Jillian Freyer The New York Times
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Os caçadores de flutuadores de vidro em Rhode Island

Esferas são espalhadas em Block Island a cada ano, atraindo sociedade secreta de fãs que faz tudo para encontrá-las

Hillary Richard, The New York Times - Life/Style

10 de setembro de 2020 | 05h00

BLOCK ISLAND, RHODE ISLAND – Em uma floresta daqui, Katie Hall e membros de sua família extensa penduraram o sutiã de sua mãe no tronco oco de uma árvore com um foco laser de cirurgiões cardiovasculares. Quando isso falhou, Hall, sua mãe, seu irmão, sua tia e seu primo desamarraram os sapatos e usaram os cadarços para improvisar uma rede, na esperança de pegar algo que estava fora do alcance do braço.

Duas horas e uma chuva torrencial depois, finalmente obtiveram sucesso, com a ajuda de uma concha para espaguete presa a um galho. Em outra parte da ilha, Dawn Holmes retornou por uma trilha de terra depois de completar sua missão. Um grupo de mulheres, ainda abaladas por terem se perdido em Rodman Hollow sem sinal de celular, se aproximou. Holmes permaneceu despreocupada, ajustando sua mochila agora vazia.

Quando as mulheres descobriram o que ela havia escondido, gritos de alegria invadiram o lugar. Centenas de lindas flutuadores de vidro sopradas à mão são espalhadas pela região selvagem de Block Island a cada ano, atraindo uma sociedade secreta de fãs que faz tudo para encontrá-las. Eles são os orbívoros. Eben Horton é seu flautista. "Adoro o termo 'orbívoro'. Eles as chamam de orbes. Tecnicamente, são esferas flutuantes, mas, com certeza, são orbes.

É como uma tribo. Estou absolutamente surpreso, honrado e orgulhoso, mas o que foi que criei? Sou o líder de um culto? Não tinha a menor ideia de que se transformaria em algo assim", afirmou Horton, rindo. Horton, um artista vidreiro de 46 anos, começou o Glass Float Project em 2012, como uma excêntrica caça ao tesouro, apenas por diversão. Ele passou a infância velejando os 19 quilômetros de Rhode Island a Block Island, um ponto de 2.833 hectares no Atlântico. Por quase um século, pescadores estrangeiros anexavam flutuadores de vidro a suas redes.

Os flutuadores inevitavelmente se soltavam e viajavam pelo oceano, aparecendo em lugares predestinados depois de jornadas inimagináveis. Horton, um ávido "garimpeiro" de praia, adora refletir sobre a história dessas peças. No primeiro ano, Horton fez à mão150 flutuadores de vidro em seu ateliê na vila de Wakefield, em Rhode Island. O evento começou naquele mês de junho, ganhando um ímpeto inesperado entre os moradores e os turistas.

Block Island vai de menos de mil residentes durante o ano todo para cerca de 20 mil visitantes por dia no auge do verão. As pessoas visitam as praias e os restaurantes, mas a maioria não explora as áreas naturais selvagens e desoladas. A caça ao tesouro se tornou uma porta de entrada para um mundo diferente. Agora em seu oitavo ano, o Glass Float Project tem seu espaço reservado no fluxo diário da galeria de Horton.

Enquanto esperam que a fornalha esquente a cada manhã, ele, sua esposa, Jennifer Nauck, e os dois assistentes aproveitam o tempo para fazer flutuadores. A equipe de quatro pessoas faz 500 flutuadores extremamente cobiçados por ano. Eles gravam o ano e o número em cada um deles com uma broca. A maioria é de vidro transparente. Normalmente, o primeiro feito no ano tem traços dourados. Certa quantidade (correspondente ao ano em curso) é colorida.

Os flutuadores encontrados são registrados no site da ilha para controle do que ainda está disponível. Os orbívoros têm um sistema de honra: apenas um flutuador por pessoa por ano, para deixar tudo equilibrado. O Glass Float Project (que custa aproximadamente US$ 20 mil por ano) é financiado em grande parte por doações do Conselho de Turismo de Block Island. Horton já recebeu várias ofertas de patrocínio para o projeto, mas se recusa firmemente a comercializá-lo de qualquer maneira. É uma uma aventura artística para a população, e ele quer manter de forma modesta seu ato de amor.

Enquanto a caça a orbes é uma atividade que pode ser realizada durante todo o ano, Horton abre cada "estação" de verão embalando cem flutuadores de vidro resistente em seu veleiro e seguindo em direção a Block Island, como se fosse uma espécie de Papai Noel navegante. Ele é reconhecido com facilidade e muito acessível, tanto por meio de seu ateliê de arte em vidro quanto por um grupo on-line iniciado por ele.

