatizaram que o general reivindicava salários mais altos para os professores. Ativistas sudaneses pediram ao Facebook que fechasse estas contas. O Facebook se negou a tomar qualquer medida porque as Forças de Apoio Rápido haviam se tornado um “ator estatal”, disse um assessor de imprensa do Facebook. O general Hamdan agora é uma figura central do governo cujo poder é compartilhado.

A operação New Waves assemelha-se à estratégia adotada pelo Estado egípcio para controlar o debate online. No governo de el-Sisi, o Egito bloqueou mais de 500 sites e adotou leis que criminalizam as críticas ao governo nas mídias sociais. Executivos da New Waves e de sua companhia irmã nos Emirados esforçaram-se por ocultar  seu papel na campanha para influenciar a opinião pública no Oriente Médio, disse o Facebook. Eles conseguiram 361 contas falsas para administrar páginas do Facebook que supostamente seriam novos sites sobre nove países, como Sudão, Somália, Kuwait e Líbia.

As páginas publicavam frequentemente mensagens sobre notícias reais entremeadas por notícias falsas que acompanhavam um tema comum. A página Sudan Alyoum (Sudão Hoje), por exemplo, tinha um link com um site de notícias do mesmo nome que publicou 60 artigos de apoio à liderança do general Hamdan.

Em julho, Hussein afirmou que a New Waves tinha apenas um cliente, uma produção teatral estatal. Ele disse que tem falado sobre a mídia social, porque a sociedade do Oriente Médio é “especial”. “Falo dos perigos não apenas no Egito - mas em todo o nosso mundo”, disse. / Ben Decker contribuiu para a reportagem. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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