W. M. Keck Observatory/Adam Makarenko via The New York Times
W. M. Keck Observatory/Adam Makarenko via The New York Times

Astrônomos encontraram planeta que sobreviveu à morte de sua estrela

O planeta do tamanho de Júpiter orbita um tipo de estrela chamada anã branca, e dá pistas sobre como nosso sistema solar poderia ser quando o sol se extinguir

Becky Ferreira, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2021 | 05h00

Quando o nosso sol entrar em sua agonia de morte em aproximadamente 5 bilhões de anos, ele irá incinerar nosso planeta e então colapsar dramaticamente em uma brasa morta conhecida como anã branca. Mas o destino de planetas mais distantes, como Júpiter ou Saturno, é menos claro.

No início de outubro, na revista Nature, astrônomos relataram ter observado uma prévia tentadora da vida após a morte do nosso sistema solar: um planeta do tamanho de Júpiter orbitando uma anã branca a cerca de 6.500 anos-luz daqui.

Conhecido como MOA-2010-BLG-477Lb, o planeta ocupa uma órbita comparável à de Júpiter. A descoberta não apenas oferece um vislumbre de nosso futuro cósmico, mas levanta a possibilidade de que qualquer vida em mundos “sobreviventes” possa resistir à morte de suas estrelas.

“Embora existam muitas evidências de detritos planetários rochosos orbitando ao redor das anãs brancas, temos pouca informação sobre planetas intactos”, disse Joshua Blackman, pesquisador de pós-doutorado da Universidade da Tasmânia e principal autor do estudo.

“O destino de nosso sistema solar provavelmente será semelhante ao MOA-2010-BLG-477Lb”, ele acrescentou em um e-mail. “O sol se tornará uma anã branca, os planetas internos serão engolidos e os planetas de órbita mais ampla, como Júpiter e Saturno, sobreviverão.”

O planeta foi visto pela primeira vez por causa dos efeitos de deformação da luz de seu campo gravitacional, um fenômeno conhecido como microlente. Depois de procurar por anos por sua estrela hospedeira com o telescópio Keck II no Havaí, Blackman e seus colegas concluíram que ele estava orbitando uma anã branca que é muito fraca para ser observada diretamente.

Astrônomos usando um método diferente no ano passado relataram ter visto outro planeta intacto semelhante a Júpiter, conhecido como WD 1856 b, orbitando de perto uma anã branca. Mas o MOA-2010-BLG-477Lb circunda sua casca estelar oculta com aproximadamente 3 vezes a distância entre a Terra e o Sol, o que faz com que seja o primeiro planeta conhecido a ocupar uma órbita semelhante a Júpiter em torno de uma anã branca. O WD 1856 b, por outro lado, orbita sua anã branca a cada 1,4 dias, sugerindo que migrou para sua posição atual após a morte de sua estrela, embora a mecânica exata dessa viagem ainda esteja sendo investigada.

Andrew Vanderburg, professor assistente de física no Instituto de Tecnologia de Massachusetts que liderou a equipe que descobriu o WD 1856 b, disse que as conclusões do novo estudo parecem sólidas. Ele também notou que os planetas com órbitas largas ao redor das anãs brancas são provavelmente mais abundantes do que aqueles com órbitas estreitas, mas que o último grupo é mais simples de ser detectado.

“Se eu tivesse que adivinhar, diria que a população deles é muito mais comum porque só precisa ficar lá e nada acontecer com ela”, disse Vandenburg. "Isso me parece o resultado mais provável, pelo menos neste ponto da história do universo."

Estrelas em processo de morte expelem uma radiação prejudicial conforme avançam para uma fase chamada gigantes vermelhas e introduzem turbulência em seus sistemas que podem destruir a vida. Mas existem alguns cenários especulativos que podem preservar a habitabilidade dos sistemas de anãs brancas.

“Há muitas coisas que precisam dar certo”, disse Vanderburg. Ele imagina um planeta distante de uma estrela gigante vermelha que então se move para dentro depois que a estrela se torna uma anã branca e retém “água suficiente para ser potencialmente um lugar agradável para se viver” quando a estrela se transforma em uma anã branca.

Como as anãs brancas são pequenas e escuras, tal planeta teria que estar em uma órbita muito próxima para a existência de água líquida. No entanto, se a vida surgisse em um mundo como a lua de Júpiter, a Europa, que pode conter um oceano subterrâneo aquecido pelas forças das marés de Júpiter, ele poderia sobreviver a uma distância maior da estrela.

“Se a humanidade ainda estiver por aí em 5 bilhões de anos, provavelmente teríamos uma chance melhor de sobreviver à fase gigante vermelha do sol em uma lua de Júpiter do que na Terra”, disse Blackman. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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