Ou Hongyi/The New York Times
Ou Hongyi/The New York Times

Ignorada e ridicularizada, ela trava uma cruzada solitária em defesa do meio ambiente

Na China, onde qualquer indício de protesto é visto com suspeita, uma adolescente está tentando chamar a atenção para os perigos que o desenvolvimento humano representa para o mundo

Steven Lee Myers, The New York Times - Life/Style

23 de janeiro de 2021 | 05h00

Ou Hongyi parou de ir à escola depois de assistir ao filme Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, um documentário a respeito da catástrofe climática que se aproxima, no seu aniversário de 16 anos.

Os pais dela, professores universitários, reprovaram a ideia, mas ela estava determinada a tentar fazer a diferença — um desafio ainda maior na China, onde as pessoas que tentam fazer a diferença atraem suspeitas, ou coisa pior.

Nos dois anos passados desde então, ela travou uma batalha solitária e, frequentemente, frustrante, na tentativa de conscientizar o público a respeito dos perigos de um planeta em aquecimento. Ela participou de “greves pelo clima” internacionais, plantou árvores na sua cidade natal, Guilin, no sul da China, e organizou uma série de protestos de uma só mulher.

Ela foi chamada de Greta Thunberg da China, lembrando a ativista sueca algumas semanas mais nova do que ela. Mas Greta é celebrada pelo ativismo. É convidada para falar em Davos e nas Nações Unidas. A revista Time a escolheu como pessoa do ano em 2019.

Na China, onde todo tipo de ativismo é visto como desafio ao governo do Partido Comunista, Ou Hongyi foi ignorada, ridicularizada e jogada no ostracismo, além de perseguida por funcionários escolares e policiais.

Quando ela aderiu à greve global pelo clima, no dia 25 de setembro, em Xangai, um evento internacional que atraiu milhares de manifestantes em mais de 3.500 locais, ela foi detida e interrogada durante horas pela polícia. Os oficiais a repreenderam.

“Eles pensavam que não havia sentido no que estávamos fazendo", disse ela.

A China tem um histórico ambiental ruim, tendo como prioridade nas quatro décadas mais recentes a transformação econômica acelerada. Agora há sinais de que o país começa a considerar as consequências do desenvolvimento descontrolado, como a poluição sufocante, as vias fluviais contaminadas e enchentes incomuns que foram atribuídas às mudanças climáticas.

O líder do país, Xi Jinping, anunciou recentemente o compromisso de adotar o tipo de medidas ousadas que ativistas como Ou Hongyi vêm defendendo. Ele prometeu que as emissões da China alcançariam o auge em 2030, e o país alcançaria a “neutralidade em emissões de carbono” — quando as emissões são totalmente compensadas pela captura ou remoção de carbono — já em 2060.

As promessas de Xi foram bem recebidas por muitos, mas também houve ceticismo, já que o cumprimento dessas metas exigirá mudanças significativas na política econômica do país. Ou Hongyi, que não se considera uma crítica do governo, desconversou quando indagada a respeito das metas.

“Cabe aos cientistas avaliar", disse ela.

Ela citou então um relatório recente de autoria de três pesquisadores de destaque na área climática alertando que a China precisa alcançar essas metas muito antes — auger das emissões até 2025 e neutralidade de emissões de carbono até 2050 — para que o mundo tenha esperança de evitar danos catastróficos por causa do aquecimento global.

“Todos deveriam se dar conta que a crise climática já é a maior crise existencial enfrentada pela humanidade", disse ela.

As pessoas precisam ler a respeito da crise, compreendê-la e debatê-la com os amigos e parentes.

“Quando finalmente lerem e a compreenderem, elas saberão o que fazer", Ou Hongyi disse.

Ou, que completou 18 anos no dia 11 de dezembro, nasceu em Guilin e cresceu em um campus universitário de uma cidade conhecida pelas belezas naturais. Em uma de muitas entrevistas concedidas pelo telefone, ela descreveu caminhadas pelos parques e pelas montanhas nos arredores da cidade. Ela disse ter a sensação de ter a natureza “injetada no meu sangue e nos meus ossos".

Ela gostava da escola. Jogava futebol, embora poucas meninas fizessem o mesmo. Como passatempo, desenhava e pintava aquarelas e, posteriormente, quadrinhos. Agora, ela sente que passatempos são perda de tempo.

“Diante do grave problema que enfrentamos, com a vida sendo mutilada e torturada, que desculpa temos para atender aos nossos próprios desejos?” disse ela.

Ela disse que seu despertar ecológico começou com um sonho que teve em janeiro de 2018. No sonho, ela ia a um restaurante onde os comensais eram servidos um balde de peixes e uma faca. Cada um tinha que apanhar e matar um peixe se quisesse comer. Quando ela estava prestes a matar seu peixe, “o peixe se voltou e olhou para mim", disse ela.

“Ainda me lembro do medo no seu olhar", disse ela. “Nunca mais comi carne desde então.”

No começo, ao assistir a Gore em Uma Verdade Inconveniente, ela ficou convencida que deveria estudar em Harvard, como ele fez. Em vez disso, decidiu adiar a ideia de cursar a faculdade e se dedica ao estudo independente da ciência envolvendo a mudança climática.

Quando ficou sabendo do movimento de Greta, Fridays for Future [Greve global pelo clima], em 2019, ela ficou constrangida em saber que não havia protestos do mesmo tipo na China para chamar a atenção para a questão da mudança climática. Em maio daquele ano, ela organizou o primeiro protesto do tipo no seu país, fazendo piquete sozinha diante do edifício do governo municipal de Guilin por seis dias.

No sexto dia, a polícia a levou para interrogatório, convocando os pais dela e pedindo a eles que a impedissem de continuar.

“Nem todos têm uma reação positiva", disse ela.

Ainda assim, o mapa de greves globais do movimento tem agora um ponto indicando Guilin. E um punhado de novas mobilizações chegaram a cidades como Nanjing e Xangai, talvez inspiradas pelo exemplo dela.

Ou Hongyi faz pouco das comparações com a outra jovem defensora do clima, mais famosa.

“Me parece que o profundo conhecimento de Greta a respeito da crise climática e seu entendimento do mundo e preocupação com a humanidade são coisas que ainda não alcancei", disse ela.

Ou Hongyi disse que seu ativismo afetou a relação com os pais, que ainda esperam vê-la na faculdade. Mas eles também se tornaram vegetarianos, e ainda oferecem a ela apoio moral e material. Ela passou boa parte dos dois anos mais recentes tentando (sem sucesso) construir alianças com outros ativistas na China.

A China tem organizações ambientais, mas elas atuam sob atenta vigilância das autoridades, como todas as organizações não governamentais, e geralmente evitam manifestações diretas e fazer críticas. Quando ela se candidatou como voluntária para participar da cúpula anual da Rede de Ação Climática da Juventude Chinesa, em Shenzhen, no ano passado, os organizadores recusaram a oferta dela.

Hu Jingwei, funcionária da rede, manifestou sua admiração pela devoção de Ou, descrevendo-a como “bastante ativa e corajosa". Ela também disse não saber ao certo se Ou Hongyi “se enquadra nos critérios de qualificação” para a participação na organização, mas não explicou por quê. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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