George Tames/The New York Times
George Tames/The New York Times

Ordem pós-Segunda Guerra é atacada pelos países que a construíram

Há muitas para este processo, mas um elemento comum é a desconfiança da sociedade nas instituições e a sensação de que o povo foi abandonado

Peter S. Goodman, The New York Times

08 Abril 2018 | 10h00

LONDRES - Depois da Segunda Guerra Mundial, os países ocidentais vitoriosos criaram instituições - a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, e a Organização Mundial do Comércio, OMC - que visavam a paz mediante o poderio militar coletivo e a prosperidade comum. Estes organismos promoviam os ideais democráticos e o comércio com a ideia de que as coalizões seriam o antídoto para o nacionalismo destrutivo.

Mas agora, o modelo que dominou os assuntos geopolíticos por mais de 70 anos está sendo contestado por um recrudescimento do nacionalismo. Em lugar de estratégias comuns a todos para tratar de problemas que afetam toda a sociedade - desde as disputas comerciais, à segurança, às mudanças climáticas - os interesses nacionais passaram a predominar. 

“O que vimos é uma espécie de reação contrária à democracia liberal”, disse Amandine Crespy, cientista política da Universidade Livre de Bruxelas (ULB), na Bélgica. “As massas entendem que não foram devidamente representadas na democracia liberal”. 

A eleição do presidente Donald J. Trump é a mais poderosa manifestação da ira geral. Reivindicou um mandado para atacar o establishment global e suas instituições em nome da reafirmação da primazia americana. Introduziu a incerteza no compromisso dos EUA com a OTAN e definiu a OMC um “desastre”. Entretanto, Estados Unidos, Canadá e outras nações europeias expulsaram diplomatas russos em solidariedade à Grã-Bretanha no caso do envenenamento de um desertor russo em Londres, aumentando as esperanças de que as antigas alianças possam perdurar.

Mas os EUA não são a única potência que decidiu derrubar os fundamentos da ordem do pós-guerra. A Grã-Bretanha está abandonando a União Europeia, dando as costas ao projeto cuja existência é uma expressão de fé em que a integração pode desencorajar as hostilidades. A Itália acaba de promover dois partidos populistas com animosidades históricas em relação ao bloco. Polônia e Hungria tolheram a mídia, reprimiram violentamente reuniões públicas e atacaram a independência de seus sistemas judiciários. O renascimento de tais impulsos autoritários enfraquece os próprios objetivos fundamentais da política europeia desde o final a Guerra Fria. A expansão da Otan e da União europeia com a adesão de nações do Leste Europeu deveria levar os recém-chegados a adotar os valores democráticos de seus colegas membros. Mas não foi o que aconteceu.

A China vem usando seu poder econômico - ampliado por seu ingresso na OMC em 2001 - para reforçar a autoridade de um Estado ainda controlado pelo Partido Comunista. E a Rússia, que aderiu em 2012, intensificou uma política externa centrada no confronto.

“Estamos voltando à política das grandes potências”, afirmou Derek Shearer, ex-embaixador americano à Finlândia.

As causas deste processo variam, mas um elemento comum é a desconfiança da sociedade nas instituições e a sensação de que as massas foram abandonadas.

“Na Europa e nos Estados Unidos, é grande o número dos que não foram tão beneficiados pelo crescimento econômico global nas últimas décadas, e eles estão naturalmente céticos em relação aos líderes no governo e às suas políticas”, afirmou Douglas W. Elmendorf, reitor da John F. Kennedy School of Government da Universidade Harvard. “Mas a solução não é menosprezar a ordem liberal, e sim complementá-la com políticas de governo que permitam que os cidadãos compartilhem dos seus benefícios”.

Na Polônia, Hungria, Grã-Bretanha e Itália a desconfiança na União Europeia reflete a ira da sociedade por suas políticas liberais sobre a imigração, e sobre a entrada de pessoas procedentes de países muçulmanos. Nos Estados Unidos, Trump encontrou apoio entre os que estavam inclinados a culpar os imigrantes pelo desemprego, e os muçulmanos pelas ameaças à segurança.

Quando Trump desprezou a OMC em março e aplicou tarifas às importações chinesas pelo valor de cerca de US$ 60 bilhões, ele reiterou seu desdém pelo multilateralismo. Na Europa, além de se mostrar disposto a desrespeitar as normas do comércio, denunciou o acordo do clima de Paris e usou seu apoio ambíguo à Otan para forçar o questionamento sobre a confiabilidade dos EUA. As instituições criadas depois da Segunda Guerra Mundial nunca deixaram de ser criticadas. Mas se a justiça da ordem liberal mostrou-se controvertida, agora é sua permanência que está sendo questionada.

No início dos anos 1990, pouco depois que o Ocidente se declarou vitorioso na Guerra Fria, Francis Fukuyama, um cientista político da Universidade Stanford, na Califórnia, sugeria que o arranjo do poder global chegara ao  fim. 

“O que talvez estejamos testemunhando não é apenas o fim da Guerra Fria, ou a passagem de um período particular da história do pós-guerra, mas o fim da história”, ele escreveu em um livro que tem como título esta mesma frase. “Ou seja, o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como forma final do governo dos homens”.

Pensadores de todo o espectro ideológico criticaram energicamente Fukuyama por redigir o obituário prematuro da história. Mas no ano passado, Fukuyama sugeriu que talvez seja necessário um novo obituário - o da “ordem liberal mundial”. Mais de um ano após a posse de Trump, Fukuyama se declara ainda mais alarmado.

“O que vemos agora é realmente insidioso, porque brota das próprias democracias”, afirmou. “Não só nos Estados Unidos, mas também na Hungria, Turquia, Polônia e Rússia, onde há um líder eleito democraticamente que está tentando desmantelar os aspectos liberais da democracia liberal. Estamos vendo um novo tipo de ameaça que acredito jamais ter visto na minha vida”.

Como muitos cidadãos se sentem negligenciados, as instituições globais enfrentam dúvidas concretas.

A ascensão do nativismo põe em risco a ordem mundial do pós-guerra.

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