Os orbívoros o adoram abertamente, o que tem suas desvantagens quando se trata de operações secretas, como se esconder. "Esses orbívoros sabem o que ele dirige, o que veleja, eles o veem constantemente. Se ele vier para Block Island, eles virão também. O coitado não pode ir a lugar nenhum", contou Jessica Willi, diretora do conselho de turismo. Willi é um dos vários amigos ultrassecretos em que Horton confia para ajudar a esconder os orbes.

Com o passar dos anos, ela teve de fazer alguns ajustes em sua vida. Ela usa um carro diferente quando sai para esconder os orbes, para que ninguém possa reconhecê-la. Procura não publicar fotos de suas caminhadas, porque seus amigos mais desconfiados já foram atrás dela. "Todos nas trilhas pensam que, se você não está caçando, está se escondendo. Os orbívoros têm bastões especiais que espetam nos arbustos por causa de plantas venenosas. Eles trazem garrafas de água e lanches. Estão preparados", disse ela.

Os esconderijos ficam totalmente a critério dos escondedores, com exceção de algumas regras de logística desenvolvidas ao longo dos anos. Os orbes não podem ser escondidos em propriedades particulares, perto da escola ou em qualquer área ambientalmente sensível (como dunas, grama da praia ou penhascos). Todo o resto fica por conta do acaso.

Até mesmo Horton desconhece onde a maioria dos orbes será escondida. Ele prefere desse jeito, para ser honesto quando os orbívoros tentarem arrancar alguma informação dele. "Às vezes, coloco um pequeno na luva de um pescador na praia ou em uma panela de lagosta. Por duas vezes, joguei alguns da balsa para que eles fossem parar em Block Island. Um deles foi encontrado depois em Long Island.

Nessa situação, eu estava poluindo a água? Isso é bom ou ruim? Não sei", contou. Horton gosta de esconderijos em que os orbes de vidro são fáceis de ver, mas difíceis de recuperar. Muitas vezes, esconde alguns em um canhão da ilha, porque rolam até o fundo. Tricia Serio, de 50 anos, professora e reitora da Universidade de Massachusetts Amherst, que mora na cidade de Leverett, em Massachusetts, estava voltando de um passeio para tomar sorvete com o marido e dois filhos quando de repente eles insistiram que ela parasse o carro perto de um canhão.

Uma hora (e muitos gritos) depois, os quatro, picados por mosquitos, ainda estavam parados no escuro, discutindo uma forma de tirar o flutuador de lá. "Fui à casa alugada em que estávamos e peguei uma concha de cozinha e um pouco de fita isolante, o que resolveu a história. Estávamos eufóricos.

Mais tarde, naquela noite, nós nos lembramos de que eles são chamados de flutuadores e de que deveríamos ter derramado água dentro do canhão", disse ela. Depois de voltar para casa sem orbe em sua primeira visita à ilha em 2017, Bill Holbrook levou horas elaborando uma estratégia de "dividir para conquistar". Ele compilou cinco anos de dados do site da cidade, fez perguntas para gerar esconderijos estatisticamente relevantes e criou um mapa térmico da ilha. Em 2018, ele percorreu 35 quilômetros em 48 horas, sem sucesso.

Em 2019, depois de mais um dia sem sorte que o deixou física e emocionalmente exausto, sua namorada, Lisa, sugeriu que voltassem por uma faixa de areia próxima ao cais do Payne. Lá, sem querer, Lisa encontrou um orbe escondido em um pneu velho. "Agora acho que tem mais a ver com carma do que com dados.

Esse pequeno trecho de areia estava no meu mapa térmico? De jeito nenhum. Era para Lisa ter encontrado esse pequeno tesouro? Absolutamente", comentou Holbrook, de 52 anos, diretor de marketing de South Weymouth, em Massachussetts. Horton e seus escondedores se divertem acompanhando os orbívoros on-line, onde eles podem dar um rosto a quem encontrou um flutuador.

Ele pensa muito em como o projeto ganhou vida própria sem esforço e por qual razão repercute tão profundamente entre tantas pessoas. "Acho que todo mundo quer respostas para tudo atualmente. Acontece que não há respostas em relação aos flutuadores de vidro. Você não os encontra, eles encontram você. É uma coisa mágica. As pessoas querem respostas, mas elas precisam de um pouco de magia", disse ele.

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