Christopher Gregory para The New York Times
Christopher Gregory para The New York Times

Orgulho de Lin-Manuel Miranda por Porto Rico divide opiniões em sua terra natal

Artista está trazendo o musical "Hamilton" para San Juan, e as coisas estão ficando complicadas

Michael Paulson, The New York Times

02 de janeiro de 2019 | 06h00

VEGA ALTA, PORTO RICO - A estrada que leva a Vega Alta é cheia de cartazes de Lin-Manuel Miranda. Ao lado da frase de boas-vindas esculpida em pedra, há um cartaz com uma grande foto do criador de “Hamilton”. Seu pai nasceu aqui, onde ele e a irmã passavam o verão quando crianças, e onde ainda vivem sua tia e tio. Esta é também uma comunidade afetada pela falta de empregos e pela criminalidade, e onde muitas casas estão vazias.

Agora, no coração do bairro comercial está La Placita de Güisin, uma galeria construída por Luis Miranda, o pai de Lin-Manuel, que partiu rumo a Nova York aos 18 anos, mas nunca deixou de voltar periodicamente. Nela, há uma padaria, um bar e um café; uma loja de presentes que vende mercadorias de Lin-Manuel Miranda, e um mural com o seu retrato ao lado do avô.

Miranda, que se prepara para retomar o papel título de “Hamilton” por uma temporada de três semanas a partir de 11 de janeiro, em San Juan, chegou a Vega Alta numa noite de outono. Ele e o pai homenageavam os empreendimentos artísticos locais que a família assiste desde o Furacão Maria.

“Hoje, ele é como um farol para Porto Rico”, disse um dos presentes, Alejandro García Padilla, ex-governador de Porto Rico. Mas até os faróis sofrem com o ímpeto das ondas. A paixão de Miranda por Porto Rico suscitou controvérsias - particularmente porque ele apoiou um plano de reestruturação da dívida supervisionado por um conselho federal impopular, e depois escolheu o teatro da Universidade de Porto Rico para a apresentação de “Hamilton”, que está sendo arruinada pelo plano fiscal do conselho e por uma disputa sindical.

Por isso, em dezembro, com a bênção de Miranda, mas também para sua grande decepção, os produtores de “Hamilton”  decidiram transferir o espetáculo da universidade, que costuma ser palco de manifestações, para um teatro fora do campus, onde será mais fácil garantir a segurança.

Miranda nasceu em Nova York. Ele cresceu - segundo as palavras de Quiara Alegria Hudes, sua coautora no livro “In the Heights” - como “um garoto prodígio do hip-hop portoriquenho de Nova York”, e descreveu  frequentemente a “mudança de código” da infância, quando passava do seu bairro predominantemente hispânico para os bairros brancos onde estavam as suas escolas no Upper East Side.

A filantropia de Miranda, à qual se dedica com a família, está crescendo rapidamente. Nos dois últimos anos, os Miranda distribuíram mais de 4,6 milhões de dólares para organizações sem fins lucrativos e levantaram mais de 8 milhões de dólares para uma série de causas. Recentemente, a família passou a ajudar artistas de Porto Rico, e criou um fundo por meio da Fundação Flamboyan, com o qual espera captar 15 milhões de dólares, principalmente com a produção de “Hamilton”.

“Acho que devo grande parte do que me tornei a esta ilha”, afirmou enquanto dirigia da plantação de café nas montanhas, para o teatro em San Juan. “É uma coisa palpável. É uma questão de tempo. É o ritmo da vida aqui”. Luis Miranda, formado na universidade de Porto Rico, estava ansioso para que o espetáculo “Hamilton” fosse levado para a escola de sua formação. Mas o sindicato que representa os funcionários da universidade enviou a Miranda uma carta avisando-o de que a produção poderia ser afetada por “um conflito em grande escala”.

O apoio de Miranda ao plano da dívida o tornou alvo de críticas. No ano passado, cinco estudantes invadiram o palco, gritando palavras de ordem, enquanto ele estava sendo entrevistado no campus. A família Miranda e os produtores de “Hamilton” ficaram preocupados. Embora os líderes sindicais tenham afirmado a Luiz Miranda que não protestariam durante o espetáculo, a equipe da peça não acredita que os membros do sindicato manterão a promessa, enquanto surgiam boatos de uma ação dos estudantes.

Por isso, no dia 21 de dezembro - depois que o Flamboyan Arts Fund gastou 1 milhão de dólares para reformar o teatro da universidade destruído pela tempestade e modernizar o seus equipamentos, e a produção de “Hamilton” se preparava para montar o espetáculo - o produtor do show anunciou que estava transferindo a produção para o Centro de Bellas Artes Luis A. Ferre.

No dia 23 de dezembro, os presidentes dos diretórios estudantis da universidade à produção que reconsiderasse. Miranda terá de se reconciliar com as contradições - harmonizando o seu orgulho por este lugar, e o orgulho que o país sente por ele, com a realidade contraditória de uma ilha de forte clima político que luta para se recuperar das feridas recentes e históricas.

Por enquanto, ele está distante do tumulto. Depois de cumprir suas obrigações promocionais para “O retorno de Mary Poppins”, ele ensaia o seu papel em “Hamilton” em sua lavanderia em Manhattan. “Não tenho nenhum compromisso para Porto Rico, só quero que o meu país se orgulhe de mim”, afirmou. “Todos os meus esforços aqui são apenas para ajudar a ilha da melhor maneira que eu puder”.

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