Stephane Franzese via The New York Times
Stephane Franzese via The New York Times

Os cabarés de Paris podem ir além do cancã?

Turistas ainda se encantam com lugares como o Moulin Rouge, cujos shows são exóticos, porém antiquados

Laura Cappelle, The New York Times

20 Setembro 2018 | 10h00

PARIS - Há atrações que os parisienses preferem deixar aos turistas, como a Torre Eiffel e os Champs-Élysées, assim como alguns dos programas mais populares da cidade: os dos cabarés. Enquanto os turistas em massa procuram o Moulin Rouge, o Lido ou o Crazy Horse, muitos dos apaixonados pelos teatros da capital nunca puseram os pés ali. O gênero que outrora era festejado em Paris perdeu interesse à medida que o tempo foi passando, nos últimos dez anos do século 20.

Os clientes do Lido e do Moulin Rouge podem beber e jantar, com um serviço de primeira, em dois espetáculos todas as noites. O show Féerie, do Moulin Rouge, é visto anualmente por cerca de 600 mil pessoas, a metade delas estrangeiras. Ela apresenta 100 artistas, mil figurinos cobertos de lantejoulas, cinco jiboias e custa 8 milhões de euros, o equivalente a mais de R$ 38 milhões.

Mas os cabarés de hoje exigem que os clientes suspendam não apenas suas expectativas teatrais modernas, mas também a ironia. A dramaturgia é batida e o exotismo, antiquado. Além disso, o que predomina é o preconceito de gênero. 

O único objetivo é o deslumbramento, seja das plumas, das joias, dos acrobatas ou das mulheres nuas.

Embora os cafés-concertos tenham iniciado a tendência do entretenimento ao vivo juntamente com a comida e as bebidas depois da Revolução Francesa, a cena do cabaré de Paris chegou ao ápice no final do século 19. O fim das restrições impostas às empresas teatrais em 1864 levou a um boom de locais como o Moulin Rouge, no bairro boêmio de Montmartre.

A Paris daquela época está retratada no Féerie do Moulin Rouge, e no Paris Merveilles do Lido. Paris Merveilles tem um espetáculo de mímica, projeções dos pontos mais importantes da cidade e mulheres em topless agitando a bandeira de três cores. O Moulin Rouge preservou as elegantes características de seu auditório Belle Époque, e Féerie faz referência a Toulouse-Lautrec, que pintava o cabaré.

O Moulin Rouge também conta com seu espetáculo mais famoso, o cancã, apresentado pela primeira vez no local em 1889, ano de sua inauguração. A dança em que as garotas jogam as pernas para o alto, originado nos bailes do século 19, tem lugar de destaque em Féeries, com os bailarinos vestidos nas cores da bandeira francesa.

Os conjuntos femininos - mulheres altas, magras, quase uniformemente brancas - foram reproduzidos em parte nos corpos de baile das mulheres das Ziegfild Follies americanas, que fizeram enorme sucesso nos anos 1910 e 1920. Suas herdeiras são as Rockettes de Nova York, mas, ao contrário delas, as “girls” de Paris (como elas são chamadas pelos parisienses) também devem se apresentar em topless.

Há quadros que mostram as bailarinas exibindo uma técnica muito apurada, enquanto outros as tratam como mera decoração. O Crazy Horse oferece uma vitrine das melhores artistas, com seu show Totally Crazy!

No histórico show de abertura, God Save Our Bareskin, doze bailarinas usam chapéus de pele de urso e pouca coisa mais, mas outras vezes, o quadro maravilhosamente iluminado destaca a qualidade das artistas e suas habilidades na dança. Nahia Vigorosa (todas as bailarinas usam nomes artísticos) traz força bruta e projeções em Lay Laser Lay, um número solo em uma roda que gira. Já em Striptease Moi, Daizy Blu e Lolita Kiss-Curl recriam uma brincadeira com os sexos, em que uma delas se veste como homem.

Há uma abundância de talentos, mas pouca criatividade. Que rumo tomará o teatro de revista do século 21? Será ainda viável? A resposta talvez seja não, mas pelo menos os turistas encontrariam em Paris mais portas de acesso para o futuro.

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