Meridith Kohut para The New York Times
Meridith Kohut para The New York Times

Opositores da Nicarágua encontram refúgio na Costa Rica

Os exilados, no entanto, não planejam ficar no país e pretendem enfrentar o regime de Ortega

Frances Robles, The New York Times

16 de janeiro de 2019 | 06h00

O pátio está lotado de colchões e malas, roupas saindo pela tampa. Algumas mulheres preparam a comida ao ar livre, porque na cozinha da modesta habitação no interior da Costa Rica não seria possível fazer comida para 50 fugitivos. Esta casa é um refúgio secreto para opositores nicaraguenses. Embora o rancho se localize em uma fronteira internacional, os que vivem aqui se revezam à noite para fazer a guarda, preocupados com a presença de agentes da Nicarágua infiltrados.

A mulher que cuida do refúgio, codinome "Madrinha", olhou ao redor enquanto um compatriota rachava lenha para o fogo. "Pensamos em permanecer aqui temporariamente", ela disse. "Já estamos cansados. Queremos ir para casa".

O nome verdadeiro da Madrinha é Lisseth Valdivia. Ela tinha três lojas de confecções em Matagalpa, uma cidade ao norte da capital, Manágua. Com 39 anos e mãe de dois filhos, ela ganhava razoavelmente.

Então a vida de dezenas de milhares de nicaraguenses foi abalada em abril de 2018, quando primeiramente os idosos e depois os jovens saíram às ruas exigindo a saída do presidente, Daniel Ortega, e de sua esposa, a vice-presidente Rosario Murillo. Muitos consideram Ortega, que está no cargo desde 2007, cada vez mais ditatorial. Mas o que acabou levando os manifestantes a protestar foi a redução dos benefícios da previdência social. Segundo observadores de direitos humanos, a polícia e as multidões favoráveis ao governo reagiram com força brutal contra manifestantes desarmados.

Lisseth Valdivia passou dois meses prestando socorros aos manifestantes que interrompiam o trânsito com barreiras improvisadas. Ela aprendeu a usar bombas caseiras, embora, em geral, deixasse as armas para os homens.

Depois, um parente telefonou avisando: "Há cerca de 25 policiais na sua casa, estão destruindo tudo". Ela fugiu deixando, por segurança, o filho de 7 anos, com o pai, que está do lado do governo.

"Por enquanto, preciso ficar com meu povo”, disse, referindo-se aos fugitivos. "No futuro, quando a Nicarágua estiver livre, meu filho vai aproveitar disso". Lisseth agora vive com a filha adolescente e dezenas de pessoas que conheceu recentemente. Ela está encarregada de fazer a triagem dos recém-chegados, recusando quem já esteve na prisão, porque teme que tenha sido libertado para servir de informante.

Com centenas de milhares de pessoas nas ruas, muitos observadores achavam que Ortega - que já governou a Nicarágua ao longo da maior parte da década de 1980 - seria forçado a deixar o cargo. Mas sua reação brutal parece tê-lo consolidado no poder.

No entanto, os que fugiram tentam permanecer otimistas. "Não vamos nos render", disse Samuel A. Gutiérrez, 13, que sobreviveu a um ataque do governo em uma igreja, no qual morreram duas pessoas. Das 322 pessoas mortas desde o início do levante, 22 eram policiais e cerca de 50 filiadas ao Partido Sandinista, de esquerda, segundo uma organização nicaraguense dos direitos humanos que foi expulsa do país pelo governo.

Os manifestantes acreditam que, em consequência dos atos do governo, o número de mortos seja maior.

Em julho, a polícia nicaraguense demoliu mais de cem bloqueios nas ruas. O serviço secreto da polícia funcionou melhor do que a população previa, e vários ativistas foram presos em suas casas e em esconderijos. Pelo menos 565 pessoas continuam presas, algumas delas acusadas de assassinato e outras por atos que o governo define como terrorismo. Outras 23 mil fugiram para a Costa Rica.

Lisseth escondeu-se inicialmente nas montanhas da Nicarágua, e depois, em agosto, fugiu atravessando a fronteira, depois de um telefonema. "Vou ajudá-la a sair daí", disse a voz do outro lado da linha. Era Jorge Estrada, que fugira para a Costa Rica três anos antes, depois que o governo confiscou um conjunto habitacional que a sua empresa estava construindo. Ele ajudou 600 pessoas a sair, contou, e paga o aluguel de três casas usadas como esconderijos, inclusive esta. Os fugitivos o chamam o "Comando".

"A gente sabe o que acontece quando é presa: tortura e morte", disse Estrada. "Como podemos virar as costas para uma situação dessas?".

Um dia, em dezembro, Estrada parou em frente à casa com caixas de ovos. Ele contou que gasta US$ 200 por dia somente em comida. Todos o cercaram, ansiosos por alguma notícia. O presidente Donald J. Trump acabava de assinar o Nicaragua Investment Conditionality Act, que promete castigar a Nicarágua com sanções até a restauração do estado de direito.

"Se tudo isso que os Estados Unidos estão fazendo, toda essa pressão, não funcionar para Ortega reagir e sair, então teremos uma das guerras mais sangrentas que a Nicarágua jamais viu", disse Estrada. Isto é, somente se a oposição tiver armas. "Não há armas", lamentou.

"Os EUA virão depois que formos mortos", comentou Lisseth.

Segundo ela, se a ajuda internacional não se materializar, os nicaraguenses não estarão interessados no asilo político da Costa Rica.

"Quase todo mundo voltará, nem que seja somente com pedras na mão". / Alfonso Flores Bermúdez contribuiu com a reportagem.

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