Giulia Marchi para The New York Times
Giulia Marchi para The New York Times

Os fundamentos de Mao: treinando os comunistas do futuro

As aulas ideológicas fazem parte do currículo universitário na China, mas elas são mais importantes do que nunca para o Partido Comunista - mesmo que muitos estudantes digam que são propaganda entorpecente

Javier C. Hernández, The New York Times

07 Julho 2018 | 10h15

PEQUIM - Democracia: um sistema de governo eficaz ou falho? Poderia funcionar na China? Dissertem e debatam entre si.

Essas foram as instruções do professor numa manhã recente quando 17 universitários se reuniram na Universidade Tsinghua, em Pequim, para o curso “Pensamento maoísta e o sistema teórico do socialismo de características chinesas", um título que quase exige pontuação e faz parte de um regime de ensino ideológico imposto pelo governo da China.

Os estudantes tinham tatuagens de dragões e usavam camisetas irreverentes (uma delas tinha a estampa “distúrbio obsessivo-compulsivo“ nas costas) e se distraíam com jogos de tiro violentos em seus celulares antes da aula.

Mas, dentro da sala de aula 106-B, eles ecoavam a linha do partido.

“Aprendemos que a democracia não pode durar muito aqui", disse o estudante de arquitetura Zhang Tingkai, 19 anos, descrevendo a agitação da Revolução Cultural promovida por Mao.

“É algo que pode facilmente degringolar em populismo", disse o estudante de engenharia Mao Quanwu, 20 anos, “como o que está ocorrendo em Taiwan".

A uniformidade das opiniões teria agradado líderes do Partido Comunista, que costumam alertar para os perigos do liberalismo ao estilo ocidental. Mas os desafios enfrentados pelo partido na tentativa de inspirar uma nova geração de comunistas são claros. Ainda que os estudantes elogiem publicamente os cursos ideológicos desse tipo, no âmbito privado muitos descrevem as aulas como tediosas e irrelevantes sessões de propaganda, participando a contragosto.

Numa das aulas, os estudantes assistiam a novelas históricas e acessavam as redes sociais em seus laptops enquanto o professor falava da importância do estudo da ideologia de Mao. Em outra aula, eles conversavam com amigos e trabalhavam em problemas de física.

Os cursos (alguns já existem há décadas) se tornaram mais importantes do que nunca para o presidente Xi Jinping e o partido.

Ainda que a ênfase em Mao evoque períodos turbulentos da história chinesa, muitos no país ainda enxergam o ex-líder como herói. Elementos de sua filosofia, como a suspeita diante de ideias estrangeiras e a defesa de um poder centralizado, ajudam a legitimar a pauta de Xi.

Assim, pressionados por Xi, os professores estão trabalhando para tornar as aulas ideológicas mais relevantes para os estudantes, recorrendo ao humor e referências à cultura popular.

Ainda que o ensino fundamental e médio tenha sucesso no ensino patriótico, quando os alunos chegam à faculdade, é comum que se tornem mais críticos, loquazes e questionadores. A ideia de um currículo obrigatório contraria os ideais de liberdade acadêmica que muitos admiram.

Na sala de aula de Pequim, os estudantes sabiam recitar tópicos importantes das aulas quando pressionados por Xi Liuchang, a estudante de pós-graduação encarregada de supervisionar a sessão de debate.

Algumas perguntas a respeito de pontos mais específicos das teorias de Mao resultaram em silêncio prolongado. Alguns alunos reconheceram que não tinham se preparado.

Dentro do Partido Comunista, há profundos temores em relação à “pureza ideológica” desta geração de universitários, que têm apenas um elo distante, por meio dos pais e avós, com a era de Mao e os ideais da revolução. A mídia oficial os descreveu como demasiadamente independentes e apáticos.

Os estudantes precisam agora concluir cinco cursos para a formatura, incluindo um curso de marxismo, um curso de moral, um curso de história chinesa moderna, e um “ensino político e situacional”, exploração de temas modernos como a disputa territorial no Mar do Sul da China e políticas ligadas a minorias étnicas.

O governo de Xi repreendeu universidades, entre elas a Tsinghua, onde ele se formou, denunciando-as como demasiadamente relaxadas, e o governo enviou inspetores para combater as críticas ao Partido Comunista nos campi.

Funcionários do governo insistiram para que professores repensem sua maneira de ensinar ideologia, alertando que os estudantes não estão dispostos a escutar “teorias mortas”. Algumas universidades começam a oferecer cursos a respeito da visão de mundo do próprio Xi, intitulados Pensamento de Xi Jinping.

Do lado de fora da janela da sala de aula, um grande cartaz vermelho de propaganda pendurado na lateral de um edifício trazia uma das frases favoritas de Xi, um lembrete da missão e da onipresença do partido.

“Trabalhe duro para alcançar o grande sucesso do socialismo de características chinesas na nova era", dizia o cartaz.

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