Whitten Sabbatini para The New York Times
Whitten Sabbatini para The New York Times

Orquestra rompe barreiras e une inimigos históricos

A orquestra West-Eastern Divan, do maestro Daniel Barenboim, é formada por músicos de Israel e de países árabes

Michael Cooper, The New York Times

15 de novembro de 2018 | 06h00

CHICAGO - O regente Daniel Barenboim entrou na sala de ensaios. Os músicos da West-Eastern Divan Orchestra, o improvável conjunto que ele criou há cerca de 20 anos com Edward Said, estavam afinando os instrumentos.

“Estou muito, muito feliz em vê-los aqui”, disse Barenboim aos integrantes da orquestra, entre os quais há israelenses, palestinos e músicos de outros países árabes. “Estou muito feliz porque muitos de vocês que têm passaportes estranhos conseguiram entrar nos Estados Unidos”.

As novas barreiras levantadas pelos EUA quase ameaçaram frustrar a atual excursão da orquestra a cinco cidades americanas. Os músicos com passaportes da Síria e do Irã, duas das nações mencionadas pelo presidente Donald Trump em sua proibição de viajar, foram liberados e a excursão pôde seguir em frente.

E foi assim que Barenboim pôde ensaiar no Symphony Center de Chicago o “Dom Quixote” de Strauss. O que levantou uma indagação inevitável: como a orquestra se aproxima do seu 20º aniversário, e o sonho aparentemente modesto de poder tocar em todos os países de origem dos seus músicos agora parece fora de alcance, toda esta empreitada não poderia ser considerada impraticável?

“Quando estou com eles, não parece absolutamente impraticável”, disse Barenboim, 75. “Mas quando falo com você, tenho consciência de que é impraticável”.

Impraticável ou não, o projeto superou inúmeras dificuldades desde o seu nascimento, em 1999, em uma oficina realizada em Weimar, na Alemanha, criado por Barenboim, israelense-argentino, com o seu amigo Said, acadêmico, intelectual palestino-americano, falecido em 2003.

A simples proposta do grupo - reunir músicos de grupos que durante décadas se opuseram a tocar juntos a fim de promover o entendimento - hoje parece ambiciosa.

A Divan Orchestra, disse Barenboim, não foi criada como uma orquestra política, ou como uma orquestra da paz, mas como uma maneira de promover o diálogo - a começar por seus próprios integrantes.

“Eu os coloquei juntos, e agora um violoncelista sírio e um israelense sentam em frente à mesma estante”, disse o regente. “O que eles fazem? Primeiramente, afinam com a mesma nota Lá, então precisam ouvir. Depois tentam tocar da mesma maneira, com a mesma arcada. E fazem isto seis horas por dia; em seguida, comem no mesmo restaurante. Sua atitude acabaria mudando”.

Barenboim, que dirigiu os ensaios em Chicago em inglês - passando para o alemão, espanhol ou francês quando necessário - pode ser um regente rigoroso. Mas ele também mostra rapidamente carinho e prazer, e oferece as suas orientações.

“Maravilhoso. Maravilhoso!” disse depois de um trecho.

Houve muitas tensões no decorrer dos anos. O projeto foi desacreditado tanto por israelenses quanto por árabes, e às vezes os músicos tiveram problemas com as próprias famílias.

O concerto abriu com “Dom Quixote”, com o solista Kian Soltani, um jovem celista austro-persa que está em ascensão, e Miriam Manasherov, um violista israelense. E acabou com uma cena rara nas salas de concertos: os músicos se abraçando no palco.

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