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'Os Aeronautas': Um balão em voo torna-se o verdadeiro astro do filme

Balões de ar quente significam como as pessoas podem quando muito lutar - mas não controlar o rumo da própria vida

Amy Nicholson, The New York Times

26 de dezembro de 2019 | 06h00

Em agosto de 1783, no futuro local onde se ergueria a Torre Eiffel, Benjamin Franklin observava dois irmãos que lançavam o primeiro balão a hidrogênio. Este seguiu a direção norte por 45 minutos e então despencou na aldeia de Gonesse, onde camponeses apavorados atacaram o objeto com pedras, facas e forcados e depois arrastaram o que restava do monstro pela cidade sobre um cavalo. Os aldeões não estavam totalmente errados. Os balões são o campo preferido de pessoas desajustadas que não pertencem à terra, e nem mesmo a outras maneiras de viajar pelos céus.

Escolher uma viagem de cesto e balão exige dois traços da personalidade: engenhosidade e imprudência. Não só a pessoa precisa ter a capacidade de projetá-lo - como também precisa ser suficientemente  excêntrica para permitir que a Mãe Natureza assuma o comando.  Os balões de ar quente permitiram que Lex Luthor e Paddington Bear fugissem da prisão.

No filme Os Aeronautas, de Tom Harper, que estreia nos cinemas e no streaming no Amazon Prime Video, o meteorologista vitoriano James Glaisher (Eddie Redmayne) escapa da Royal Society de Londres para embarcar em uma ascensão aos céus, que quebrará recordes; uma empreitada tão traiçoeira que os seus colegas o consideram um louco.

O próprio James Bond fica à deriva em um balão de ar quente. Os agentes 007 de Octopussy e O mundo não é o bastante constatam que as suas opções se reduzem a pular fora, resistir ou a se tornarem os destroços de uma bola. Quando Dorothy pergunta ao Mágico de Oz se ficou com medo quando perdeu o controle do seu balão, ele berra: “Você está falando com o homem que riu na cara da morte, escarneceu do destino e riu da catástrofe! Fiquei petrificado”.

Acima de tudo, os balões de ar quente significam literalmente como as pessoas podem quando muito lutar - mas não controlar o rumo da própria vida. Os balões foram usados principalmente pelos realizadores cinematográficos em breves aparições, uma novidade colocada em um cartaz para que um filme parecesse um épico amalucado, quando na realidade aparecem apenas alguns minutos na tela.

Entre os filmes culpados por esta desorientação estão As aventuras do Barão de Münchausen e Academia de polícia 4: OS cidadãos se defendem. Os Aeronautas é o raro filme que passa a maior parte da história em voo. Em 1862, o verdadeiro Glaisher filmou a 11 quilômetros de altitude na atmosfera a fim de presenciar a movimentos atmosféricos que só poderiam ser vistos no meio das nuvens.

Harper é um apaixonado pelo romance da descoberta e simplesmente do romance: A pilota Amelia Wren, interpretada por Felicity Jones, é uma flagrante mescla de pessoas temerárias na vida real, como a dublê francesa Sophie Blanchard, que ficou viúva quando o marido sofreu um infarto e caiu do cesto sobre Haia, e a sua predecessora, Élisabeth Thible, a primeira destemida balonista que decolou de Lyon, na França, nos trajes da deusa Minerva.

Os Aeronautas é fascinado pelo silêncio ameaçador do céu, e pelo ruído das cordas congeladas arranhando a seda. A própria Blanchard morreu quando o seu balão se incendiou sobre Tivoli (a moderna Eslovênia). No romance de estreia de Júlio VerneCinco semanas em um balão, de 1863, um relato de viagem sobre um voo trans-africano, um passageiro conforta outro observando que provavelmente Sophie não teria morrido se o seu veículo não se tivesse espatifado contra uma chaminé e precipitado ao solo”.

Quando a ideia de uma aventura de balão surge no clássico de Verne, Viagem ao redor do mundo em oitenta dias, de Verne, é logo abandonada porque “não teria condições de ser posta em prática”. Foi uma surpresa para o produtor Mike Todd, que ao receber o roteiro para a sua extravagante adaptação do livro de Verne, em 1956, gritou: “Onde está o balão?”. Ao saber que na realidade o romance não tinha um balão, Todd, que posteriormente morreria em um acidente aéreo, replicou: “Esse foi o erro de Verne. Eu quero um balão”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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