George Etheredge para The New York Times
George Etheredge para The New York Times

Organistas celebram chegada de instrumentos a igrejas da Broadway

Os órgãos de duas igrejas sofreram danos em razão dos ataques do 11 de Setembro

James R. Oestreich, The New York Times

25 Março 2018 | 10h00

Segundo comenta Julian Wachner, tocar os órgãos da Igreja da Trindade em Wall Street, nos últimos anos, tem representado um risco para o corpo e para o espírito.

“É cansativo tocar aquela coisa”, disse Wachner, diretor de música e artes da igreja, referindo-se ao instrumento digital da Igreja da Trindade, na Lower Broadway. E acrescentou que o órgão de tubos Schlicker, que pertence há muito tempo à St. Paul’s Chapel, histórico satélite da Igreja da Trindade, a poucos quarteirões mais ao norte, é “tendinite na certa”.

Mas o Schlicker agora foi retirado, de acordo com o programa de reforma da capela para seu 250º aniversário, no ano passado. Construído em 1963 para a igreja de St.Paul em estilo propositalmente bachiano, o órgão foi substituído por um órgão de tubos Noack de 1989, mais versátil, que foi instalado no gabinete de 1802 da capela ampliada. O órgão foi adquirido e instalado a um custo de US$ 1 milhão.

No âmbito de outra reforma, a da própria Igreja da Trindade, o instrumento digital de 15 anos será substituído por um órgão de tubos de US$ 8 milhões que está sendo construído pela Rosales Organ Builders, que também produziu o aclamado órgão da Walt Disney Concert Hall de Los Angeles. O Rosales deverá ser instalado até abril de 2021.

A Igreja da Trindade passou a envolver-se mais com a vida do bairro de Lower Manhattan depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.

A Igreja de St.Paul, do outro lado do World Trade Center, sobreviveu à explosão sem danos estruturais significativos, mas tudo o que se encontrava em seu interior ficou coberto de pó, sujeira e escombros. Os danos se revelaram graves para o órgão Schlicker, com seus ornatos intricados e para os materiais degradáveis usados na sua construção.

Embora pouco distante dali, o órgão Aeolian Skinner, da Igreja da Trindade, datado de 1923, sofreu danos semelhantes, e permaneceu ocioso e desmantelado por vários anos.

Reconhecendo que a reconstrução ou a produção de um novo órgão de tubos poderia levar mais cinco anos, a Trinity Wall Street chegou a uma solução radical: a fabricação de um novo instrumento digital pela Marshall & Ogletree, com amostras do som original de um instrumento real (samples) reproduzidas por 74 grandes alto-falantes escondidos atrás de tubos falsos no coro. O instrumento foi construído rapidamente e custou US$ 300 mil.

Os órgãos eletrônicos demoraram para ganhar o respeito dos entusiastas dos órgãos de tubos. O som que sai dos alto-falantes pode ser um pouco sem graça, monótono e superficial, e carece do impacto perturbador do rugido produzido por tubos possantes.

Avi Stein, o organista associado e diretor do coral da Igreja da Trindade de Wall Street, permite que a Marshall & Ogletree “imite muito bem um órgão de tubos”, mas acrescenta que “ele carece da qualidade concreta do canto que torna a máquina uma obra de arte”. Ele concordou com Wachner que tocá-lo é, de certo modo, como ouvir uma gravação.

Na St.Paul’s, o órgão Schlicker ficou definhando, sem uso, por oito anos. Depois Larry Trupiano, um técnico-mestre de órgãos de Nova York, foi solicitado em 2009 a assumir o trabalhoso processo de limpá-lo e restaurá-lo. E um ano mais tarde, quando Wachner assumiu o programa da Trindade, havia ainda o problema ergonômico do Schlicker.

Quando Wachner ficou sabendo da disponibilidade do órgão Noack em Chestnut Hill, Massachusetts, partiu com um único objetivo. Ele ficou ainda mais empolgado desde a sua chegada. “Eu sabia que seria muito bom”, disse Wachner, “mas não sabia que seria de classe mundial”.

E Trupiano, por mais que o Schlicker estivesse em seu coração, apoiou a decisão de Wachner de optar por um instrumento de maior alcance estilístico e de uma melhor qualidade.

“Não poderiam ter feito uma escolha melhor”, observou Trupiano. O Noack é um pouco maior do que o Schlicker, com três teclados manuais em comparação com os dois deste último e uma caixa que contém os tubos. Entre os outros registros está um bastante comum que emite uma imitação fraca de trinado de pássaro, que jocosamente apelidado “Byrds”, do nome do organista e compositor elisabetano William Byrd.

Wachner trabalhou com Stein recentemente, no mapeamento dos registros de futuras apresentações, e ambos ficaram maravilhados com a versatilidade do Noack.

“Uma obra francesa, e de repente estamos em Paris”, disse Wachner quando Stein tocou partes do “Missa cum Jubilo” de Duruflé. “Não consigo acreditar no som desta coisa. O Schlicker nunca poderia fazer isto”.

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