Daniel Rodrigues para The New York Times
Daniel Rodrigues para The New York Times

Os sons dos guetos de Lisboa

Música da artista portuguesa Nídia Minaj ganha o público mundial

Kate Hutchinson, The New York Times

04 Julho 2018 | 10h00

QUINTA DO ANJO, PORTUGAL - Do outro lado do Tejo, no centro de Lisboa, em um local cercado por armazéns de frutas e galpões de armazenamento, uma das mais interessantes produtoras de música de Portugal estava profundamente concentrada atrás dos decks. Uma multidão se acotovelava ao redor de uma mesa de bufê; no canto, havia um bolo em vários andares.

Foi inusitado ver a produtora musical Nídia Borges, 21, neste ambiente, tocando como D.J. na festa de casamento do primo, mas esta tarde foi a único momento que ela conseguiu encontrar antes de partir para uma turnê pelos Estados Unidos. Ela é conhecida no palco pelo seu nome, embora prefira denominar-se Nídia Minaj em homenagem à sua rapper favorita, Nicki Minaj. Ela contou que abandonou seu sobrenome. “Hoje eu tenho minha própria identidade”, disse.

De fato, a frenética música peculiar de Nídia é um sucesso mundial. Seu álbum de estreia, “Nídia é Má, Nídia é F...”, foi incluído entre os 20 melhores álbuns eletrônicos da “Rolling Stone” de 2017. Hoje, é mais fácil encontrar Nídia em um festival de música europeu do que em sua terra.

A música de Nídia funde gêneros da África de língua portuguesa, como kizomba, funaná, tarraxinha e kuduro. Ela mescla estas influências de sua infância com polirritmos, batidas frenéticas, trompas, e elementos de gêneros como trance, tecno europeu, afro-house e R&B americano. O resultado é, ao mesmo tempo, vertiginoso e dançante.

“A música calma é para casais”, disse Nídia, cuja mãe é de Guiné-Bissau e o pai, de Cabo Verde. “Aqui, é preciso que seja como uma explosão na cara das pessoas”. Ela afirma que este som agressivo foi em parte o resultado de uma indústria musical portuguesa que ignorou a diáspora africana. “Quando alguma coisa sai do gueto, não pode ser suave”, acrescentou. “Precisa ter força”.

Há centenas de produtores que fazem música experimental desse tipo. Muitos deles, com cultura familiar das antigas colônias portuguesas como Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, podem ser encontrados em bairros da periferia de Lisboa. Cada produtor tem uma abordagem  distinta do som afro-português, e este muda constantemente de um bairro para outro. Consequentemente, não tem um nome fixo, mas costuma ser definido em português simplesmente como “batida”.

Indiscutivelmente, o princípio orientador deste som e deste cenário é o selo lisboeta Príncipe. Desde 2013, com lançamentos e festas mensais, o selo proporcionou uma plataforma para artistas afro-portugueses e os lançou no cenário mundial. A D.J. e locutora portuguesa Rita Maia disse que a diáspora africana de Lisboa está segregada em termos culturais e geográficos, e o selo Príncipe atua como “a ponte”.

Nídia é a primeira estrela de sucesso do selo - e sua única artista do sexo feminino. Ela começou a postar trilhas no SoundCloud aos 15 anos depois de aprender a lidar com programas de produção musical assistindo a tutoriais do YouTube. 

Marlon Silva, considerado um dos fundadores da batida (ele se apresenta como o D.J. Marfox e foi o primeiro caçador de talentos do selo), descobriu Nídia no Facebook e a contratou para o selo em 2015. "As pessoas acham que eu vou cantar, nunca pensam que eu sou D.J.", disse Nídia.“ Mas não preciso provar nada para ninguém”, acrescentou.

O fato de tornar-se D.J. mudou sua vida, contou, porque pôde comprar equipamento musical e um carro, coisas que estavam fora do alcance da maioria dos jovens de seu bairro.

João Branko, da banda portuguesa Buraka Som Sistema, disse que o sucesso de Nídia marcou o começo de um reconhecimento mais amplo da batida. “Parece o começo”, afirmou. “A cultura do clube de Lisboa dilacerou a indústria da música, e agora não tem volta”. Mas Nídia relutou em liderar a carga. Ela “não quer ser um exemplo”, afirmou.

“Marfox foi quem começou tudo isso, ele abriu portas”, comentou Nídia. “Talvez a gente abra portas para que outros venham atrás de nós”.

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