Erik Szylard Daenitz para The New York Times
Erik Szylard Daenitz para The New York Times

Depois de tomar a América do Norte, coiotes seguem para o Sul

Com grande capacidade de adaptação, espécie está expandindo cada vez mais seu território

Joanna Klein, The New York Times

11 Junho 2018 | 10h15

Os coiotes são excelentes colonizadores.

Eles se reproduzem rapidamente, comem praticamente de tudo e vivem em qualquer lugar, nas florestas, nos quintais, parques e até mesmo nos estacionamentos. Atualmente, podem ser encontrados em cidades como Los Angeles, Nova York e Chicago. Chegaram  ao arquipélago do Sul da Florida, e a Long Island. Em 2010, cruzaram o Canal do Panamá. Agora, a única coisa que impede que eles entrem na Colômbia é um denso trecho de floresta  chamado Região de Dárien. E armadilhas com câmeras os flagraram indo nesta direção.

“Acho que ninguém duvida que o coiote chegará à América do Sul”, disse Roland  Kays, um ecologista da North Carolina State University e do North Carolina Museum of Natural Sciences. “Eles são seguramente uma das espécies animais com maior capacidade de adaptação do planeta”.

Para compreender como estes astutos andarilhos vagaram até penetrar em um país tão distante, o dr. Kays e James Hody, que acaba de se formar na faculdade, estudaram milhares de espécimes de museu, registros fósseis, relatórios científicos e registros das agencias da vida selvagem e percorreram o itinerário destes animais desde 10 mil anos atrás. 

Os mapas por eles elaborados, publicados recentemente no site “ZooKeys”, mostram como estavam equivocadas as estimativas anteriores da difusão histórica dos canídeos mais resistentes da América do Norte. Os mapas também oferecem dados básicos aos cientistas para começarem suas indagações sobre o que acontece quando novos predadores entram em um habitat, e como a hibridização influenciou a evolução dos coiotes.

Desde aproximadamente 10 mil anos atrás, os coiotes viveram em pradaria, pastagens e desertos, do rio Mississippi ao Ohio, e a oeste até a Califórnia. Mas depois de 1900, os coiotes começaram a se espalhar em todas as direções, até os habitats nas florestas. Nos anos 20, haviam chegado ao Alasca, e nos anos 90, já estavam na Costa Leste. Enquanto as entidades que administram a vida selvagem trabalhavam para livrar-se dos coiotes, os animais haviam conseguido expandir desde 1950 o seu campo de ação pelo menos duas vezes em relação ao de qualquer outro carnívoro norte-americano no mesmo período.

Eles se multiplicaram, em parte, por causa da fragmentação crescente das florestas e das terras agrícolas juntamente com a aniquilação dos predadores, como os lobos, pumas e jaguares. E como alguns coiotes antigamente se acoplavam a lobos ou cachorros produzindo híbridos, desenvolveram características que os ajudaram a se adaptar a novos ambientes. 

O dr. Kays acredita que os genes do lobo que tornaram alguns coiotes maiores (mas não uma espécie separada, que alguns chamam coilobo, como ele lembra) provavelmente lhes permitiram uma expansão mais acelerada no Nordeste. Não está claro o que os genes do cachorro produziram nos coiotes - além de torná-los mais parecidos com o pastor alemão.

Há outros mistérios. Por exemplo - de que maneira os coiotes se expandiram tão rapidamente no Alasca e no Noroeste, onde as florestas estão ainda relativamente intactas e cheias de lobos e leões da montanha?

Os coiotes não são os únicos em condições de mudar de continente. A raposa da América do Sul que come caranguejos, está agora no Panamá também e ruma para o Norte. Se os coiotes  conseguirem chegar à América do Sul, será a primeira vez que os continentes trocarão de predadores em três milhões de anos. Não há como saber o que acontecerá.

No entanto, persiste mais uma incógnita.

“Deveríamos considerar isto uma expansão natural, isto é, uma boa coisa, ou devemos considerá-la uma espécie invasora, ou seja, uma coisa ruim?” pergunta o dr. Kays. “De certa forma esta é uma indagação filosófica, porque não há nada que nós possamos fazer”.

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