Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Otimismo dos jovens persiste apesar da desaceleração da China

Mesmo com a recente perda de empregos, Chongqing está prosperando

Keith Bradsher, The New York Times

28 de abril de 2019 | 06h00

CHONGQING, CHINA - Huang Lincai é um animado jovem de 23 anos cheio de otimismo, mesmo depois de perder o emprego recentemente. Durante quase quatro anos, ele trabalhou em uma das três imensas linhas de montagem da Ford Motor em Chongqing, imensa metrópole no sudoeste da China, com quase 20 milhões de habitantes. Passou horas e horas injetando fluido nos freios dos compactos modelos Ford Focus na fábrica.

Mas, com a venda de carros em queda conforme a economia chinesa desacelera, Huang foi demitido em janeiro, destino partilhado por milhares de operários da Ford. Em vez de entrar em pânico diante do revés, ele usou os cinco meses de fundo de garantia para passar algumas semanas na companhia de amigos e pensar em suas opções de carreira, como entrar para a startup de um amigo desenhando quadrinhos no computador.

Ele aceitou um emprego como atendente em um spa, entrando para o crescente setor dos serviços na China, ainda que o salário seja um pouco mais baixo. “Não quero voltar a trabalhar em uma fábrica: é muito tedioso, diferentemente do que eu tinha pensado", disse Huang. Essa confiança juvenil na capacidade de encontrar outro emprego não é incomum na China de hoje. Uma geração mais jovem aprendeu a esperar a prosperidade. Além disso, pensam cada vez mais na realização pessoal.

Mas, como mostram as demissões na Ford, alertas econômicos começam a soar na China. A inflação tem aumentado gradualmente. O crescimento econômico está se erodindo lentamente. Mas, por enquanto, mesmo com a recente perda de empregos, Chongqing está prosperando.

À noite, uma imensa praça para pedestres pulsa com suas luzes e multidões, mesmo durante a semana. As árvores são iluminadas com lanternas brilhantes. Cada andar dos edifícios ao redor está cheio de restaurantes atraentes, oferecendo excelentes refeições por menos de US$ 10 por pessoa. Em bairros menos badalados, uma grande porção de sopa e pasteizinhos custa menos de US$ 2.

Entre os edifícios e sob as colinas cruza a mais longa e mais movimentada linha de bonde do mundo. No subterrâneo há um vasto sistema de metrô. Ambos foram construídos principalmente nos 15 anos mais recentes. Balsas carregadas de mercadorias descem lentamente as águas lamacentas dos rios Yang-tsé e Jialing, que se encontram no coração de Chongqing.

Grandes partes da cidade foram arrasadas ou incendiadas por bombas japonesas durante a 2ª Guerra Mundial. E suas ruas foram palco de combates mortíferos entre facções da Guarda Vermelha no fim dos anos 1960, durante a Revolução Cultural. Chongqing mudou muito em 16 anos, quando a primeira linha de montagem chinesa da Ford foi aberta na cidade.

A região central, delimitada pelo curso dos rios, era decadente e superlotada. Não havia túneis e pontes suficientes cruzando os rios, o que permitiria que mais pessoas vivessem nas margens mais distantes. O metrô ainda era um projeto. Hoje, as terras entre o rio e as fábricas da Ford estão urbanizadas - fenômeno que se estende por muitos quilômetros. A paisagem alterna entre torres de apartamentos e parques de belo paisagismo.

A intensa atividade da construção civil manteve os aluguéis baixos. Huang paga US$ 75 por mês por seu apartamento de quase 50 metros quadrados, com quarto e sala. O apartamento fica em um arranha-céu de 30 andares, vários quilômetros ao norte das fábricas da Ford. É um bairro que não existia quando ele era criança. Huang ganhava cerca de US$ 1 mil por mês na Ford. Com isso, o baixo aluguel deixava um excedente considerável. Ele conseguia poupar e sair para comer com frequência. E o jovem gosta de mostrar a motocicleta modelo Renegade que comprou recentemente.

Mas uma característica de Chongqing contrariou as expectativas da Ford: o espaço para estacionamento. Não há muitos na cidade e, com isso, os preços praticados são altos. A falta de espaço para estacionamento significa que os modernos sistemas de metrô e bonde são muito utilizados. Mas isso não ajuda as vendas de carros na região, conforme evidenciado pelos cortes de empregos na Ford.

Trabalhadores demitidos recentemente lotavam uma central de contratações em fevereiro no norte de Chongqing. Mas muitas das cabines estavam vazias. Huang não está preocupado. Ele passa o tempo andando de motocicleta. Enquanto estava desempregado, ele pensou no que deseja fazer com o restante da vida. “Passeio até a margem do rio", disse ele, “e aprecio a paisagem". / Ailin Tang contribuiu com a pesquisa. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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