Finbarr O'Reilly para The New York Times
Finbarr O'Reilly para The New York Times

Os lutadores sem luvas do Madagáscar

Reflexo da cultura da ilha, o 'moraingy' exige respeito

Finbarr O'Reilly, The New York Times

15 de novembro de 2018 | 06h00

SAMBAVA, MADAGÁSCAR - Fãs devotados procuram os ringues de terra batida ao ar livre. Sentam em bancos de madeira e com cantos e muitos aplausos exaltam os gladiadores do moraingy, a brutal tradição do boxe sem luvas do Madagáscar.

Os rounds são uma confusão de punhos, cotovelos, joelhos e pés pontuados pelos baques dos golpes maldosos e pela pancada dos corpos que caem ao chão. Ganchos, chutes e socos atingem o alvo, são absorvidos e devolvidos com igual ferocidade. Os lutadores, conhecidos como fagnorolahy, executam uma dança violenta até que alguém desiste ou é nocauteado, ou o juiz identifica um vencedor.

"Não sinto medo antes de uma luta", disse o astro Rocky Ambanza, 28. "Se você sente medo, já perdeu. Mas não subestime o adversário".

A cidade de Sambava, no nordeste de Madagáscar, é a capital mundial da produção da baunilha. A grande alta do preço pago globalmente para conseguir este sabor deu impulso à economia local, e a injeção de dinheiro acrescentou um componente comercial a esta forma secular de combate corpo a corpo.

Os vencedores das lutas de moraingy ganham dinheiro e prêmios que podem incluir aparelhos estereofônicos, televisores, bicicletas e até mesmo carros.

O esporte tradicional sofreu também outras mudanças. Praticado anteriormente apenas por homens solteiros entre 10 e 35 anos, agora as mulheres estão participando cada vez mais das disputas, tanto como lutadoras quanto como empresárias.

"Meu marido adora moraingy, por isso com o dinheiro que estamos ganhando com o comércio da baunilha, contratamos lutadores por mês e nos encarregamos da realização dos eventos", disse Maria Hadjee, cuja empresa familiar patrocina uma equipe de moraingy em Sambava com seis lutadores e um treinador.

A equipe viaja pela região de minivan, fazendo propaganda do espetáculo com alto-falantes convidando o público para a luta do dia seguinte contra clubes adversários. 

O combate que se segue permite avaliar a força, a coragem e o caráter, principalmente no caso de uma derrota. As regras, por sua vez, variam de região para região, mas a vitória não será possível se não forem preservadas certas atitudes sociais e princípios fundamentais, afirma Ernest Ratsimbazafy, autor de Martial Arts of the World: An Encyclopedia of History and Innovation (Artes Marciais do Mundo: Uma Enciclopédia de Arte e Inovação). 

"A primeira delas é o autocontrole", escreveu. "O lutador deve superar o medo dos socos, manter a calma e evitar sentimentos de vingança”.

 

Em Madagáscar, as pessoas muitas vezes preferem formas indiretas de confronto - por exemplo, por meio de provérbios ou espalhando boatos sobre práticas de feitiçaria, explicou Sarah Osterhoudt, professora da Universidade de Indiana.

"A harmonia é muito importante. Além disso, há esta ideia da ação coletiva a ser valorizada em relação à ação individual; por essa razão, tudo o que permite que as pessoas enfrentem o combate de uma maneira ritualizada abranda o confronto", disse. "O combate talvez seja uma maneira de fazer isso em um formato previsível".

Aboudou Matchimoudini, a técnica do clube Boîte Noir de Diego, um dos mais competitivos do Madagáscar, concorda que o moraingy diz respeito a algo mais do que o combate. 

"É a nossa cultura, a nossa tradição, nossa história", comentou.

Esta história data do século 15. Os rituais do esporte encorajam o respeito mútuo. O vencedor abraça o adversário, levantando-o do chão antes que o gesto seja retribuído. O vencedor é aplaudido, mas também o vencido.

Os lutadores de Hadjee reuniram-se para um treino em um estádio de futebol. Em seguida, pararam para uma refeição à base de arroz e sopa em um restaurante na beira da estrada.

Os lutadores chegam a ganhar algumas centenas de dólares por mês, o que é o suficiente para Ambanza. Ele viu pela primeira vez uma luta de moraingy aos 15 anos, e imediatamente começou a treinar.

"Luto há dez anos e ganho o suficiente para viver", contou. "O único problema neste momento é que quebrei uma costela".

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