Paul Ellis/AFP
Paul Ellis/AFP

Opinião: 'Como o acampamento de tênis redefiniu minhas prioridades'

Jogar tênis em duplas com um urologista parisiense me ajudou a pensar em como colocar minha vida em ordem

Pamela Druckerman, The New York Times - Life/Style

17 de setembro de 2020 | 05h00

PARIS — Enquanto muitos americanos estavam presos em casa ou aprendendo a gostar de acampar, na França (e em outros lugares na Europa) tivemos um verão quase normal. No mês passado, eu até participei de um acampamento de tênis que durou uma semana no sudeste do país. Não foi exatamente o tipo de tênis como costumamos jogar. Usamos máscaras na sede do clube e nas quadras mantivemos o distanciamento social.

Mas sabíamos que tínhamos sorte em conseguir fazer uma pausa – que os franceses chamam de “parenthèse” – da pandemia. Foi um alívio nos concentrarmos nos nossos forehands (um tipo de jogada), em vez de ficar pensando se o coronavírus poderia estar nos nossos supermercados. Eu esperava que o tênis resolvesse um outro problema: como muitas mulheres, desde que surgiu a covid-19, fiquei de licença do trabalho e passava meus dias cozinhando e gritando por causa dos afazeres domésticos.

Minha mente e meu corpo se sentiam flácidos e não tinha a mínima ideia de como retornaria ao mundo do trabalho. Em meio a esses problemas existenciais, cheguei lá sem pensar muito numa questão de ordem mais prática: como meu corpo pouco exercitado e já na meia idade enfrentaria seis horas de tênis e exercícios diários? Foi um choque cultural imediato.

No final de uma aula de fitness, estava deitada de costas sobre uma bola gigantesca, com a treinadora insistindo para que eu levantasse novamente minha fesse (meu traseiro). “Não consigo mais, estou muito cansada”, disse, gemendo. Normalmente desisto no primeiro sinal de fadiga ou dor. “Aqui não tem nada de cansaço, vamos continuar”, ela berrou. Para minha surpresa, entrei num mundo onde você não pode simplesmente se queixar e se retirar. Meu grupo de tênis pela manhã estava repleto de jogadores ocasionais de fins de semana.

Tive tempo para aprender palavras como couloir (corredor de duplas) e le lift (bola com efeito). Mas além de mim, somente os jogadores mais radicais se inscreveram para os jogos à tarde. No final do dia, eu me vi na quadra com um urologista parisiense que golpeava a bola como se estivesse talhando uma próstata errante, e uma jovem de uns 20 anos, de Guadalupe, cujas raquetadas com a mão direita disparavam como balas.

Senti-me culpada deles terem de jogar comigo. Nossa professora, Nanette, uma holandesa com cerca de 50 anos observa meus esforços com benevolência. “Não se preocupe com potência, apenas golpeie a bola na sua frente”. No segundo dia, fomos enviados para uma sala de aula para um trabalho “mental” onde uma outra treinadora explicou que “no tênis, você tem a tendência a focar naquilo que fez errado” e então perde a confiança.

Para combater isto, ela disse, temos de desenvolver uma rotina para afastar os pensamentos negativos e reforçar os positivos. Por exemplo, cada vez que pegamos as bolas entre um ponto e outro, devemos nos lembrar de uma ou duas coisas que sabemos como fazer bem. Durante esses momentos, disse ela, não devemos pensar no placar ou se vamos vencer o jogo. Apenas vamos nos concentrar em fazer nosso melhor no momento presente.

“Se você tem metas específicas, realistas, durante o jogo, deve ficar feliz depois porque as alcançou. Mesmo se estiver perdendo, se sentiu no controle o tempo todo”. Além disto, “no tênis, você tem de aceitar que às vezes vai jogar mal”, disse ela, acrescentando algo que é óbvio, mas tranquilizador “Você sempre tem a chance de ganhar o ponto”.

Decido parar de pensar sobre coisas que não consigo controlar: por exemplo, que os outros são melhores e que podem ficar ressentidos por terem de jogar comigo. Em vez disto, digo a mim mesma para me concentrar em ficar totalmente presente em cada jogada e simplesmente jogar o melhor tênis que conseguir. Repentinamente minhas devoluções ficaram mais fortes e notei que mesmo a mulher do Guadalupe tinha suas fraquezas (uma delas é que, quando perdia um ponto para mim, ficava enfurecida).

Também fiquei impressionada como todo mundo trabalhava incansavelmente para melhorar as mesmas coisas e com o seu extremo esforço. Quando o urologista corria para a frente para alcançar uma bola curta, e depois a retornava com uma bola cruzada e ganhar o ponto, ele usava de uma força que é quase animal. E olhava gratificado e espantado. O tênis lançou para fora uma nova parte dele. Nanette me colocou ao lado dele num jogo de duplas.

Embora estivesse na rede, jogamos algumas partidas rápidas em que saltei na bola e fiz uma série de pontos para nosso lado. Crucialmente, não tive tempo para pensar no que estava acontecendo. Foi o momento mais revigorante que tive em meses. Estava com muito calor e cansada, mas sentia-me como se pudesse jogar indefinidamente. Nanette estava entusiasmada. “Quando você está realmente focada no jogo, não imagina como é boa, não está pensando em si mesma”, disse ela.

“E você é realmente americana”, disse ela, imitando meus voleios como se estivesse batendo numa porta. “Mesmo que não soubesse o que estava fazendo, você simplesmente ia para a frente”. “Minha filosofia é sempre trabalhar os seus pontos mais fortes, porque seus pontos fracos sempre serão mais fracos. Se você tem confiança, vai entender que está tudo bem com suas fraquezas”.

É como se ela estivesse descrevendo meus problemas fora da quadra também: fico obcecada com minhas limitações e erros, então me exaspero e desisto. Mas em vez disto, o que preciso é apenas continuar avançando, me concentrando em algumas coisas que sei como fazer. Há escritores melhores, mais inteligentes, mais jovens, por aí, tudo o que devo fazer é o meu melhor. O que quero dizer é que a partir daquele momento eu aterrorizei a jovem do Guadalupe com as bolas de efeito.

Estava melhorando, mas ela e os outros também. No quarto dia, minhas pernas estavam tão doloridas que mal podia me movimentar na quadra. Mas permaneci e continuei. No nosso último dia, o governo britânico informou que os residentes ingleses deveriam retornar rapidamente da França ou teriam de se submeter a uma quarentena obrigatória. Houve um aumento de novas infecções no país.

Vários britânicos que participavam do acampamento decidiram partir para pegar a balsa em Calais logo depois do almoço. Todos nós desfrutamos as últimas horas da nossa parenthèse antes de retornarmos para a pandemia. Voltei para Paris, onde agora estou tratando o que é seguramente uma tendinite. Vai demorar um tempo até retornar a um acampamento de tênis. Mas sem lamentos. Pela primeira vez em muito tempo, estou pronta para encarar qualquer coisa que surgir na minha frente”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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