Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

Avós são repreendidas pela polícia por fazerem macarrão artesanal

Mulheres de Bari, na Itália, estão preocupadas com a recente repressão às vendas de massas comprometer seus meios de subsistência

Jason Horowitz, The New York Times

11 de dezembro de 2019 | 06h00

BARI, ITÁLIA - As avós se preparam cedo. Nas cozinhas do térreo, que se abrem diretamente para a rua, elas saem cantando músicas antigas, varrendo o chão de pedra e espalhando sua orecchiette caseira, a famosa massa em forma de orelha da cidade, nas bandejas de madeira e telas.

Enquanto a massa secava ao sol, Nunzia Caputo, 61 anos, continuou cozinhando com a mãe. Um morador da vizinhança apareceu para comprar um quilo, que Caputo pesou em uma balança à moda antiga. "Aqui a massa é sempre fresca", disse ela, em uma cozinha cheia de panelas fervendo com molho e sacos de farinha de sêmola. “Se ninguém compra o que preparamos, comemos tudo. E isso acontece - ela disse, apontando para a barriga".

As cozinheiras de orecchiette da via dell'Arco Basso, na cidade costeira de Bari, atraem turistas de navios de cruzeiro e contribuíram para a Lonely Planet nomear Bari como um dos 10 principais destinos da Europa. Mas as autoridades locais suspeitam que a rua das massas, na parte histórica da cidade, seja palco de um crime.

De acordo com o escritório do prefeito, em meados de outubro, os inspetores policiais autuaram um restaurante local por servir orecchiette não rastreável, uma violação dos regulamentos da Itália e da União Europeia. A polícia multou o dono do restaurante e o forçou a jogar três quilos de massa no lixo.

As reportagens de novembro ("Forte golpe contra a orecchiette artesanal em Bari", escreveu o jornal La Repubblica) imediatamente preocuparam as mulheres de Bari, que têm permissão para vender pequenos saquinhos de plástico de macarrão para uso pessoal, mas que não têm licença para entregar grandes quantidades e remessas sem rótulo para restaurantes. Para começar, as mulheres não ganham muito e temem ter que usar redes de cabelo, emitir recibos e pagar impostos. 

O prefeito, Antonio Decaro, prometeu resolver a situação. Enquanto isso não acontece, ele aparentemente aconselhou as avós a serem cautelosas. Uma senhora de 82 anos, que pediu para ser identificada apenas como Vittoria, disse: "Aqui todos estão com medo de que a polícia nos repreenda".

Vito Leccese, chefe de gabinete do prefeito, disse que o governo estava estudando a possibilidade de tornar a área uma zona de livre comércio e que não havia nada de errado em vender sem registro alguns quilos para o ocasional comprador de orecchiette. "Não machuca ninguém", disse ele.

A lei não parecia ser a principal preocupação dos moradores da cidade. Muitos argumentam que os regulamentos representam uma ameaça real. "Essas mulheres trabalham 10, 15 horas por dia, sete dias por semana para apoiar seus maridos e filhos desempregados", disse Francesco Amoruso, cuja mãe, uma das fabricantes de massas da rua, morreu no ano passado, aos 99 anos. "E é isso que eles querem reprimir?”

Michele Fanelli, defensora das tradições locais, que também oferece aulas para ensinar a preparar orecchiette, deu um passo à frente para defender as mulheres, argumentando que elas são os últimos vestígios de uma Bari desaparecida. "A globalização está ameaçando as tradições", alertou enquanto conversava com Caputo e sua mãe, Franca Fiore, 88 anos. "Temos que transmitir esses valores para a próxima geração", disse Caputo. "Eles devem nos ajudar a transmitir essa tradição, não a exterminá-la."

Mais tarde, quando as mulheres trouxeram o macarrão para as cozinhas, Diego De Meo, de 44 anos, dono do restaurante Moderat, esperava a hora do jantar. Ele disse que não sabia qual restaurante foi pego servindo orecchiette contrabandeada, mas que aquelas "orelhas de macarrão" irregulares e artesanais tinham "um pouco de mágica". E afirmou que tentar regular Bari era como tentar endireitar a Torre de Pisa.

"Às vezes, o irregular é o que torna as coisas bonitas", disse De Meo. Pressionado por uma dica sobre a identidade do restaurante autuado, ele fez uma pausa. "Fui eu", deixou escapar, acrescentando que alertou outros restaurantes; muitos dos quais, segundo ele, compram orecchiette das mulheres da rua das massas.

"Olha, está correto, é a lei", reconheceu, referindo-se à multa. Mas, embora seus negócios não tenham sido afetados, ele se sentiu mal pelas mulheres de Bari, que ele disse "estarem perplexas". E ele também ficou perplexo com a ação. Enquanto os policiais vasculhavam seu esconderijo de orecchiette e perguntavam sobre seu revendedor, ele se lembrou de olhá-los com espanto e perguntou: "Vocês não são de Bari?" / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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