Shell R. Alpert/Guarda Costeira dos EUA
Shell R. Alpert/Guarda Costeira dos EUA

Os verdadeiros relatos de OVNIs por trás de uma série de ficção

'Project Blue Book' era o nome de um programa americano usado na Guerra Fria com o objetivo de explicar e desmitificar relatos de extraterrestres

Ralph Blumenthal e Leslie Kean, The New York Times

02 de fevereiro de 2019 | 06h00

Envolvendo o assassinato de um espião russo, capangas armados do governo e outros elementos extravagantes na sua trama, a série Project Blue Book, da emissora History Television Network, que narra a história de um programa americano para investigar e desmistificar os OVNIs, ou objetos voadores não identificados, não mostra a narrativa do Project Blue Book da vida real.

A série acrescenta uma dose de sensacionalismo aos casos, com elementos totalmente fictícios. Ainda assim, é adaptada a partir de uma história real. Project Blue Book era o codinome de um programa da força aérea dos Estados Unidos criado em 1952, depois de numerosos relatos de OVNIs durante a época da Guerra Fria, com o objetivo de explicar e desmitificar os relatos recebidos, reduzir o pânico e proteger o público de uma possível ameaça.

O personagem central da série de TV, o astrônomo J. Allen Hynek, interpretado por Aidan Gillen, foi recrutado como consultor científico do Project Blue Book e, no início, sua tarefa era explicar os fenômenos naturais que poderiam ser confundidos com discos voadores e coisas do tipo.

Mas, gradualmente, ele percebeu que os objetos eram reais, e precisavam de mais atenção científica (ainda que ele nunca tenha visto um alienígena, como mostrado na série). Durante o envolvimento do Dr. Hynek, o Blue Book reuniu 12.618 relatos de observação de OVNIs, dos quais 701 continuam sem explicação.

Tudo teve início em 1947. O tenente-general Nathan Twining enviou um memorando secreto ao comandante da força aérea do exército dizendo que "o fenômeno relatado é real, e não se trata de uma visão nem de ficção". Os silenciosos objetos semelhantes a discos apresentavam "capacidade de deslocamento vertical extremo, agilidade (manobras de rolagem, em especial), e movimentação que deve ser considerada evasiva ao observados ou contatados por aeronaves aliadas e sistema de radar".

Um novo projeto, de codinome Sign, foi designado para reunir relatos de OVNIs e avaliar se haveria uma ameaça à segurança nacional. Os funcionários redigiram um relatório ultrassecreto concluindo que a origem dos OVNIs era provavelmente interplanetária.

O relatório foi rejeitado pelo general Hoyt Vandenberg, chefe do estado maior da força aérea, que insistiu na necessidade de encontrar explicações convencionais. O Project Sign acabou evoluindo para o Project Blue Book, com o objetivo de convencer o público que haveria uma explicação para os discos voadores. 

Mas, nos bastidores, as autoridades se viram diante de algo difícil de lidar: observações bem documentadas de OVNIs envolvendo múltiplas testemunhas confiáveis, dados de radar, fotografias, marcas no chão e efeitos físicos nos aviões.

Já em 1953, as autoridades temiam a possibilidade de centenas de relatos de OVNIs, independentemente de serem alarmes falsos ou não, representarem uma ameaça ao serem usados pelos soviéticos para simular uma onda de OVNIs antes de um ataque real. 

A CIA emitiu um relatório secreto recomendando a criação de um programa de propaganda para diminuir o interesse do público no assunto. Seu legado sobrevive na aura de ridicularização que envolve os relatos de observação de OVNIs, inibindo o progresso científico.

"Toda a operação Blue Book foi uma tentativa de acobertar as observações com base na premissa categórica segundo a qual os relatos inacreditáveis não poderiam ter nenhuma base factual", escreveu posteriormente o Dr. Hynek.

O departamento de defesa dos EUA está atualmente envolvido num panorama semelhante: casos militares sob investigação sem o conhecimento do público. De acordo com documentos e entrevistas ligados ao programa, talvez os cientistas saibam mais a respeito do comportamento e das características dos OVNIs, e estejam mais perto de compreender como funciona sua tecnologia. Mas o governo ainda se esforça ao máximo para manter em segredo as investigações e conclusões.

 

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